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01/05/2008 - 08h00

Má qualidade do ensino médico se reflete na saúde pública, diz presidente da AMB

Mariana Tramontina
Em São Paulo
  • Qualidade dos cursos de medicina reflete na saúde brasileira? Opine


  • A medicina brasileira está doente e precisa de tratamento - esse é o diagnóstico do presidente da AMB (Associação Médica Brasileira), José Luiz Gomes do Amaral, sobre a atual condição dos cursos superiores de saúde no Brasil. A categoria está preocupada com o resultado do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), que colocou 17 graduações da área com baixo desempenho sob supervisão do MEC (Ministério da Educação).

    Para o presidente da AMB, dar autorização a médicos atuarem sem preparo coloca a vida da população em risco. "O Cremesp fez um levantamento de que houve um aumento de 150% nas denúncias de erros médicos entre 1995 e 2005. O ensino médico reflete nesses números por causa da degradação do ensino público e a mercantilização do ensino privado." Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), houve um crescimento de 94% na quantidade de cursos de medicina nos últimos 12 anos.

    O MEC divulgou na terça-feira (29) a lista dos 17 cursos de medicina que estão sob supervisão por causa de baixas notas dos estudantes nas avaliações federais.Leia mais
    NA MIRA DO MEC
    A residência -- um período em que os recém-formados se especializam -- é uma das práticas que as associações da categoria defendem como pré-requisito para o exercício da profissão. "Temos mais de 40% de médicos sem residência, o que é grave", diz o presidente da AMB.

    18 mil médicos por ano
    Segundo o presidente da AMB, são 336 mil profissionais no mercado. "O número de médicos é superior ao que o Ministério da Saúde e o próprio SUS (Sistema Único de Saúde), do governo, podem absorver", afirma Amaral. "As faculdades de medicina no país formam 18 mil médicos por ano, mas metade das instituições não tem condições de formar profissionais".

    "O Enade vai supervisionar 17 dos 103 cursos avaliados. Isso não significa que a maioria das 175 escolas médicas do país alcance qualificação mínima. Muitos não foram avaliados, como os 52 que ainda não formaram a primeira turma. Com esses dados, será identificada uma quantidade muito maior de insuficiências que refletem na saúde pública", disse o presidente da AMB.

    A proposta de um Exame de Ordem para médicos, como aquele aplicado pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), é uma idéia cogitada pelas associações da categoria, mas não é vista como a melhor solução. "A causa do mau desempenho no Enade é a péssima qualidade das faculdades, e não dos alunos", diz Amaral.

    Para ele, o próprio Enade é interessante, mas o ideal seriam dois ou três exames ao longo do curso. "O MEC deveria reprovar os alunos sem preparo. Assim talvez garantiríamos que todo médico se qualificasse sem precisar esperar até o final do curso para saber como se saiu".

    Tempestade em copo d'água
    Genário Alves Barbosa, conselheiro do CFM (Conselho Federal de Medicina) e coordenador da comissão de ensino médico da entidade, vê a repercussão do resultado do Enade como uma "tempestade em copo d'água". "É uma prova que só alguns alunos fazem, alguns sem interesse, e muitos boicotam. É interessante, mas não pode ser um instrumento para dizer se a escola é boa ou ruim".

    No entanto, ele admite que a má qualidade do sistema de saúde brasileiro esteja diretamente relacionada às condições do ensino médico. "Se você tem bons profissionais, terá um bom atendimento. Se [o profissional] não tem noção do que vai diagnosticar, pode gerar um ônus muito maior para o Estado".
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