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Sociologia

Humanismo clássico (2)

Educar é transmitir a tradição

Celina Fernandes Gonçalves Bruniera*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Dois fenômenos sociais chamam a atenção para a retomada de autores cujas obras abordam as contribuições do humanismo. A insegurança dos adultos em relação ao que transmitir às gerações mais novas. E a crescente demanda desses adultos por aconselhamento de "especialistas" sobre como educar.

O mundo contemporâneo tem evidenciado a recusa do adulto em assumir para si um certo olhar que oriente sua própria vida e sirva de esteio para a educação das gerações futuras. Isso consiste, na perspectiva de Claude Leffort, na recusa em fazer o contraponto, de dizer não ao que parece unânime, com base em um ideal de formação em que outras gerações possam ser outra coisa, viver de outro jeito e construir um outro mundo.

Isso sugere o declínio de uma concepção humanista de educação. O esforço dos humanistas de Florença consistiu em conceber a educação tendo como ponto de partida uma aproximação das verdadeiras proposições dos autores clássicos. A intenção era que, como leitores, pudessem se apropriar do pensamento da Antiguidade e também criar seus próprios textos, deixar seu próprio legado.

Dando o exemplo
Esse mesmo movimento se expressa na relação entre os adultos e as crianças. O retorno dos humanistas aos antigos coincide com o aprimoramento de um sentimento de infância. A diferenciação entre adultos e crianças surge marcada pela percepção de que a criança dá sinais de ter uma natureza própria que precisa ser interpretada por quem a educa.

Mas a tarefa dos adultos não se limita a reconhecer a natureza da criança. Quem educa também assume a função de criá-la. Isso significa responsabilizar-se por sua formação - e de fazê-lo menos através do exercício do poder e mais com base na autoridade daquele que dá o exemplo.

Herdeiros dos antepassados
Hannah Arendt entende que os humanistas de Florença se aproximam, principalmente, da noção romana de autoridade. Essa idéia sugere que os mais velhos são os verdadeiros herdeiros dos antepassados e estes, o exemplo de grandeza para cada geração subseqüente. Tal exemplo chega aos mais novos na forma de um conselho e nunca como uma ordem ou por coerção externa.

Educar consiste, assim, na transmissão da tradição aos mais jovens. Os mais velhos oferecem a orientação de que eles necessitam para se mover no mundo e criar sua própria obra.

Sem autoridade
Para os romanos, a santificação do passado através da tradição acontecia basicamente no contexto político e era desse âmbito que derivavam as noções de tradição e de autoridade. No mundo contemporâneo, não só essas noções estão em declínio, como nos parece pouco provável elas advirem do contexto político.

Esse sentimento é compreensível, segundo Hannah Arendt, porque nada mais parece gozar de autoridade no mundo contemporâneo. Não dispomos de realidade alguma, na história ou na experiência cotidiana, à qual possamos unanimemente recorrer. O que nos coloca, a todos, na condição de órfãos.

Por se sentir também órfão e, portanto, desorientado e insatisfeito com o mundo e com esse estado de coisas, o adulto não assume a responsabilidade por tudo isso, recusa a autoridade e abandona as crianças à sua própria sorte.

Produto e agente da educação
No que diz respeito à educação formal, a ruptura com a concepção clássica de formação que se mantinha no compartilhamento do ideal humanista de formação, desaparece à medida que mudam de caráter a instituição escola e a figura do educador.

Contribuía para a formação das gerações mais novas o fato de a instituição, ao aparecer como uma "pessoa", pudesse se representar e tivesse, também, autoridade. A instituição, como sugere Leffort, não se reduzia a um conjunto de condições para o exercício do aprender, ou a uma moldura para a relação entre o professor e o aluno. Possuía a sua própria representação. Era produto e agente da educação.

Na presença do ideal humanista de formação, não se cobrava do sujeito o domínio de conhecimentos. Aprendia-se por aprender, para continuar a fazer parte do mundo humano. Compartilhar dos tesouros deixados pelos antigos possibilitava a identificação das pessoas com a cultura e consigo mesmas. Acolhia-se, dessa forma, a indeterminação e concebia-se a educação como um valor em si.

*Celina Fernandes Gonçalves Bruniera é mestre em sociologia da educação pela Universidade de São Paulo e assessora educacional.

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