Além dos já conhecidos
elementos estruturais da narrativa, tais como o narrador, as personagens (principal, auxiliar, antagonista), o espaço, o tempo, o enredo, etc., os textos narrativos também se estruturam em
quatro fases distintas ao longo de seu desenvolvimento, isto é, do seu percurso: a manipulação, a competência, a
performance e a sanção.
Para entender cada uma dessas fases, tomemos como exemplo a famosa fábula "O lobo e cordeiro", de
La Fontaine:
O
LOBO E O CORDEIRO
Na água limpa de um regato, matava
a sede um cordeiro, quando, saindo do mato, veio um lobo carniceiro.
Tinha
a barriga vazia, não comera o dia inteiro. - Como tu ousas sujar a
água que estou bebendo? - rosnou o Lobo a antegozar o almoço.
- Fica sabendo que caro vais me pagar!
- Senhor - falou o Cordeiro -
encareço à Vossa Alteza que me desculpeis mas acho que
vos enganais: bebendo, quase dez braças abaixo de vós, nesta
correnteza, não posso sujar-vos a água.
- Não importa.
Guardo mágoa de ti, que ano passado, me destrataste, fingido! -
Mas eu nem tinha nascido. - Pois então foi teu irmão.
-
Não tenho irmão, Excelência. - Chega de argumentação. Estou
perdendo a paciência! - Não vos zangueis, desculpai! - Não
foi teu irmão? Foi o teu pai ou senão foi teu avô. Disse
o Lobo carniceiro. E ao Cordeiro devorou.
Onde a lei não existe,
ao que parece, a razão do mais forte prevalece.
La
Fontaine. "O lobo e o cordeiro". In: Fábulas. Trad.
Ferreira Gullar. Rio de Janeiro, Revan, 1997, p. 12. |
Existem vários elementos concretos que compõem esta narrativa (cordeiro, lobo, regato, água, etc). No entanto, por baixo desses elementos poderíamos imaginar uma representação de nível mais abstrato: o texto relata uma transformação, ou seja, a passagem de um estado inicial para um estado final. Vejamos como isso ocorre.
Manipulação
Nas duas primeiras linhas do texto está explícito que o que levou a personagem cordeiro a beber água no regato foi a sede: esta é a manipulação. A manipulação consiste em uma personagem induzir outra a fazer alguma coisa. O manipulador pode usar de vários expedientes para induzir uma personagem a agir: um pedido, uma ordem, uma provocação, uma sedução, um tentação, uma intimidação, etc.
Mas pode-se dizer, numa instância mais abstrata, que a manipulação nessa fábula é a manutenção, por parte do cordeiro, de sua própria vida. Como se vê, o manipulador não precisa necessariamente ser uma personagem isolada (o príncipe, por exemplo), ou uma personagem coletiva (o povo, a pátria, um grupo de pessoas, etc), ou um ser animado (o cachorro fez o gato correr); inanimado (a ponte caiu, o que nos levou a procurar outro caminho) ou uma personagem que imponha a si mesma uma obrigação.
Todavia, para que a manipulação seja eficiente, é necessário que a personagem manipulada queira ou deva fazer (podendo querer e fazer ao mesmo tempo). No caso do cordeiro, ele queria matar a sede e manter-se vivo.
Competência
A próxima fase seria a competência. Para agir, não basta que a personagem
queira ou
deva, mas também que
saiba e
possa. Ilustrando com o exemplo da fábula, podemos dizer que o cordeiro, naturalmente, é presa do lobo na cadeia alimentar. Sendo assim, para desempenhar a função de saciar a própria sede (e de manter-se vivo), o cordeiro deveria livrar-se do lobo, quando este surgiu do mato. Como vimos, o cordeiro tenta argumentar contra o lobo na tentativa de escapar com vida. Esta parte da fábula pode ser considerada como a competência.
Performance
No entanto, a
performance, isto é, o fazer persuasivo do cordeiro para com o lobo, não surte efeito, pois o lobo queria mesmo era devorá-lo, não importando o argumento que o cordeiro usasse. Tendo em vista que, nessa fase do percurso narrativo, geralmente, há sempre uma relação de perda e ganho, o lobo ganhou, o cordeiro perdeu.
Sanção
Na última linha da fábula narra-se que o cordeiro é devorado pelo lobo. Há aqui a sanção negativa do cordeiro, que se dá com a sua morte.
Em resumo, a personagem cordeiro é manipulada pela vontade de beber água. Esse sujeito (cordeiro) do fazer (beber água/ manter-se vivo) ao se deparar com o lobo (personagem antagonista), precisa adquirir uma competência (tentar persuadir o lobo a não matá-lo). O cordeiro, então, tenta desempenhar essa competência apelando para o bom senso (personagem auxiliar). Cria-se um conflito (o instinto predador do lobo), que não importando qual fosse o argumento usado pelo cordeiro (
performance), devora-o.
Chega-se, assim, a uma sanção que é negativa para o cordeiro: sua morte; e positiva para o lobo: sua refeição.
Esquematicamente, teríamos:
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