
| Em geral confundimos
contradição com oposição, mas ambos são conceitos muito diferentes. Na oposição
existem dois termos, cada qual dotado de suas próprias características e
de sua própria existência, e que se opõem quando, por algum motivo, se encontram.
Isso significa que, na oposição, podemos tomar os dois termos separadamente,
entender cada um deles, entender por que se oporão se se encontrarem e,
sobretudo, podemos perceber que eles existem e se conservam, quer haja ou
não haja a oposição. Assim, por exemplo, poderíamos imaginar que os termos
"senhor" e "escravo" são opostos, mas isto não nos impede de tomar cada
um desses conceitos separadamente, verificar suas características e compreender
por que se opõem. A contradição, porém, não é isto. Na contradição só existe
a relação, isto é, não podemos tomar os termos antagônicos fora dessa relação.
São criados por essa relação e transformados nela e por ela. Além disso,
a contradição opera com uma forma muito determinada de negação, a negação
interna. Ou seja, se dissermos "o caderno não é o livro", essa negação é
externa, pois, além de não definir qualquer um deles pode aparecer em outras
negações, visto que podemos dizer: "o caderno não é o livro, não é a pedra,
não é a casa, não é o homem, etc., etc.". A negação é interna quando o que
é negado é a própria realidade de um dos termos, por exemplo, quando dizemos:
"A é não-A". Só há contradição quando a negação é interna e quando ela for
a relação que define uma realidade que é em si mesma dividida num pólo positivo e num pólo negativo, pólo este que é o negativo daquele positivo e de nenhum
outro. Por exemplo, quando dizemos "a canoa é a não-árvore", definimos a
canoa por sua negação interna, ela é a árvore negada, suprimida como árvore
pelo trabalho do canoeiro. O trabalho do canoeiro consiste em negar a árvore
como uma coisa natural, transformando-a em coisa humana ou cultural, isto
é, na canoa. Numa relação de contradição, portanto, os termos que se negam
um ao outro só existem nessa negação. Assim o escravo é o não-senhor e o
senhor é o não-escravo e só haverá escravo onde houver senhor e só haverá
senhor onde houver escravo. (CHAUI, Marilena. "O que é Ideologia". São Paulo: Brasiliense, 34a edição, 1991, pp. 36-37) |
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