A
aprovação do acordo ortográfico no parlamento de Lisboa, assinada nesta sexta-feira (16), provocou reações de indignação entre internautas portugueses. Muitos associam as novas regras, que unificam a escrita de Brasil, Portugal e dos outros países de língua portuguesa, a interesses econômicos brasileiros.
"O vosso país a partir destre momento para mim chama-se 'estados unidos do brázzil e pórtúsgal assochiado", ironizou um leitor do jornal português "Público", satirizando a pronúncia brasileira.
No
site do mesmo jornal, outro leitor manifestou-se contrariamente à unificação: "Mais valia assinarem um acordo ortográfico com Espanha que é-nos mais comum que o Brasil!"
Reações semelhantes foram vistas em blogues portugueses. Em
"O Andarilho", o post que comenta a aprovação da reforma chama-se "Dia negro para a língua portuguesa".
Menos numerosas, manifestações favoráveis ao acordo também puderam ser vistas nos fóruns virtuais portugueses: "É lamentável que parte considerável das críticas ao acordo ortográfico assentem, apenas, no preconceito", escreveu outro internauta também no site do jornal Público.
Manifesto contrário
Na última quinta-feira, um dia antes da votação do acordo, foi entregue ao presidente da Assembléia da República Portuguesa um manifesto com 33 mil assinaturas contra o acordo.
O deputado Vasco Moura, o primeiro a assinar o manifesto, declarou que o
acordo defende interesses empresariais brasileiros.
Segundo o texto, a reforma ortográfica tem "inúmeras imprecisões, erros e ambigüidades", classificando a proposta de "mal concebida", "sem critério de rigor", "desnecessária" e "perniciosa".
O acordo ortográfico foi editado em 1990 e deveria ter entrado em vigor em 1994, mas apenas três dos Estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) aprovaram o acordo e dois protocolos modificativos estabelecidos.
Alterações
Os estudos lingüísticos que basearam o acordo indicam que os portugueses terão mais modificações do que os brasileiros. O dicionário português terá de trocar 1,42% das palavras, enquanto no Brasil apenas 0,43% sofrerão mudanças.
Para os portugueses, caem as letras como o "c" em acto, direcção e selecção, e o "p" em excepto - objeto de reclamação do manifesto, que diz que algumas dessas letras são pronunciadas em Portugal.
A nova norma acaba com o acento no "a" que diferencia o pretérito perfeito do presente (em Portugal, escreve-se passámos, no passado, e passamos, no presente).
Algumas diferenças vão continuar. Em Portugal, polémica e génesis manterão o acento agudo - o Brasil continuará escrevendo com o circunflexo.
Os portugueses manterão o "c" em facto - fato em Portugal é roupa - e vão tirar o "p" que no país não é pronunciado na palavra recepção.
O texto com as novas normas irá, nos próximos dias, à publicação no Diário da República (diário oficial português), e daí à sanção do presidente português, Cavaco Silva, que já se manifestou favoravelmente ao Acordo.
Na ABL (Academia Brasileira de Letras), a notícia da aprovação do acordo em Portugal foi recebida com "entusiasmo", segundo nota divulgada na tarde desta sexta-feira. "Inscreve-se, finalmente, a Língua Portuguesa no rol daquelas que conseguiram beneficiar-se há mais tempo da unificação de seu sistema de grafar, numa demonstração de consciência da política do idioma e de maturidade na defesa, difusão e ilustração da língua da Lusofonia", dizia a nota.
*Com informações agências internacionais
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