Com bolsa para poucos, fazer parte da graduação fora do Brasil fica mais fácil para quem pode se bancar

Elisa Estronioli
Em São Paulo

Um fator significativo para fazer intercâmbio é ter dinheiro para se manter lá fora. A solução para os de menor renda é conseguir uma bolsa, seja de financiamento público ou privado. Mas será que eles têm essa chance mesmo?

Em geral, as bolsas são concedidas por mérito. O professor José Pissolato Filho, da Coordenadoria de Relações Institucionais e Internacionais da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), conta que os alunos que vão para o exterior com bolsa estão sempre entre os dez melhores das turmas – não importa se é rico ou pobre. Mas reconhece que a renda não exerce um papel neutro nessa seleção: “Claro que faz diferença se o aluno estudou numa escola boa, se fez inglês numa escola boa. Já tivemos alunos que não tinham dinheiro e foram com mérito próprio, mas é verdade que o estudante que o pai pôde dar um intercâmbio para os EUA durante o colegial, por exemplo, tem um pouco mais condições.”

Com consciência desse perfil, José Celso Freire Júnior, assessor de relações externas da Unesp (Universidade Estadual Paulista), conta que a universidade tem um programa exclusivo para alunos “carentes”. Em um convênio com a Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, a Unesp manda todo ano 12 estudantes das três grandes áreas [humanas, biológicas e exatas] para estudar lá. A seleção – que não perde o caráter meritocrático - é feita só entre estudantes que recebem a bolsa-auxílio da universidade – um indício de baixa renda.

“Na minha escola, geralmente quem vai [para o exterior] o pai tem condições de pagar. Temos bolsas para alguns casos, mas são uma minoria na FEA”, diz a professora Irene Kazumi Miura, da comissão de relações internacionais da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto (FEA-RP/USP). Apesar desse perfil, a professora gosta de ressaltar um lado em que a internacionalização beneficia também os pobres: “Quando eu recebo contingente de alunos estrangeiros, o ambiente da escola fica mais diversificado em termos culturais. Nessa convivência, até o aluno que é pobre, que não vai conseguir sair [do país], vive isso, é um fator de inclusão. As discussões em sala de aula são outras.”

Na FEA-RP, ela conta, existe um “welcome team”, ao modelo dos existentes em países do hemisfério norte, composto, em sua maioria por alunos de baixa renda, cuja função é ajudar os estrangeiros a se socializarem no Brasil. “Nesse processo eles também aprendem, tem a oportunidade de exercitar a língua”, diz Miura.



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