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Livro

A Internet vai fazê-lo desaparecer?

Heidi Strecker*
Especial para Página 3 - Pedagogia & Comunicação
Ao analisar a história do desenvolvimento da escrita e do conhecimento na humanudade, pode-se dizer que o livro é o suporte natural da literatura. Hoje em dia, pode-se ler um texto em nosso site preferido, assistir a um filme no DVD. Mas embora existam meios mais rápidos para transmissão de textos e obras literárias, o livro é considerado, por muitos, insubstituível. Vamos analisar os argumentos dessa tese. Há os que apontam o importante o papel "sentimental" que o objeto ganhou com o passar do tempo. Seu aspecto "material" (diferente da "virtualidade da Internet") permite que seja tocado, acariciado; é possível sentir seu calor e dentro dele pode-se guardar uma lágrima, com sugeriu o grande escritor português José Saramago.

O bibliófilo [colecionador de livros] José Mindlin formou uma das bibliotecas mais bonitas, extensas e interessantes do Brasil. Ele começou a colecionar livros aos 13 anos. Ele fala sobre sua paixão pelos livros na obra "Uma Vida entre Livros: Reencontros com o Tempo" (São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo/Companhia das Letras, 1997):

O amor ao livro e o hábito da leitura vêm de longe e constituem um dos interesses centrais de minha vida. Esses interesses poderiam ter sido atendidos sem que tivessem resultado numa biblioteca de proporções talvez excessivas, se eu me tivesse sempre limitado aos livros que conseguisse ler, comprando um livro de cada vez, e só comprando o seguinte depois de ter lido o anterior. Mas não foi o que aconteceu, e não creio que tenha acontecido a ninguém que eu conheça, e que realmente goste de livros.

O livro exerce uma atração multiforme, que vai muito além da leitura, embora esta seja um ponto de partida fundamental. Em primeiro lugar, existe sempre a ilusão de que se vai conseguir ler mais do que na realidade se consegue. Depois vem o desejo de ter à mão o maior número possível de obras de um autor de quem se gosta – já é o começo de uma coleção. Conseguido o conjunto, que sempre se quer o mais completo possível, surge o interesse pelas primeiras edições, geralmente raras, e a atração pelo livro como objeto, e também como objeto de arte, em que entra a qualidade do projeto gráfico, a ilustração, a diagramação, o papel, a tipografia, a encadernação; e aí já surge a busca da raridade.


O papel e o formato

O livro também é portátil. Você o leva aonde quiser. Guarda, empresta, esconde, dá de presente. O livro pode ser manuseado. Só depende de você preservá-lo ou deixá-lo deteriorar-se. O livro se deteriora porque é feito de matéria orgânica, que é o papel.

Valor artístico

O livro impresso, editado, confeccionado, também é uma obra de arte. Observe a capa de um livro e a sua encadernação. Encadernação é a arte de juntar as folhas do livro e cobri-lo com uma capa para sua preservação e manuseio. Observe se o livro tem capa dura ou se é uma brochura. Brochura é um livro simples, com as páginas grampeadas, costuradas ou coladas, e uma capa flexível colada no dorso. Observe também se a capa tem ilustrações, se é bem diagramada.

Itens que compõem o livro

Diagramação é a disposição das ilustrações, das legendas e dos textos, bem como a escolha das cores e dos tipos utilizados. Muitas vezes a capa é desenhada por um artista. Quando isto acontece seu nome também aparece dentro do livro.

Entre as informações que aparecem na capa de um livro, estão:

  • o nome do autor,
  • o título da obra,
  • a editora que publicou o livro.

    O título do livro é uma informação fundamental. O título indica muito sobre o assunto e também sobre o sentido da obra. Ele é ao mesmo tempo um anúncio e uma síntese da obra.

    Lombada e orelhas

    Na lombada, a parte lateral da capa, muitas vezes também aparece o nome da obra e da editora. A quarta capa (que é a capa de trás) também pode trazer informações úteis sobre o livro. Finalmente algo bem curioso. Verifique se o livro tem orelhas. Orelhas são as extremidades da capa de um livro, dobradas para dentro. As orelhas dos livros não ouvem, mas falam muita coisa sobre eles.

    Quantas páginas tem? Que tipo de letra é utilizada no livro? Qual sua diagramação interna? As letras são grandes ou miúdas? São bonitas, há espaço entre as linhas? Ou as linhas estão apertadas demais?

    Agora você já conhece bem o livro. Só falta ler!

    Será que o livro - esse objeto tão complexo, um dia vai desaparecer? Será que a tecnologia vai criar um substituto para ler e mudar nossos hábitos de leitura? O autor do texto abaixo acha que sim:

    A atividade humana aumenta, numa progressão pasmosa. Já os homens de hoje são forçados a pensar e a executar, em um minuto, o que os seus avós pensavam e executavam em uma hora. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro, e de rufos de febre no sangue. O livro está morrendo, justamente porque já pouca gente pode consagrar um dia todo, ou ainda uma hora toda, à leitura de cem páginas impressas sobre o mesmo assunto.

    O autor deste texto é o grande poeta parnasiano Olavo Bilac. Estava preocupado com o fato de que o aparecimento do jornal e a possibilidade de inventarem o cinema pudesse fazer o livro desaparecer. Ele escreveu este texto em 1904 (publicado na "Revista Kosmos"). Faz mais de cem anos! Apesar de ter-se passado tanto tempo, parece que, por enquanto, o livro está bem vivo.

  • *Heidi Strecker é filósofa e educadora.
    Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012
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