Enfrentar o analfabetismo não é estritamente uma questão de políticas educacionais, mas de políticas multissetoriais. Essa é a opinião de Maria Clara Di Pierro, professora da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo). Ela explica que o analfabetismo ocorre em duas vertentes: como resultado do contingente que hoje tem mais de 40 anos e não foi à escola e como consequência de condições precárias de vida de parte da população.
O Brasil ainda tem 14,2 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais, segundo os dados mais recentes da
Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2008. O estudo foi divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta sexta-feira (18) e tem informações referentes ao ano de 2008.
A professora diz que as últimas políticas educacionais voltadas aos analfabetos têm escopo muito reduzido, uma vez que não criam condições favoráveis para que essas pessoas consigam se alfabetizar. Para encorajá-los, ela aponta a necessidade de haver políticas articuladas entre a Educação e outras áreas, como Saúde e Desenvolvimento Social.
"O emprego formal exlcui o analfabeto, ele não pode ter qualificação profissional, não tem incentivo". Como exemplo, cita a ocupação de catador de papel: "é muito difícil ele ir às aulas todos os dias depois de um dia de trabalho, mas se ele estivesse numa cooperativa, em que ganhasse uma cesta básica e onde pudesse participar da gestão, por exemplo, talvez esse catador se interessasse mais".
Perfil do analfabeto
O analfabetismo, segundo o Observatório da Equidade do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social), está ligado à falta de acesso à educação e à desigualdade na distribuição de renda. O problema ocorre com maior intensidade no Nordeste, nas áreas rurais e atinge mais as pessoas que ficaram menos tempo na escola.
"A persistência do analfabetismo é apenas sintoma desse conjunto de problemas que a sociedade não conseguiu enfrentar ainda", alerta Maria Clara.
Programa de alfabetização paga bolsa de R$ 250
Para a professora, é preciso aumentar a remuneração dos programas do goveno, como o Brasil Alfabetizado, que dá bolsa de R$ 250 para os alfabetizadores -- valor muito menor do que o do piso nacional do magistério.
A ação, que teria como objetivo ser a "porta de entrada" para o EJA (Educação de jovens e adultos) não tem cumprido esse papel, segundo Maria Clara. Segundo dados de 2007, apenas 6,2% dos ingressantes na ação continuaram seus estudos.
Modelo de educação ligado à escola das crianças
Para que os analfabetos funcionais -- estimados hoje em 30 milhões -- consigam melhorar suas competências de leitura e escrita, segundo a professora, é preciso que haja maior enriquecimento de sua vida sociocultural e flexibilização do ensino de adultos. "Nosso modelo é muito ligado à escola das crianças, o adulto tem que ir todo dia para a aula."
A falta de qualificação dos professores para a educação de adultos também é um obstáculo. Segundo a docente, praticamente não há professores qualificados para dar aulas para adultos, uma vez que as faculdades raramente tem disciplinas obrigatórias voltadas para esse tipo de educação. "Não é uma preocupação das faculdades, essas matérias ficam marginalizadas. Não basta ter só uma disciplina, é preciso haver um percurso formativo, uma transversalização do tema", explica.
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