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Inglês

Gramática e língua estrangeira

As evidências que o texto traz

Celina Bruniera*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Quem ouve falar em aulas de língua inglesa, pensa logo em verb to be, present perfect, personal pronouns, possessive adjectives, entre tantos outros temas da gramática inglesa. Ao mesmo tempo, também é verdade que, para grande parte dos alunos, os conteúdos gramaticais nunca ficam muito claros, mesmo sendo tão recorrentes nos cursos de inglês.

De fato, esses conteúdos funcionam, inclusive, como eixos de articulação dos próprios cursos de inglês - o que significa que aquilo que se quer ensinar é pensado justamente a partir da gramática. Por essa perspectiva, se os alunos têm dificuldade de entender os aspectos gramaticais do inglês, todo o aprendizado da língua acaba comprometido.

Sendo assim, antes de tudo, é necessário colocar a seguinte questão: por que aprendemos uma língua estrangeira e qual seria a função da sua gramática no contexto desse aprendizado?

Uma mãozinha da gramática
Se nosso objetivo é o uso da língua em situações de comunicação - ou seja, se queremos ser bons leitores, escrever bem e conversar com os outros, entendendo o que nos dizem e nos expressando adequadamente -, é importante pensar em que medida a gramática pode constituir algo que efetivamente nos ajude.

Preocupada em compreender a linguagem humana, a lingüística tem contribuições significativas que podem dar um novo significado ao lugar da gramática nos cursos de inglês. Em uma de suas abordagens, a gramática aparece associada aos gêneros textuais e na forma de regras do uso da língua, de acordo com a situação comunicativa em questão.

Já falamos da importância dos gêneros textuais para a leitura e para a produção escrita. Sabemos também que, ao elaborarmos um texto (oral ou escrito), nós nos guiamos por um determinado gênero, que tem uma intenção particular: narrar, relatar, expor, argumentar ou dar instruções. Para cada um desses gêneros existe um tipo de texto específico (carta, conto, reportagem, verbete, debate, receita, bula de remédio, etc.) que, por sua vez, tem características próprias.

Lé com lé, cré com cré
É fácil diferenciar uma carta de um conto. E não escrevemos uma carta para um amigo do mesmo modo que redigimos uma carta de demissão para a empresa na qual trabalhamos. Diferentes interlocutores, com intenções diferentes e em contextos diferentes, só podem fazer uso da língua de uma forma também diferente.

Para cada situação comunicativa específica, há formas lingüísticas mais adequadas que outras. Assim, é fundamental que - a cada nova situação comunicativa de que participamos -, pensemos na maneira mais adequada de nos expressarmos. A gramática serve exatamente para nos ajudar a fazer essa escolha e, assim, aprimorarmos nosso desempenho lingüístico.

Quer ver? Vamos analisar um texto que fez parte da prova de inglês da FUVEST de 1998.

Letters

Science talent redirected
“Is Science Talent Squandered?” ("Science News": 5/31/97, p.338) sent me into a reverie of my precollege days. Having achieved, at 10 years of age, minor celebrity status in Nation’s Business by inventing a “new” cotton picker, having burned holes in my parents’ basement ceiling with my huge Gilbert chemistry set, and having been given a key to the high school lab to conduct my own experiments on weekends, I knew I would be a scientist. Then came college and the public denigration (in an introductory chemistry class) of my poetic expression of the practical application of combustion. Literary and artistic teachers and friends enjoyed my “weird” presentation, so I joined their ranks instead, achieving modest adult recognition as a writer but still finding my real reading interest in science.
If I had found a Carl Sagan some 40 years ago, I might be in a different college in my university today, but perhaps with different regrets.

(F. Richards Thomas, Professor of American Thought and Language, Michigan State University, East Lansing, Mich. ["Science News", 26 July 1997, vol.152])


De olho nas pistas
Antes de começarmos a leitura do corpo do texto, temos informações preciosas no seu início e no seu final. A primeira palavra que lemos é "letters", que significa cartas. Logo abaixo do texto, temos a identificação do autor e da publicação. O autor é F. Richard Thomas, professor de filosofia e linguagem na Universidade do Estado de Michigan, nos Estados Unidos. O texto foi publicado no volume 152 da revista "Science News", de 26 de julho de 1997. Associando o que está grafado no início e no final do texto, podemos concluir que o autor escreveu uma carta para a revista e que ela foi publicada numa seção de cartas, intitulada "Letters".

O título do texto é "Science talent redirected", que são palavras que apresentam muita semelhança com seus equivalentes em português. Sem dificuldade, poderíamos traduzi-lo como Talento científico redirigido ou redirecionado e, assim, nos aproximarmos do tema da carta.

Logo depois do título, o autor escreve "Is Science Talent Squandered?" (SN: 5/31/97, p.338). Mesmo sem conhecer a palavra "squandered", podemos observar que ela faz parte de um título de um outro texto publicado na página 338 da mesma revista, em 31 de maio de 1997.

Isso é o que concluímos a partir da leitura do que está entre parênteses. E isso significa que Thomas escreveu sua carta referindo-se a um texto publicado dois meses antes do seu. Referência que fica explícita, inclusive, na semelhança existente entre os dois títulos ("Is Science Talent Squandered?" e "Science Talent Redirected").

Elementar, meu caro Watson!
Essas informações são suficientes para levantarmos algumas hipóteses sobre a linguagem usada pelo autor para elaborar seu texto. Como se trata de uma revista especializada, como Thomas é um professor universitário e, para elaborar seu texto, parte de outro publicado pela mesma revista, temos a expectativa de que o texto seja escrito numa linguagem formal e de que faça alusão a temas pertinentes ao universo científico.

No texto, o autor relata momentos que antecederam sua entrada no mundo acadêmico e evidencia que sua expressão poética da aplicação prática da combustão foi responsável por seu redirecionamento profissional. Fica implícita uma crítica a essa concepção de ciência que despreza a linguagem poética como meio de expressão, na alusão que faz ao famoso astrônomo Carl Sagan, cujas obras trazem muito da linguagem literária.

Verbos nos passado
Por ser um relato de momentos que antecederam a entrada do autor na faculdade, o texto foi escrito a partir da composição de tempos verbais que expressam passado (simple past e past perfect). Além disso, o desenrolar do tempo é percebido a partir do uso de marcadores temporais ("at the age of 10", "then came college, 40 years ago"). A formalidade surge no uso recorrente do gerúndio ("inventing", "achieving", "finding"), por meio de construções na voz passiva ("having achieved", "having burned", "having been given") e a partir da escolha do léxico, ou seja, das palavras ("conduct", "denigration").

A intenção desse exemplo é tentar aproximá-lo de uma abordagem da gramática no texto, o que contextualiza os conteúdos gramaticais e, por isso, lhes dá mais sentido.

* Celina Bruniera é mestre em Sociologia da Educação pela USP e assessora educacional para a área de linguagem
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012
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