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26/04/2008 - 08h35

Melhor ensino médio público está nas escolas técnicas federais

Bruno Aragaki
Em São Paulo
No mar de baixas notas do ensino público brasileiro, as escolas técnicas federais são ilhas de excelência. No último Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o desempenho dos alunos desses colégios superou os resultados da rede pública tradicional e quase alcançou os das escolas particulares.

O levantamento também mostra que, em 13 Estados, as notas das técnicas federais, instituições gratuitas, superam as obtidas pelas escolas privadas. É o caso de Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas, Espírito Santo, Roraima, Rondônia, Rio Grande do Norte, Mato Grosso, Ceará, Maranhão, Pará e Amazonas.

A média verificada nas técnicas federais foi 63,11 - 31% maior que os 48,28 pontos da rede pública. Nas escolas particulares, a média das notas foi 63,58 pontos, segundo tabulação de dados do Enem 2007 feita pelo UOL Educação.A comparação foi feita levando em conta os mesmos parâmetros do ProUni ao selecionar os beneficiados com bolsa para o ensino superior. Ou seja, foram consideradas as médias, calculadas com as notas da prova objetiva com 63 questões de múltipla escolha e da redação.

Público seleto

As modestas dimensões da malha técnica federal pode ser uma das justificativas para o bom desempenho. Segundo o MEC (Ministério da Educação), são 185 escolas em todo o país, o que representa pouco mais de 1% no universo das 17 mil escolas públicas participantes do Enem 2007.

Para fazer parte desse grupo seleto, estudantes de 14 e 15 anos passam por "vestibulinhos",processos seletivos com concorrência similar à enfrentada pelos candidatos a grandes universidades.

Um exemplo disso é a disputa enfrentada pelos candidatos a estudar no Cefet-SP (Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo), que obteve média 75,93 no Enem. Cada adolescente concorre a um lugar na escola com outros 17 - relação candidato/vaga equivalente ao curso de Desenho Industrial, o segundo mais concorrido do vestibular 2008 da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

O resultado: nessa peneira do ensino grátis de qualidade, "a maioria que passa vem das escolas particulares", diz Tatiana Regina Simão, diretora de ensino do Cefet-SP. "Por isso, nos próximos vestibulinhos, vamos dar pontos para quem estudou na rede pública", afirma. A mesma estratégia de inclusão já é adotada por universidades públicas, como a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Semelhanças com a universidade

Os pontos em comum vão além da seleção rigorosa e do quadro de alunos composto por ex-alunos de colégios privados.

"Alunos pré-selecionados têm desempenho melhor, mas a qualificação dos docentes é essencial para manter o nível", diz Simão. Segundo ela, 35% do quadro docente da escola tem mestrado ou doutorado.

Como muitos desses Cefets oferecem também cursos de graduação, os alunos de ensino médio aproveitam os laboratórios e a estrutura utilizados pelos universitários.

"Os professores que dão aula nos cursos superiores e no ensino médio, muitas vezes, são os mesmos", diz Silvino Iagher, professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná). A escola teve a maior média entre as técnicas federais no Enem 2007 e o quarto melhor desempenho entre as públicas do país - atrás apenas dos colégios de aplicação das federais do Rio, de Viçosa (MG) e de Pernambuco.

Técnicas estaduais

De acordo com o mais recente censo escolar do MEC, de 2006, o Brasil tem 727 escolas técnicas mantidas por governos estaduais. Em alguns Estados, chama a atenção a distância entre o desempenho dos alunos das redes públicas técnica e regular.

Em São Paulo, na rede Paula Souza, que agrupa as escolas técnicas de nível médio, as notas também ficam próximas às dos colégios particulares: 61,85, a maior média dentre as redes estaduais, segundo o levantamento do UOL Educação.

Já os alunos das escolas não-profissionalizantes também mantidas pelo governo estadual tiraram 13 pontos menos: 48,77, sempre levando em conta a média entre as notas das provas objetiva e de redação.

Diferença de orçamento

Varia também entre as instituições o valor gasto entre os dois níveis de ensino. Nas escolas técnicas, o governo paulista gasta R$ 3.700 por aluno ao ano, valor 2,7 vezes maior que o gasto nas escolas estaduais de ensino médio, R$ 1.350, segundo o Centro Paula Souza e a Secretaria de Estado da Educação.

A lacuna do investimento por aluno é ainda maior na comparação entre as redes técnica federal e a média nacional. Em uma, gasta-se R$ 5.000 por ano; na outra, R$ 939.
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