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29/06/2009 - 09h58

Geração "nem-nem": nem estuda nem trabalha

Do El País
Os jovens enfrentam hoje o risco de um nível de vida pior que o de seus pais - 54% não têm projetos nem entusiasmo

Tão preparados e satisfeitos com suas vidas, e tão vulneráveis e perdidos, nossos jovens se sentem presas fáceis da devastação do mundo do trabalho, mas não conseguem vislumbrar uma saída, nem combater esse estado de coisas.

O dado apareceu há pouco tempo, sem alarde, entre os resultados da última pesquisa da Metroscopia: 54% dos espanhóis entre os 18 e 34 anos dizem não ter nenhum projeto pelo qual se sintam especialmente interessados ou entusiasmados. Surgiu uma geração apática, desvitalizada, indolente, embalada no conforto familiar?

Os sociólogos detectam a aparição de um modelo de atitude adolescente e
juvenil: a dos nem-nem, caracterizada por uma rejeição simultânea ao estudo e ao trabalho.

"Esse comportamento emergente é sintomático, já que até agora era subentendido que se a pessoa não queria estudar, deveria trabalhar. Me pergunto que projeto de futuro pode haver por trás dessa postura?", diz Elena Rodriguez, socióloga do Instituto da Juventude (Injuve).

A crise veio a acentuar a incerteza no seio de uma geração que cresceu em um âmbito familiar de melhora continuada do nível de vida e que foi confrontada com a deterioração das condições de trabalho:

precariedade, subemprego, mileurismo [aqueles que vivem com renda de mil euros], falta de valorização à formação. As vantagens de ser jovem numa sociedade mais rica e tecnológica, mais democrática e tolerante, contrastam com as dificuldades crescentes para se emancipar e desenvolver um projeto vital de futuro.

E agora como nunca, em séculos, ficou tão patente o risco de que a qualidade de vida dos filhos da classe média seja inferior à dos pais.

Esse temor começou a crescer, precisamente, entre a geração que de forma mais preocupante, sempre acima de 80%, declara se sentir satisfeita com sua vida. O vírus do desânimo está minando a natureza vitalista e combativa dos jovens, ainda que encontremos provas fidedignas individuais e coletivas de seu consubstancial espírito de superação.

Eis aqui uma mostra de resistência à adversidade externa, junto à prova de como o discurso consumista resultou numa armadilha para tantos jovens audazes que acreditaram no maná do crédito e no crescimento econômico sem fim.

"Não podemos fazer frente às hipotecas", resume Luis Doña, de 26 anos, pai de uma menina de 15 meses, presidente da Associação de Defesa dos Hipotecados, que pretende renegociar a dívida contraída com os bancos e reclamar a ajuda do goveno.

Levados pelo entusiasmo de haver encontrado um emprego estável, como vendedor de uma multinacional, ele e sua companheira adquiriram há quatro anos um crédito hipotecário de 180 mil euros a pagar em 30 anos para comprar um apartamento.

"Tínhamos que pagar 800 euros por mês, mas estávamos pagando 600 de aluguel. Há um ano, de repente, ficamos os dois sem trabalho e o seguro desemprego já esgotou. Conseguimos que o banco nos cobre apenas os juros da dívida, mas são 560 euros por mês e não temos isso, porque não recebemos nada. Desmoralizados? O que estamos é desesperados e isso que nosso caso não é tão dramático como o de outras famílias que foram despejadas, tiveram que se refugiar na casa da mãe ou da sogra."

Eduardo Bericat, professor de Sociologia da Universidade de Sevilla, acredita que a falta de ilusão deve ser interpretada, não tanto pelos efeitos da crise, mas pela mudança cultural produzida anteriormente.

"O modelo de vocação profissional que implicava um projeto de vida futuro e um destino final conhecido, com seus esforços e compensações, desapareceu. Agora, a incerteza se impõe no trabalho e no casal e não está claro que a dedicação, o compromisso, o estudo, o título, terão sua correspondente compensação social e trabalhista", afirma.

Se a pergunta clássica de nossos pais e avós: "E você, o que vai ser?"
perde fundamento, é mais compreensível que os esforços juvenis respondam, mais do que à ilusão de um projeto próprio, ao risco de ficar descartado. "Se não estudo, se não faço esse mestrado..."

Segundo o informe Eurydice, da União Europeia, só 40% dos universitários espanhóis têm um trabalho de acordo com seus estudos.

Para os jovens não é emocionalmente rentável se comprometer com um projeto de vida definido porque pensam que estariam submetidos a vai-vens contínuos e que dificilmente chegariam a um lugar seguro.

"Aplicam a estratégia de flexibilizar os desejos e de reduzir compromissos; nada de esforços exorbitantes quando o benefício não é seguro. Como o risco de frustração é grande, preferem não descartar nada e definirem-se pouco", explica Eduardo Bericat.

A isso, deve-se somar um acusado pragmatismo - nossos filhos são pouco idealistas -, e o que os especialistas chamam de "presentismo", a reforçada predisposição a aproveitar o momento, "aqui e agora", em qualquer âmbito da vida cotidiana.

De acordo com os estudiosos, essa atitude responde tanto à sensação subjetiva de falta de perspectivas, como ao fato de que o alargamento da etapa juvenil convida a não desperdiçar "os melhores anos da vida" e a combinar o desfrute hedonista com o investimento em formação.

Apesar da falta de dados sobre o alcance da "síndrome nem-nem", o professor de sociologia de Sevilla explica que o pacto implícito entre o Estado, a família e os jovens, pacto que compromete o primeiro a financiar a educação e a segunda a se encarregar da manutenção, alojamento e ócio, faz alguns jovens acreditarem que nas atuais circunstâncias podem retardar a tomada de responsabilidade.

"Desenvolvem uma atitude niilista porque não se exige que estejam motivados, nem que assumam responsabilidades e há redes e guarda-chuvas sociais. Nas convocatórias para cobrir as vagas de bolsistas, encontro com aspirantes de trinta e tantos e até quarenta anos, e o curioso é que esses bolsistas se comportam como bolsistas. É a profecia autocumprida. Se os chamam de bolsistas e os pagam como tal, acabam se transformando em bolsistas. O que me preocupa é a infantilização da juventude", enfatiza.

"Os jovens de agora não são capazes de arriscar, são conservadores", constata Elena Rodríguez.

A tardia emancipação juvenil espanhola (bem acima dos 30 anos em média) é, sobretudo, fruto da instabilidade e precariedade do mercado de trabalho ou consequência desse suposto conservadorismo? Ainda que a diversidade e pluralidade da juventude aconselhe fugir das visões unívocas, não se pode perder de vista que eles não tiveram que vencer os obstáculos das gerações precedentes.

"Olhamos com descrédito a vida que a sociedade nos oferece. Nossos pais trabalharam muito e se endividaram pela vida toda, mas tampouco os vimos muito felizes. Não é isso o que queremos. Nós temos pouca pressa para nos tornarmos maiores", explica Letizia Tierra, voluntária de uma ONG.

Em geral, as pessoas que trabalham em associações de ajuda juvenil tendem a ter crenças divididas, umas acreditam no copo meio cheio, outras no copo meio vazio.

"No Cimo (Centro de Iniciativas da Juventude) vemos apatia e falta de ilusão generalizada. Muitos dos 200 mil novos universitários formados a cada ano enfrentam com pessimismo a busca de emprego. Sabem que há uma grande porcentagem de vagas para caixas, repositores, armazenistas, balconistas, etc ocupados por diplomados ou licenciados", afirma Yolanda Rivero, diretora dessa associação que atende mais de 600 jovens por dia.

Contudo, descobre também muitos jovens capazes de se adaptar e assumir desafios e riscos. "A geração de jovens super qualificados tem a vantagem de sua formação melhor. Em vista desse panorama, continuam se formando, viajam, trabalham de garçom se for preciso, para pagar um mestrado e aproveitam suas oportunidades, ainda que, isso sim, na casa do pai e da mãe até os 35 anos, pelo menos."

O professor de Psicologia Social Federico Javaloy, autor do estudo e enquete de 2007 "Bem-estar e felicidade da juventude espanhola", acredita que nossos jovens não são apáticos e desiludidos, ainda que o estejam, por contágio ambiental.

"O que acontece é que eles rejeitaram o menu de trabalho que oferecemos. O erro é nosso, de nossa educação e nossos meios de comunicação", sustenta. Ainda que as ONG canalizem na Espanha as inquietudes que os partidos políticos são incapazes de acolher, tampouco pode-se dizer que a participação juvenil nesse campo seja extraordinária".

Cerca de menos de 10% dos jovens participa de algum tipo de associação, na maioria desportiva, mas a porcentagem dos que participam de ONGs não chega, com certeza, a 1%", indica o professor de sociologia da Uned, José Felix Tezanos.

Autor do estudo "Juventude e exclusão social", Tezanos detecta entre os jovens uma atmosfera depressiva, um processo de dissociação individualista, condensado na expressão "só sou parte de mim mesmo", e o enfraquecimento da família. "Está acontecendo uma grande quebra cultural.

Os componentes identitários dos jovens não são as ideias, o trabalho, a classe social, a religião ou a família, mas sim os gostos ou interesses e o pertencimento à mesma geração e ao mesmo gênero; ou
seja: elementos microespaciais, fracos e efêmeros", diz.

O sociólogo da Uned se pergunta até quando o colchão familiar aguentará e o que acontecerá quando os pais que têm seus filhos vivendo em casa se aposentem.

A seu ver, o previsível declínio da classe média, a falta de trabalhos qualificados - "o bedel da minha faculdade é engenheiro", diz ele -, a grande quantidade de bolsas, a baixa natalidade e a defasagem no gasto social em relação à Europa estão criando uma atmosfera inflamável que abre a possibilidade de estouros similares aos da Grécia ou França.

"Podemos assistir ao primeiro processo massivo de descida social desde os tempos da Revolução Francesa", prevê.

Mais apocalíptico se manifesta Alain Touraine no prólogo do livro de José Félix Tezanos. "Nossa sociedade não tem muita confiança no futuro uma vez que exclui aqueles que representam o futuro" (?) "Pensa-se que os jovens vão viver pior que seus pais", escreve o intelectual francês.

E acrescenta: "Avançamos para uma sociedade de estrangeiros em nossa própria sociedade" (?) "Se há uma tendência forte, é que teremos um mundo de escravos livres, por um lado, e um mundo de tecnocratas, por outro" (?) "Os jovens têm que trabalhar de maneira tão competitiva, que acabam se desgastando (?) Não estão só desorientados, é que, na verdade, não há pistas, não há caminho, não há direita, esquerda, à frente, atrás".

Ninguém parece saber, de fato, o que substituirá a velha equação de formação-trabalho-situação estável, se, como apregoam esses sociólogos, a educação na cultura do esforço chega a seu fim e grande parte dos empregos apenas darão para sobreviver.

Ainda que estejamos diante de uma geração pragmática que não sonhou em mudar o mundo, muitos estudiosos acreditam que a juventude não permitirá, sem luta, o desaparecimento da classe média.

"O mundo que iluminou o Iluminismo, a Revolução francesa e a Revolução industrial está esgotado. A superprodução e a superabundância material em estruturas de grande desigualdade social carecem de sentido, é preciso repensar muitas coisas, construir outra sociedade", afirma Eduardo Bericat.

As dinâmicas encaminhadas a estabelecer novas formas de relações pessoais, a busca de uma maior solidariedade e espiritualidade, mas além dos partidos e religiões convencionais, as tentativas de combater a crise e de conciliar trabalho e família, o ecologismo e até o niilismo denotam, a seu juízo, que algo se move nos sentimentos mais íntimos dessa geração.

"São alternativas que, isoladamente, podem ser peregrinas, mas que, em conjunto, marcam a busca de um novo modelo de sociedade", disse o professor. Será possível que essa juventude supostamente acomodada e refratária à utopia seja a chamada a abrir novos caminhos?

José Luis Barbería
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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