
Como se vê, é possível elaborar um texto novo a partir de um texto já existente. É assim que os textos "conversam" entre si. É comum encontrar ecos ou referências de um texto em outro. A essa relação se dá o nome de intertextualidade.
Para entender melhor a palavra, pense em sua estrutura. O sufixo inter, de origem latina, se refere à noção de relação (entre). Logo, intertextualidade é a propriedade de textos se relacionarem.
Provérbios populares |
Canção de Chico Buarque |
|---|---|
|
“Uma boa noite de sono combate os males”
“Quem
espera sempre alcança” “Faça
o que eu digo, não faça o que eu faço" “Pense,
antes de agir” “Devagar
se vai longe” “Quem semeia vento, colhe tempestade” |
Bom Conselho |
Chico Buarque inverte os provérbios, questionando-os e olhando-os sob outro ângulo, atribuindo-lhes novos sentidos.
Há vários exemplos de intertextualidade na literatura. Veja, a seguir, como Ricardo Azevedo brinca com o famoso poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.
| Quadrilha | Quadrilha da sujeira |
|
João
amava Teresa que amava Raimundo (Carlos
Drummond de Andrade) |
João
joga um palitinho de sorvete na Ricardo Azevedo (”Você Diz Que Sabe Muito, Borboleta Sabe Mais”, Fundação Cargill) |
Enquanto um texto trata do amor não correspondido, por meio da comparação com uma dança (quadrilha), o outro critica o mau hábito de jogar lixo na rua - e mostra como as pessoas prejudicam as outras.
A intertexualidade também é um recurso comumente utilizado pelas crônicas de jornal. Abaixo, veja como José Roberto Torero utiliza uma frase famosa dita por um personagem de Shakespeare. A frase quer dizer, em poucas palavras, que há muita coisa na vida que não compreendemos.
| Shakespeare | Deuses do futebol: Urucubaco |
|
“Há
mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã
filosofia
|
Olímpico
leitor, divinal leitora, há mais coisas entre o céu dos
deuses e a terra do futebol do que sonha a nossa vã crônica
esportiva. (trecho de crônica de José Roberto Torero, Folha de S.Paulo, em17/9/02-pag.D3) |
(Reinaldo Ferreira em "Portos de Passagem" - João Wanderley Geraldi, São Paulo: Martins Fontes, 1991)
Ao falar do como se faz um herói, o poeta usa elementos de uma receita de cozinha. Analise, por exemplo:
O poema de Reinaldo Ferreira faz uma referência "implícita" às receitas culinárias - a referência não é clara, direta, a nenhuma receita em específico, mas o modo como o texto é construído lembra as tais receitas.
Para terminar, outro exemplo interessante, também de Drummon. Ele fala da "medicalização" do mundo moderno, por meio da criação de palavras que lembram os nomes de diversos remédios...
Receituário Sortido
Calma.
É preciso ter calma no Brasil
calmina
calmarian
calmogen
calmovita.
Que negócio é esse de ansiedade?
Não quero ver ninguém ansioso.
O cordão dos ansiosos enfrentemos:
aspiran!
ansiotex!
ansiex ansiax ansiolax
ansiopax, amigos!
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