Universidade de Brasília reintegra aluno perseguido pela ditadura militar
Da Redação*
Em São Paulo
Depois de 40 anos, Iraê Sassi voltará a ser calouro. A Câmara de Ensino e Graduação da UnB (Universidade de Brasília) aprovou por unanimidade na terça-feira (22) a reintegração dele ao curso de letras/tradução. A decisão devolve ao paulistano de 59 anos o direito de estudar na instituição.
A história acadêmica de Iraê na UnB começou em 1970, quando ele passou no vestibular para estudar Engenharia Mecânica, mas não consegue efetivar sua matrícula. "Fiz movimento secundarista, fiquei com o nome marcado", afirma.
O rapaz de 19 anos pediu, então, que a reitoria reconsiderasse a decisão. Um despacho do vice-reitor José Carlos de Almeida Azevedo, capitão de mar e guerra da Marinha, indefere o pedido. "Ele me considerava uma ameaça à ordem". Iraê, então, parte para a Justiça para tentar valer seu direito de frequentar a UnB.
A batalha judicial entre o aluno e a reitoria só terminaria no final do ano seguinte no Supremo Tribunal Federal (STF). Em sua argumentação, o reitor da época, Caio Benjamin Dias, diz que a universidade não poderia "acolher em seu seio, numa posição cômoda, porém masoquista (...) estudantes hostis à ordem, à disciplina e à própria comunidade universitária".
Em 25 de novembro de 1971, o ministro do Tribunal Federal de Recursos (TFR) Armando Rollemberg decidiu em favor do estudante. Iraê Sassi foi registrado com o número de matrícula 70/05695. Ainda assim, ele não chegou ao final do curso. "Lembro que cursei as disciplinas de cálculo, mas logo a repressão aumentou e tive que sumir de circulação", conta o ex-militante do Partido Operário Revolucionário Trotskista Pousadista. Iraê não participou da luta armada, mas estava envolvido com atividades políticas de esquerda. Aos 21 anos, mudou-se para São Paulo e começou a viver na clandestinidade.
Documentação
Enquanto Iraê Sassi se escondia do regime – chegou a mudar de casa sem levar nada pelo menos cinco vezes -, ele foi retirado do quadro de estudantes da UnB. Em agosto de 1974, ele foi jubilado por rendimento insuficiente. No histórico escolar que subsidiou o desligamento, consta que ele vinha frequentando as aulas desde 1970 e que estava matriculado em apenas uma disciplina: ciências humanas.
"O aluno só conseguiu cursar a UnB em 72, depois da decisão do STF. E, além disso, não há registros de uma disciplina chamada ciências humanas", diz Elaine Maria de Oliveira Alves, professora da medicina, a quem coube relatar o processo na câmara. As duas informações, mais a documentação do processo judicial, serviram como evidência de que a direção da universidade à época queria afastá-lo do campus.
A reintegração de Iraê Sassi foi aprovada por unanimidade pelos 15 integrantes que estiveram presentes à sessão da Câmara de Ensino e Graduação de ontem. "Fizemos justiça a ele", afirma a relatora. O calouro, que é casado e pai de três filhos adolescentes, começa as aulas em setembro.
Em seu retorno à UnB, Iraê cogitou estudar ciência política ou agronomia, mas acabou se decidindo por letras/tradução com habilitação em inglês. A escolha foi ditada pelos rumos que a vida dele tomou depois da perseguição política. Sem formação específica e vivendo na clandestinidade, Iraê foi mandado pelo partido para a Europa no início dos anos 80. "Lá comecei a fazer trabalhos como intérprete por uma questão de sobrevivência", conta.
Depois de passar 19 anos fora, retornou a Brasília em 2000 e começou a atuar como tradutor de italiano e espanhol. Para ele, o significado do canudo será simbólico. "É como se eu estivesse recuperando um pedaço da minha história."
O calouro está ansioso para experimentar a vida social e cultural da instituição. "Quero aproveitar a oportunidade de estar na universidade. A UnB faz parte do meu imaginário desde a adolescência", conta Iraê que é filho de um assessor de Darcy Ribeiro e conheceu o campus ainda em obras. Entre os planos dele, está cursar as aulas de dança. Sobre os professores e colegas, diz que terá humildade para aprender com todos. "Posso contar a minha história como testemunho, mas não tenho a pretensão de ensinar nada a ninguém.”
* com informações da Agência UnB
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