Um dos componentes dos estudos linguísticos é o
estudo semântico. Nele estuda-se a relação entre as construções da língua e seus significados, sua relação com o mundo extralinguístico.
Nos estudos semânticos encontra-se o estudo da homonímia. De acordo com o
Dicionário de Linguística, de Jean Dubois e outros, de 1978, página 326: "homonímia é a identidade fônica (homofonia) ou a identidade gráfica (homografia) de dois morfemas que não têm o mesmo sentido, de um modo geral".
Ou seja, homônimos são palavras que apresentam formas iguais e significações diferentes.
Exemplos de homônimos homófonos (isto é, palavras que têm a mesma pronúncia mas escrita diferente):
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sentido |
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sentido |
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sentido |
cessão
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ato de ceder
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sessão |
reunião
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secção
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repartição |
| conserto |
reparo |
concerto |
acordo |
concerto |
espetáculo musical |
| bucho |
estômago de animais |
buxo |
arbusto |
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| chá |
infusão de ervas medicinais |
xá |
soberano da Pérsia |
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| chácara |
propriedade campestre |
xácara |
narrativa popular em verso |
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Exemplos de homônimos homógrafos (ou seja, palavras que têm a mesma escrita e a mesma pronúncia):
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sentido |
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sentido |
| boa |
bondosa
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boa
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espécie de cobra – jiboia |
| gravar |
esculpir |
gravar |
onerar
(Ex.: Os aumentos de impostos são medidas que gravam os menos favorecidos.) |
| ralo |
ralador (objeto) |
ralo |
pouco espesso |
| real |
verdadeiro |
real |
relativo ao rei |
| mente |
intelecto |
mente |
3ª pessoa do verbo mentir |
Neste caso, é preciso ficar atento às exceções, ou seja, palavras em que há a abertura da vogal tônica. Exemplos:
a) este (demonstrativo) - "Este é meu amigo" - e este (substantivo) - "O sol nasce no oriente, na direção este";
b) almoço (verbo) - "Eu almoço todos os dias" - e almoço (substantivo) - "O almoço estava uma delícia!".
Homonímia e convergência fônica
Formas convergentes ou homeotrópicas (homós = o mesmo e tropos = mudança), daí resultando homeótropos (formas homeotrópicas), são aquelas que têm a mesma forma, mas que se originaram de palavras diversas, da mesma língua ou de línguas diferentes.
Foi o que ocorreu, por exemplo, com as palavras latinas: sanctu, sanu e sunt, que, por motivo de convergência fonética, tornaram-se, em português, "são":
| são |
de sanctu - São Jorge ( apócope de Santo ) |
| de sanu - " Mente sã, corpo são ." ( sadio ) |
| de sunt - As rosas são belas. (3ª pessoa do plural do verbo ser ) |
Para Francisco Borba (em Introdução aos estudos lingüísticos, Editora Pontes, 1998, página 236), "a homonímia está mais ligada à formação do léxico porque comumente resulta de convergência fônica, isto é, são alterações fônicas das palavras que levam à identidade de significante".
Homonímia e etimologia
A etimologia também explica o fenômeno da homonímia nos casos de palavras iguais, contudo de origens diferentes, que não constituem formas convergentes, como apresentado no item anterior.
O exemplo clássico em português é a palavra manga, que se origina de dois étimos distintos, conforme se vê abaixo:
port. manga - peça da vestimenta (do latim manica)
port. manga - fruta (de origem malaia)
Borba ainda diz que "também o intercâmbio cultural entre povos pode facilitar o encontro de formas semelhantes que, pela ação das leis fonéticas, podem chegar a igualar-se".
Um exemplo é a palavra lama:
O latim lama deu lama (= barro, tijuco) em português; do tibetano blama nos veio lama (sacerdote do lamaísmo); e, por último, há também lama ou lhama (animal típico dos Andes), palavra proveniente do quíchua (importante língua indígena da América do Sul, falada em maior número pelos peruanos).
Polissemia e homonímia
Muitos autores afirmam que o estudo da polissemia (pluralidade significativa) gera, quase sempre, o problema da distinção entre homonímia e polissemia.
A polissemia diz respeito à possibilidade que tem o item léxico de variar de sentido, dependendo dos diferentes contextos em que ele venha ocorrer. Vejamos os seguintes exemplos retirados de Borba:
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tomar no sentido de: |
| A enfermeira tomou a criança pela mão. |
segurar |
| Os ingleses tomaram as Malvinas. |
conquistar |
| Só tomo vinho francês. |
beber |
| A casa do ministro toma todo um quarteirão. |
ocupar |
| Agora Lucas toma ares de rico. |
assumir |
Todavia, ao contrário das palavras polissêmicas, as homonímias comumente provêm de classes diferentes, tendo, assim, distribuição também diferente.
A palavra cobra pode figurar tanto como verbo quanto como nome, dependendo do contexto. Exs.: "Ela cobra a presença de todos na sala de reunião, agora!" ou "Cobra dessa espécie é peçonhenta".
Tem-se aqui o caso de homônimos homógrafos. A polissemia, por sua vez, trata-se sempre de uma mesma palavra que está sujeita a vários empregos, conforme exemplificado no quadro acima.
Algumas palavras homógrafas depois do Novo Acordo Ortográfico:
Depois do Novo Acordo Ortográfico, não são mais assinaladas com acento gráfico, seja o acento agudo, seja o circunflexo, as seguintes palavras homógrafas:
| pela(s)** (verbo e substantivo) |
pela(s) (per + la) |
| pelo (verbo) |
pelo(s) (per + lo e substantivo) |
| polo(s) (substantivo) |
polo(s) (por + lo (s) combinação antiga e popular) |
| ** Ato de pelar (verbo); bola usada par jogar e brincar (substantivo). |
Bibliografia
Dicionário de Lingüística, de Jean Dubois e outros, São Paulo: Cultrix, 1978.
Escrevendo pela nova ortografia: como usar as regras do novo acordo ortográfico da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss; coordenação e assistência de José Carlos Azeredo. São Paulo: Publifolha, 2009.
Estudo dirigido de gramática histórica e teoria da literatura, de Audemaro Taranto Goulart e Oscar Viera, São Paulo: Editora do Brasil, s/d.
Introdução aos estudos lingüísticos, de Francisco da Silva Borba, Campinas: Pontes, 1998.
Língua Portuguesa: noções básicas para cursos superiores, de Mª. Margarida de Andrade e Antônio Henriques, São Paulo: Atlas Editora, 1991.
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