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Sobre Humanos

Diário de uma iniciação

Heloísa Prieto*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Reprodução
"Sobre Humanos" é o quarto livro de ficção do psiquiatra Paulo Bloise, também autor da seleção de crônicas intitulada "De Olho na Rua", (Editora Dimensão) co-autor da antologia "De Primeira Viagem" e "Vida Crônica", (Companhia das Letras), da qual foi organizador, bem como do ensaio "O Tao e a Psicologia" (Editora Angra).

Nesse texto, escrito em primeira pessoa, o leitor poderá acompanhar seu percurso pelos asilos da periferia, hospitais e clínicas de luxo, nos anos 80. O universo da doença mental, os "empresários da loucura", isto é, profissionais que se beneficiavam com o encarceramento de pacientes, contrastava com a psiquiatra ensinada no ambiente acadêmico.

Enquanto na universidade germinavam as idéias no sentido de humanizar os tratamentos psiquiátricos, na prática, o tratamento manicomial era cruel. O aprisionamento de pacientes, as condutas ultrapassadas, bem como a alienação involuntária imposta ao doente geravam um clima medieval em certas instituições. A brutalidade desse entorno se estendia também a psiquiatras recém-formados, como o protagonista Eduardo e todos os que participaram daquele momento histórico.

O livro é estruturado em duas partes. Na primeira - A Iniciação - dez contos relacionados sem uma ordem cronológica, apresentam o impacto que o universo de pronto-atendimentos e hospitais de periferia, causam no jovem psiquiatra. A segunda parte - Depósito de Almas - pode ser considerada uma pequena novela formada por contos que retratam o cotidiano de um enorme sanatório. Desfilam personagens instigantes como a mulher identificada com suas sacolas, funcionários públicos auto-asilado e o diretor clínico, mais perturbado que a maioria dos internos.

Capítulos como Espiral do Mal, Iniciação em Alta Voltagem e Reinado das Pulgas, dão a medida da enorme distância entre os ideais dos psiquiatras e a realidade da época.

Na vida desse narrador, assombrado por longas jornadas noite adentro dos pronto-socorros, a literatura surge como uma forma de expurgo e elaboração de experiências. "O ambiente que eu freqüentava à noite, como baterista da banda Kafka, no clube Madame Satã, famoso na cena dark da época, era impregnado por autores como Baudelaire, Poe, Jean Genet. O próprio nome de nossa banda me estimulou a conhecer este autor e muitos outros. A linguagem literária me ajudou a compreender melhor o discurso dos pacientes, ao mesmo tempo em que enriqueceu minha comunicação com eles", afirma Bloise.

Henry Miller, Edgard Allan Poe e Sylvia Plath são homenageados por esse texto provocador, de um lirismo por vezes inesperado. Sobre Humanos é um livro que se constitui, antes de mais nada, como uma crítica feroz a todos os que compactuam com condições sub-humanas de existir.

Sobre Humanos
Paulo Bloise
Ensaios fotográficos: Lenise Pinheiro
Editora Moderna

Heloísa Prieto, doutoranda em criação literária e meste em semiótica, é autora e tradutora de diversas obras de literatura infanto-juvenil.
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