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Linguagem

Qual a diferença entre "norma" e "uso"?

Jorge Viana de Moraes*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
De acordo com Marli Quadros Leite, para esclarecer o que é norma, em termos de uso da linguagem, devemos considerar não só perspectivas lingüísticas, mas também pragmáticas e antropológicas. Do ponto de vista lingüístico, diz a autora, norma é o que já se concretizou e, teoricamente, sempre se concretizará no grupo social; é a tradição submetida e obedecida por todos, sem sentir.

Contudo, se pensarmos em uma perspectiva pragmática da realização da língua, há três normas: objetiva, em que cada grupo social possui sua própria forma de expressão; prescritiva, que objetiva a imposição de um uso extraído da língua literária de épocas anteriores; e subjetiva, caracterizada pelo ideal de língua aspirado por todos os falantes.

Sob outro ponto de vista, se pensarmos em termos socioantropológicos, existe o que chamamos de norma explícita. Ela é codificada e divulgada pela escola, pelas gramáticas e pelos dicionários. E há também as normas implícitas, que são peculiares a cada grupo social e acompanham as mudanças sofridas por esse mesmo grupo.

O que dizem os estudiosos

O linguista Dino Preti, citado por Marli Quadros Leite, afirma: "Embora nem sempre os autores estejam de acordo quanto à definição de uso ou norma, todos concordam quanto ao seu caráter social, visando aos interesses da comunicação no grupo". Portanto, uso e norma são tratados, em grande parte das definições, como um único fenômeno.

Contudo, outro estudioso das línguas, o dinamarquês Louis Hjelmslev, estabelece uma distinção entre uso e norma. Segundo ele, "a língua-esquema, a língua-norma e a língua-uso não se comportam do mesmo modo frente ao ato individual que é a fala". Haveria, portanto, uma inter-relação entre ato, uso e norma.

Na opinião de Marli Quadros Leite, entre a passagem de uso para a norma há o estágio intermediário, denominado adoção.

Esse processo indica que qualquer inovação necessita, primeiramente, da aceitação e da imitação dos falantes de um grupo social para posterior transformação em uso. Dessa maneira, o uso pode tornar-se norma quando adotado e divulgado pelos falantes no desempenho de seus papéis sociais.

Marli Quadros Leite representa os estágios do seguinte modo:

Reprodução

Marli Quadros Leite lembra, finalmente, que as mudanças na língua são normais. Apesar disso, sempre surgem manuais do "como falar corretamente". Tais manuais geram, muitas vezes, posturas preconceituosas e intolerantes de algumas pessoas em relação a certos grupos de falantes, que, por pertencerem a uma situação social de menor prestígio têm suas falas estigmatizadas e tidas como inferiores, o que é um erro.

Em síntese: mudanças não afetam a linguagem em termos de progresso ou decadência, havendo, portanto, equilíbrio entre o inovador e o conservador.

Referência bibliográfica

LEITE, Marli Quadros. "Língua falada: uso e norma". In: PRETI, Dino (Org.). Estudos de língua falada - variações e confrontos. Projetos paralelos - NURC/SP (núcleo USP) nº 3. 2. ed. São Paulo: Editora Humanitas, 2006. pp.179-208.
*Jorge Viana de Moraes é professor universitário em cursos de graduação e pós-graduação na área de Letras. Atualmente, mestrando em Língua Portuguesa e Filologia pela Universidade de São Paulo.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012
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