Nos
textos de ficção, na maioria das vezes, não é o autor que se dirige diretamente ao leitor. O autor cria uma espécie de intermediário entre o leitor e o universo ficcional. Este intermediário chama-se
narrador.
Narrador é aquele que conta a história. Ele pode fazer parte da história, ou apenas contá-la para o leitor. Quando o narrador faz parte da história, isto é, quando também é uma personagem, dizemos que é um
narrador em primeira pessoa.
No conto "O peru de Natal", de
Mario de Andrade, o narrador faz parte da história:
| O
nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida
cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade
familiar. (...) |
Nesse caso, o narrador vai contar uma história acontecida com ele mesmo. Veja as expressões grifadas (
nosso,
meu). O narrador conta os fatos de que ele mesmo participa.
Na narração em primeira pessoa, há uma fixação clara do ponto de vista. O leitor entra em contato direto com o universo ficcional. Em "O peru de Natal", conhecemos a história pela perspectiva do filho.
Como o leitor entra em contato direto com o universo ficcional, tem reforçada a impressão de autenticidade, pois está muito próximo da ação, pois ela é apreendida sempre pelo ponto de vista deste narrador-personagem.
Mas nem sempre o narrador faz parte da história.
Narrador em terceira pessoa
Muitas vezes o narrador está distante em relação àquilo que vai contar, ele não se envolve com a narrativa. Nesse caso, falamos em um
narrador em terceira pessoa.
O narrador em terceira pessoa está fora do plano dos acontecimentos. Não participa da história. Por isso mesmo, tem uma ampla liberdade de narrar: não têm o "rabo preso" com ninguém.
Funções do narrador
Ao contar uma história, o narrador desempenha várias funções. Tem que apresentar as personagens, a sequência dos fatos, descrever o ambiente em que eles se passam. Diz-se que o narrador é o intermediário entre a narrativa e o leitor. Ele coloca o universo ficcional diante dos olhos do leitor.
Leia este trecho do conto "O poço", de Mário de Andrade.
| Ali
pelas onze horas da manhã o velho Joaquim Prestes chegou no pesqueiro.
Embora fizesse força em se mostrar amável por causa da visita
convidada para a pescaria, vinha mal-humorado daquelas cinco léguas
cabritando na estrada péssima. Alias o fazendeiro era de pouco riso
mesmo, já endurecido pelos setenta e cinco anos que o mumificavam
naquele esqueleto agudo e taciturno. |
Observe como se trata de um
narrador em terceira pessoa.
Apesar de não participar da história como personagem, o narrador desempenha diversas funções importantes:
O narrador conta um fato (Joaquim Prestes chegou no pesqueiro). Situa este fato no tempo (onze horas da manhã) e no espaço (no pesqueiro).
Esclarece as circunstâncias deste fato (havia uma visita convidada para a pescaria, ele tinha andado cinco léguas numa estrada horrível).
Descreve Joaquim Prestes fisicamente (era magro e alto, parecia uma múmia).
Descreve Joaquim Prestes psicologicamente (era taciturno e mal-humorado).
Além disso, podemos observar ainda que o narrador já nos apresenta um elemento dramático, conflituoso, uma dica do que está por vir (apesar de Joaquim Prestes estar mal-humorado, ele tem de se mostrar amável para a visita).
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