
Lisboa - O deputado da União Européia Vasco Graça Moura disse que o acordo ortográfico que pretende padronizar a grafia da língua portuguesa é instrumento de interesses geopolíticos e econômicos do Brasil.
Durante uma conferência internacional no Parlamento português nesta segunda-feira, o social-democrata afirmou que "o principal desígnio da feitura do acordo é homogeneizar integralmente a grafia portuguesa com a brasileira, nesse plano, mais uma vez desfigurando a escrita, a pronúncia e a língua que são as nossas".
"O acordo serve interesses geopolíticos e empresariais brasileiros, em detrimento de interesses inalienáveis dos demais falantes de português no mundo, em especial do nosso país", ressaltou Moura.
Segundo o escritor, o "único objetivo real das negociações do acordo ortográfico foi o da eliminação das consoantes ditas mudas ou não-articuladas".
Graça Moura disse ainda que, em relação à pronúncia brasileira, "não pode dizer-se que as consoantes 'c' e 'p' são invariavelmente mudas em determinadas palavras, porque elas não existem na grafia brasileira dessas palavras".
"Benefício do Brasil""De fato, não se trata de contrapor 10 milhões de portugueses a 180 milhões de brasileiros", mas que "mais de 40 milhões de pessoas seguem a norma portuguesa", disse, alertando que "a adoção do acordo redundará em total benefício do Brasil".
"Os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa [PALOP] e o Timor ficarão completamente dependentes da edição e das indústrias culturais brasileiras", disse, acrescentando que tal também "virá a acontecer em Portugal".
"Poderão estes países dar-se ao luxo de reciclar professores e de inutilizar milhões de livros e de materiais didáticos, de repente tornados obsoletos, para populações cuja alfabetização e cujo domínio da escrita e da leitura são bastante mais frágeis do que entre nós?", questionou.
O eurodeputado lembrou que o acordo ortográfico, assinado em 1990, resulta de uma iniciativa do então presidente brasileiro José Sarney que, em 1986, "enviou um emissário aos Palop com essa finalidade". "Mais realista e mais pragmático, tudo era, desde o início, uma pura questão de mercado", disse.
"Só para alguma ingenuidade nossa, mais propensa à metafísica, é que se trata de assegurar a unidade da língua em termos que não asseguram unidade absolutamente nenhuma", defendeu Graça Moura.
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