Ponto de partida
Gravar e transcrever uma conversa informal entre pessoas com a autorização prévia delas, tomando o devido cuidado para posicionar corretamente o gravador, a fim de captar um som de qualidade. Da mesma forma, transcrever a gravação com bastante cuidado, para não cometer erros que possam desconfigurar o texto falado, tornando-o sem utilidade para fins de análise e/ou outras atividades. Para a gravação não é necessário um gravador tradicional. A atual tecnologia nos provê dos mais variados aparelhos: celulares, ipods, mp3, mp4, etc.
Objetivos
1) Levar os alunos à prática da pesquisa no âmbito escolar.
2) Iniciar os alunos na sondagem e reflexão das relações entre fala e escrita.
3) Proporcionar aos alunos técnicas de transcrição da fala, que por si só vale todo o esforço da atividade, na medida em que coloca o aluno em contato direto com as particularidades da modalidade falada da língua, que, por ser tão óbvia, cotidiana, torna-se para nós erroneamente banal.
4) Montar com os alunos um
corpus que sirva para atividades de retextualização da fala para a escrita.
Estratégias
1) Peça aos alunos que gravem conversações espontâneas.
2) Depois da gravação, peça que transcrevam as gravações, usando como modelo o sistema de transcrição do
Projeto NURC, mostrado na tabela abaixo.
3) Se tiverem uma câmera, para filmar a conversa, a atividade ficará mais completa, porque ela mostra o ambiente, os olhares, os gestos, o movimento dos corpos dos interlocutores.
Comentário
É importante que a conversa seja realmente espontânea, pois só assim será possível captar a fala das pessoas num momento de total informalidade, o que deixará transparecer a real natureza da língua falada.
Normas
para transcrição |
Ocorrências
| Sinais | Exemplificação* |
| Incompreensão
de palavras ou segmentos | (
) | do
nível de renda... ( ) nível de renda nominal... |
| Hipótese
do que se ouviu | (hipótese) | (estou)
meio preocupado (com o gravador) |
| Truncamento
(havendo homografia, usa-se acento indicativo da tônica e/ou timbre) | / | e
comé/ e reinicia |
| Entoação
enfática | maiúscula | porque
as pessoas reTÊM moeda |
| Prolongamento
de vogal e consoante (como s, r) | ::
podendo aumentar para :::: ou mais | ao
emprestarem os... éh::: ...o dinheiro |
| Silabação | - | por
motivo tran-sa-ção |
| Interrogação | ? | eo
Banco... Central... certo? |
| Qualquer
pausa | ... | são
três motivos... ou três razões... que fazem com que se retenha moeda... existe
uma... retenção |
| Comentários
descritivos do transcritor | ((minúsculas)) | ((tossiu)) |
| Comentários
que quebram a seqüência temática da exposição; desvio temático | --
-- | ... a demanda
de moeda -- vamos dar essa notação -- demanda de moeda por motivo |
| Superposição,
simultaneidade de vozes | {
ligando as linhas | A.
na { casa da sua irmã B. sexta-feira? A. fizeram { lá... B. cozinharam
lá? |
| Indicação
de que a fala foi tomada ou interrompida em determinado ponto. Não no seu início,
por exemplo. | (...) | (...)
nós vimos que existem... |
| Citações
literais ou leituras de textos, durante a gravação | "
" | Pedro
Lima... ah escreve na ocasião... "O cinema falado em língua estrangeira não precisa
de nenhuma baRREIra entre nós".... |
| *
Exemplos retirados dos inquéritos NURC/SP n. 338 EF e 331 D2. |
Observações
1. Iniciais maiúsculas: só para nomes próprios ou para siglas (USP etc.)
2. Fáticos:
ah, éh, eh, ahn, ehn, uhn, ta (não por
está: tá? você
está brava?)
3. Nomes de obras ou nomes comuns estrangeiros são grifados.
4. Números: por extenso.
5. Não se indica o ponto de exclamação (frase exclamativa).
6. Não se anota o
cadenciamento da frase.
7. Podem-se combinar sinais. Por exemplo: oh:::... (
alongamento e
pausa).
8. Não se utilizam sinais de
pausa, típicos da língua escrita, como ponto-e-vírgula, ponto final, dois pontos, vírgula. As reticências marcam qualquer tipo de
pausa, conforme referido na
Introdução.
Referência bibliográfica
PRETI, Dino e URBANO, Hudinilson (Org).
A linguagem falada culta na cidade de São Paulo. São Paulo: T. A. Queiro, Fapesp, 1990. v. 4.
*Jorge Viana de Moraes é professor universitário em cursos de graduação e pós-graduação na área de Letras. Atualmente, mestrando em Língua Portuguesa e Filologia pela Universidade de São Paulo.
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