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...das saudades que não tenho Nasci com 57 anos.
Meu pai me legou seus 34, vividos com duvidosos amores, desejos escondidos.
Minha mãe me destinou seus 23, marcados com traições
e perdas. Assim, somados, o que herdei foi a capacidade de associar amor
ao sofrimento... (Bartolomeu Campos
Queiroz, em Abramovich, Fanny (org.) – “O mito da infância
feliz”. Summus, São Paulo, 1983). |
A autobiografia de Bartolomeu Campos Queirós é marcada por uma certa tristeza e uma forte crítica tanto à educação dos pais, quanto aos costumes da cidadezinha onde nasceu. Dessa forma, ele rompe com a idéia de que criança é sempre feliz por ser inocente e não perceber os problemas da vida.
O escritor dá a entender que todos nascemos velhos, porque somos parte de vidas já vividas pelos pais e até mesmo pela sociedade - simbolizada em seu texto pela cidadezinha em que nasceu.
Também vale notar a referência irônica ao célebre poema "Meus oito anos", de Casimiro de Abreu ("Oh! que saudades que tenho/ da aurora da minha vida...)
Na biografia, a seleção dos eventos a serem apresentados é definida pelos outros, por isso, a objetividade é mais evidente que na autobiografia, em que a pessoa escolhe o que vai escrever sobre ela mesma.
Outra característica tanto da biografia quanto da biografia é a veracidade dos fatos. Costumam ser narrativas não-ficcionais, ou seja, não são histórias "inventadas".
O relato dos fatos no texto autobiográfico aparece freqüentemente pontuado de lembranças, de um colorido emocional, que não é mostrado em outros tipos de textos. Predomina a subjetividade.
Compare a autobiografia reproduzida acima com a biografia de Carlos Drummond de Andrade. O que se pode concluir sobre a presença escolha dos pronomes: na biografia predomina o uso da terceira pessoa (ele), enquanto na autobiografia predomina o uso da primeira pessoa (eu). Esses usos relacionam-se à maior ou menor objetividade.
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Aí eu peguei e nasci!
Sou filho
de árabe com loira e deu macaco na cabeça. E eu não
tenho 56 anos. Eu tenho 18 anos. Com 38 de experiência. E eu era
um menino asmático que ficava lendo Proust e ouvindo programa de
terror no rádio. José Simão
Biografia |
Perceba como José Simão, ao usar linguagem coloquial, expressões populares e gírias, se aproxima do leitor de jornal e da Internet ao escrever um texto descontraído e cheio de humor: "Aí eu peguei", "deu macaco na cabeça", "matava aula", "alguns bicos pra BBC", etc.
Ao escolher "fatos não nobres" de sua autobiografia, José Simão torna seu texto mais engraçado e carregado de ironia - uma boa maneira de fazer humor.
Leia a seguir a autobiografia de mais um humorista - Millôr Fernandes, um dos fundadores do famoso jornal alternativo, dos anos 60 e 70, "O Pasquim":
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SUPERMERCADO MILLÔR -- ANO I - N.º 1 (Autobiografia De Mim Mesmo À Maneira De Mim Próprio) "E lá
vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou
debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo.
Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias
que só me saíam gêmeas as palavras – reco-reco,
tatibitate, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim.
Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem,
já não dói nada. Quem é que sou eu? Ah, que
posso dizer? Como me espanta! Já não fazem Millôres
como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram
os meios e, depois, as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos.
Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz
três revoluções, todas perdidas. A primeira contra
Deus, e ele me venceu com um sórdido milagre. A segunda com o destino,
e ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira
contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.” |
1) Releia o título "Supermercado Millôr" e o subtítulo "Autobiografia de Mim Mesmo à maneira de Mim Próprio" e analise que relação pode haver entre uma autobiografia e a idéia de produto a ser vendido, como mercadoria, num supermercado.
2) Relembrando que pleonasmo é uma forma de se usar a mesma idéia de forma repetitiva e desnecessária - lembre-se dos famosos pleonasmos "subir para cima", "descer para baixo", "entrar para dentro" e "sair para fora", que, segundo a gramática, devem ser evitados.- procure, então, explicar os pleonasmos usados no subtítulo, por Millôr, confirmando a abordagem satírica de sua biografia.
3) Millôr elabora sua biografia, de forma irônica e crítica, ao usar:
Enfim, muitas vezes, o gênero biografia pode ser uma boa desculpa para um escritor fazer crítica social ou mesmo brincar consigo mesmo e com a própria humanidade.
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