Mãe de estudante da USP detido é presa por suposto desacato a autoridade

Janaina Garcia
Do UOL Notícias <br> Em São Paulo

A mãe de um dos estudantes detidos após a reintegração de posse da reitoria da USP (Universidade de São Paulo) foi presa na tarde desta terça-feira (8) por supostamente ter desacatado um policial militar. O nome dela não foi revelado.

O caso foi relatado por outra mãe, que acompanhou a confusão. A mulher presa teria reclamado da forma “ofensiva” com a qual um policial teria se dirigido ao grupo de estudantes presos e o teria mandado "tomar no c...". Um fotógrafo que estava trabalhando no local e presenciou a cena foi depor como testemunha.

Segundo o delegado José Roberto Arruda, ela irá assinar um termo circunstanciado de ocorrência e ser liberada.

A outra mãe, por sua vez, também reclamou da polícia. “[Os policiais] Estão maltratando nossas crianças”, disse. Ela não quis dizer o nome.

Habeas corpus

O advogado dos 73 estudantes presos após a reintegração de posse da reitoria da USP (Universidade de São Paulo), Vandré Paladini Ferreira, afirmou no começo desta tarde que vai entrar na Justiça com um pedido de habeas corpus para a libertação deles. Ele trabalha para o MST (Movimento dos Sem-Terra) e está fazendo a defesa dos alunos.

Na avaliação dele, a prisão foi "arbitrária, ilegal, irregular". "Estão imputando crime de depredação de patrimônio de forma coletiva, quando a ordem jurídica não permite isso. A conduta tem que ser individualizada", afirmou.

Ainda conforme o advogado, não haveria motivos para os alunos ainda estarem presos, tendo em vista que "muitos já assinaram a nota de culpa no TCO [Termo Circunstanciado de Ocorrência] e ainda estão dentro de ônibus debaixo do sol e sem acesso a água".

Redução de fiança

A Polícia Civil anunciou que o valor da fiança para liberação dos estudantes detidos após a reintegração de posse, que ocorreu na manhã de hoje, foi reduzido de R$ 1.050 para R$ 545. A polícia também se corrigiu e informou que 73 alunos foram detidos -inicialmente, a corporação havia informado que eram 70.

Edvaldo Faria, coordenador da central de flagrantes da terceira delegacia da seccional oeste, disse que a decisão de reduzir o valor da fiança foi tomada "por se tratar se estudantes". “Analisamos prós e contras e decidimos pela redução do valor. Alguns teriam de se sacrificar para pagar [a fiança]”, disse.

Indagado se a decisão foi influenciada pela manifestação que ocorre do lado de fora do 91º DP, na qual cerca de 150 estudantes pedem a liberação dos detidos, o delegado foi taxativo. “Isso foi decidido antes”, disse. O delegado também negou as acusações de que os estudantes estão sofrendo perseguição política.

No momento, os alunos detidos estão sendo ouvido e indiciados. De acordo com a polícia, ao menos 20 já foram interrogados.

Reintegração de posse

A reintegração de posse da reitoria da USP terminou por volta das 7h20 da manhã desta terça-feira. Segundo Maria Yamamoto, coronel da PM, "não houve resistência; eles foram pegos de surpresa". Até uma estudante com uma garrafa de vinagre foi detida. Os policiais militares pensaram que a garrafa nas mãos da mulher era uma bomba caseira. A identidade da mulher não foi divulgada.

O prazo para os estudantes deixarem o edifício venceu na noite de segunda (7), às 23h. Em assembleia realizada ontem, os estudantes optaram por permanecer no prédio. Havia cerca de 600 estudantes na reunião.

Os alunos ocupam o local desde a madrugada da última quarta-feira (2), em manifestação contra a presença da Polícia Militar no campus da USP no Butantã e contra processos administrativos envolvendo funcionários da USP.

Debate sobre a PM

O debate sobre a presença da PM no campus voltou à pauta na quinta-feira (27), quando policiais abordaram três estudantes que estavam com maconha no estacionamento da faculdade de História e Geografia. A detenção gerou confusão e confronto entre estudantes e policiais –que culminou com a ocupação da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) e, posteriormente, da reitoria. 

A presença dos policiais no campus –defendida pelo reitor, João Grandino Rodas, e pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB)– passou a ser mais frequente e em maior número após a morte do estudante Felipe Ramos de Paiva, em maio deste ano. Em setembro, o reitor e o governador assinaram um convênio, autorizado pelo Conselho Gestor do Campus, para regulamentar a atividade da PM na USP.

Os contrários à PM no campus dizem que a medida abre precedente para a polícia impedir manifestações políticas –que comumente ocorrem dentro do campus– e citam o episódio de junho de 2009, quando a Força Tática da PM entrou na universidade para reprimir um protesto estudantil e acabou ferindo os estudantes e jogando bombas dentro de unidades.

Como alternativa à PM, o DCE defende que a segurança do campus não seja militarizada, isto é, que seja de responsabilidade da Guarda do Campus. A entidade defende que haja mais iluminação das vias do campus e que a USP mais seja aberta à comunidade externa, aumentando a circulação de pessoas.

Uma parcela dos alunos –sobretudo da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) e da Escola Politénica– defende a presença da PM, argumentando que isso aumenta a segurança dos frequentadores do campus.

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