
A preocupação em compreender esse fenômeno vem desde os gregos, que se perguntavam, no século 5 a.C: a linguagem tem relação direta com as coisas do mundo, ou não? Se existe o mundo dos objetos, das pessoas e das situações, cada um dos elementos existentes nesse mundo teria uma palavra exata e adequada para exprimi-lo? Se assim fosse, teríamos o mundo das coisas e seres vivos e a linguagem seria apenas um reflexo imperfeito desse mundo.
Para pensar essa questão, imagine:
Existirá uma palavra que, ao ser pronunciada, indique uma relação direta com essa fruta, por relação natural? Se você respondeu que é laranja, um leitor que fale inglês poderia ter respondido que se trata de orange e poderemos ter um número imenso de palavras denominando o mesmo objeto, como no exemplo a seguir:
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Cavalo |
Cheval (francês) |
Horse
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Pferd |
Sabemos hoje que os nomes são arbitrários, isto é, não "estão grudados na coisa", não têm relação direta com cada objeto, pessoa ou situação que representam. Eles podem ser impostos à vontade, de acordo com a história de cada grupo social, que os inventaram em algum lugar e tempo, como nós mesmos inventamos palavras freqüentemente, de acordo com as nossas necessidades, como deletar, e-mail, Cd-ROM e tantas outras.
Mas a linguagem não se compõe de um repertório de palavras soltas, pois se fosse assim, para aprender qualquer língua, bastaria decorar um dicionário. Já pensou?
Por volta dos séculos 3 e 2 a.C., fizeram uma distinção interessante entre o logos (um enunciado significativo dirigido pelo pensamento racional) e o phoné, o enunciado considerado como mero som, a voz.
Os filósofos da Grécia chamavam a atenção para o fato de que a linguagem não resulta do exercício natural dos órgãos fonadores ou de nenhum outro órgão, como a respiração ou a caminhada, que constituem a razão de ser dos pulmões ou das pernas. Mostraram ainda que as unidades que compõem uma língua - as palavras - têm que ter necessariamente um significado, que é resultado da razão humana e não da natureza.
No século 20, estudos na área da linguagem possibilitaram chegar a um consenso: a linguagem é uma faculdade humana e depende de um sistema organizado de signos.
Um signo é uma unidade dotada de sentido em um código. Pode ser decomposto em um elemento material, que pode ser percebido - pela audição, pela visão, pelo tato e até pelo gosto - e em um elemento conceitual: a idéia. Veja os exemplos:
Estamos escrevendo a palavra mesa. O leitor é capaz de ver quatro letras grafadas:
Esse conjunto de letras, desenhadas na seqüência acima indica o elemento gráfico, ele pode ser visto. Se, ao contrário, essa palavra tivesse sido dita por alguém, o ouvinte teria percebido concretamente os quatro sons, em seqüência. Trata-se do significante. Esse significante remete a um significado, a um conceito "objeto constituído por uma superfície plana, apoiado em quatro pés". A pronúncia de um mero conjunto de sons, por exemplo syflyty, não é um signo, porque não remete a significado nenhum, não é palavra, pelo menos não em português.
Os bebês choram. E as mães sabem diferenciar cada choro: de fome, de dor, de necessidade de troca, etc.
Pode-se falar em linguagem dos animais? Os cães latem. E seus donos sabem se diferenciar um latido que indica que chegou um estranho ou se o cachorro quer sair para passear.
Há comunicação entre bebês e os adultos que cuidam deles, entre os cães e seus donos, entre os animais e seu grupo? Sim. As abelhas mantêm um sistema de comunicação complexo, que intrigou muita gente, durante muito tempo, pois uma abelha pode comunicar às outras o encontro de comida, conseguindo por uma espécie de dança informar, inclusive, a distância em que o alimento se encontra. Existe comunicação, sem dúvida. Mas existe linguagem?
Sabe-se que não há semelhança entre a comunicação das abelhas e a linguagem humana, porque:
Por isso, os estudiosos concluíram que as abelhas não têm linguagem, mas apenas um código de sinais. Um código é um conjunto organizado de sinais, que permite a comunicação, mas é mais restrito que a linguagem, permite um conjunto de significados muito reduzido.
O modo como as abelhas se comunicam é chamado, na fala corrente, de linguagem, mas é uma expressão em sentido figurado. Assim como linguagem dos bebês e a linguagem dos animais. A linguagem verbal, o uso da palavra, é o que chamamos de linguagem propriamente dita; as palavras podem determinar com maior precisão uma significação ambígua, esclarecer significados. Pode-se expressar conteúdos por meio de música, de dança, por desenhos ou fotos, por mímica, mas é a linguagem verbal humana consegue traduzir informações com maior especificidade e precisão. São as palavras que fixam e veiculam os significados de todos os outros códigos.
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