De acordo com Marli Quadros Leite, para esclarecer o que é
norma, em termos de
uso da linguagem, devemos considerar não só
perspectivas lingüísticas, mas também pragmáticas e antropológicas. Do ponto de vista lingüístico, diz a autora,
norma é o que já se concretizou e, teoricamente, sempre se concretizará no grupo social; é a tradição submetida e obedecida por todos, sem sentir.
Contudo, se pensarmos em uma perspectiva pragmática da realização da língua, há três normas:
objetiva, em que cada grupo social possui sua própria forma de expressão;
prescritiva, que objetiva a imposição de um
uso extraído da língua literária de épocas anteriores; e
subjetiva, caracterizada pelo ideal de língua aspirado por todos os falantes.
Sob outro ponto de vista, se pensarmos em termos socioantropológicos, existe o que chamamos de
norma explícita. Ela é codificada e divulgada pela escola, pelas gramáticas e pelos dicionários. E há também as
normas implícitas, que são peculiares a cada grupo social e acompanham as mudanças sofridas por esse mesmo grupo.
O que dizem os estudiosos
O linguista Dino Preti, citado por Marli Quadros Leite, afirma: "Embora nem sempre os autores estejam de acordo quanto à definição de
uso ou
norma, todos concordam quanto ao seu caráter social, visando aos interesses da comunicação no grupo". Portanto,
uso e
norma são tratados, em grande parte das definições, como um único fenômeno.
Contudo, outro estudioso das línguas, o dinamarquês Louis Hjelmslev, estabelece uma distinção entre
uso e
norma. Segundo ele, "a língua-esquema, a língua-norma e a língua-uso não se comportam do mesmo modo frente ao ato individual que é a fala". Haveria, portanto, uma inter-relação entre
ato,
uso e
norma.
Na opinião de Marli Quadros Leite, entre a passagem de
uso para a
norma há o estágio intermediário, denominado
adoção.
Esse processo indica que qualquer inovação necessita, primeiramente, da aceitação e da imitação dos falantes de um grupo social para posterior transformação em
uso. Dessa maneira, o
uso pode tornar-se
norma quando adotado e divulgado pelos falantes no desempenho de seus papéis sociais.
Marli Quadros Leite representa os estágios do seguinte modo:
Marli Quadros Leite lembra, finalmente, que as mudanças na língua são normais. Apesar disso, sempre surgem manuais do "como falar corretamente". Tais manuais geram, muitas vezes, posturas preconceituosas e intolerantes de algumas pessoas em relação a certos grupos de falantes, que, por pertencerem a uma situação social de menor prestígio têm suas falas estigmatizadas e tidas como inferiores, o que é um erro.
Em síntese: mudanças não afetam a linguagem em termos de progresso ou decadência, havendo, portanto, equilíbrio entre o inovador e o conservador.
Referência bibliográfica
LEITE, Marli Quadros. "Língua falada: uso e norma". In: PRETI, Dino (Org.).
Estudos de língua falada - variações e confrontos. Projetos paralelos - NURC/SP (núcleo USP) nº 3. 2. ed. São Paulo: Editora Humanitas, 2006. pp.179-208.
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