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06/08/2009 - 20h00

Acordo EUA-Colômbia

Novas bases militares provocam tensão entre vizinhos

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Foto: José Cruz/ABr

O presidente Lula recebe o presidente Álvaro Uribe: em pauta, o acordo militar colombiano com os EUA

O acordo assinado pelos Estados Unidos e pela Colômbia, com a finalidade de ampliar as bases militares norte-americanas em território colombiano, objetivando combater o narcotráfico na região, gerou tensão entre países sul-americanos. (Direto ao ponto: Ficha-resumo)

O impasse começou em julho de 2009, quando surgiram novas denúncias de colaboração da Venezuela com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Na ocasião, foram descobertos, em poder do grupo rebelde, lançadores de foguetes antitanque que o governo venezuelano havia comprado da Suécia em 1988.

Como a artilharia foi parar nas mãos dos guerrilheiros?

Os governos da Suécia e da Colômbia cobraram explicações do presidente venezuelano Hugo Chávez. Mas, ao invés de se justificar, Chávez partiu para o ataque: chamou de volta a Caracas o embaixador da Venezuela em Bogotá e suspendeu relações diplomáticas e econômicas com a Colômbia.

Tráfico de drogas

Não é a primeira vez que acusam Chávez de ajudar as Farc. Nos últimos meses, a divulgação de material apreendido em computadores dos rebeldes revelou que Caracas fornecia armas e trânsito livre à guerrilha comunista.

Um dos principais aliados do líder venezuelano, o presidente equatoriano Rafael Correa, também é suspeito de envolvimento com as Farc.

Em março de 2008, o exército colombiano bombardeou focos da guerrilha no Equador, o que levou, à época, ao congelamento das relações diplomáticas entre os dois países. Apesar dos indícios de cooperação com o grupo rebelde, Correa e Chávez fizeram reiterados desmentidos.

As Farc surgiram em 1964, inspiradas na Revolução Cubana. É o grupo guerrilheiro comunista mais antigo em atividade no mundo. Nos anos de 1980, a organização passou a controlar a produção e a comercialização de cocaína na Colômbia, que tem como principal mercado consumidor os Estados Unidos.

Outra fonte de recursos financeiros das Farc é o sequestro de civis. O caso mais famoso é o da candidata presidencial Ingrid Betancourt, resgatada em 2 de julho de 2008, depois de seis anos em cativeiro na selva colombiana.

Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia (EU) consideram as Farc uma organização terrorista.

Polêmica das basesO acordo entre EUA e Colômbia também teve um desdobramento político que transpôs as fronteiras entre os três países - Colômbia, Venezuela e Equador -, atingindo os Estados Unidos e, também, ameaçando a integração regional latino-americana.

Em resposta às novas denúncias de apoio às Farc, Chávez aproveitou para atacar o plano de reforço militar norte-americano na Colômbia. De acordo com o presidente colombiano Álvaro Uribe, o objetivo das bases é reforçar o combate ao narcotráfico. Porém, o regime chavista considerou o caso uma agressão e uma ameaça à soberania da Venezuela.

O Brasil engrossou as críticas e pediu mais transparência no acordo, deixando claro que não vê com bons olhos o movimento de tropas estrangeiras na região. Os Estados Unidos evitaram, num primeiro momento, comentar o assunto.

O acordo entre Washington e Colômbia prevê operações de 800 soldados - 600 deles civis contratados - em até cinco bases militares, no prazo de 10 anos (de 2009 a 2019). Estão previstos investimentos de US$ 5 bilhões (R$ 9,18 bilhões).

A Colômbia é a principal nação aliada dos Estados Unidos na América do Sul. Há quase uma década os países realizam operações militares conjuntas contra o narcotráfico dentro do chamado "Plano Colômbia", que hoje conta com 250 soldados americanos.

Pelas diretrizes, os Estados Unidos usarão as bases colombianas para patrulhar rotas aéreas e marítimas, usadas pelos traficantes para escoamento de drogas. O contrato foi firmado depois que o Equador se recusou a prorrogar o acordo para cessão da base aérea de Manta, cidade portuária na província equatoriana de Manabí.

Antiamericanismo

Toda a discussão envolvendo as operações militares norte-americanas na Colômbia tem um contexto histórico de relações nem sempre amistosas entre os países da América Latina e os Estados Unidos.

Até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as intervenções militares nos países da América Central e do Sul eram comuns, visando interesses econômicos e estratégicos da Casa Branca.

Com o começo da Guerra Fria, Washington passou a apoiar indiretamente ditaduras militares, inclusive a ditadura militar no Brasil (1964-1985). A razão era evitar o avanço do comunismo nas Américas, como aconteceu em Cuba.

A partir da década de 1980, alguns países latino-americanos começaram um lento processo de redemocratização. A estabilidade política e econômica, entretanto, era precária. Mais recentemente, surgiu um movimento de refundação socialista liderado pelo presidente Hugo Chávez, e que tem como aliados o Equador, a Bolívia e Cuba.

Esse movimento é caracterizado, na política, pela concentração de poderes no Executivo, por meio de sucessivas consultas populares e mudanças na Constituição, a fim de assegurar a permanência no poder dos atuais presidentes. Para alguns analistas, trata-se de uma forma velada de ditadura. Em termos econômicos, o movimento atua no sentido de estatizar as empresas, o que já provocou conflitos diplomáticos com vários países, inclusive o Brasil.

Esforços diplomáticos

Para tentar amenizar o clima tenso, o presidente colombiano iniciou, na primeira semana de agosto de 2009, uma viagem por sete dos 12 países que compõem a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), incluindo o Brasil. Uribe pretende explicar o acordo com os Estados Unidos. Venezuela e Equador foram excluídos do roteiro.

A Unasul foi criada em 23 de maio de 2008, depois da crise desencadeada pela ação militar colombiana contra as Farc no Equador. Ela tem a finalidade de integrar os países da região.

Na próxima reunião da Unasul, prevista para ocorrer no dia 10 de agosto de 2009, em Quito, capital do Equador, o acordo da Colômbia com os Estados Unidos deverá ser o principal assunto em debate.

Apesar dos esforços diplomáticos, o impasse em torno da questão revela a fragilidade da própria Unasul - e o difícil processo de integração regional.

Direto ao ponto volta ao topo
Um acordo entre Colômbia e Estados Unidos – para ampliar as bases militares norte-americanas em território colombiano – gerou tensão na Venezuela e no Equador. A Colômbia alega que o plano é necessário para combater o narcotráfico e lutar contra o grupo guerrilheiro comunista Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Consequências
  As difíceis relações diplomáticas entre Colômbia, Venezuela e Equador ficaram mais tensas.
  O Brasil também criticou o acordo.

Soluções
O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, iniciou uma rodada de encontros com governantes da América do Sul, a fim de explicar as razões do acordo.
O assunto será discutido na reunião (em 10 de agosto de 2009) da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).


Saiba mais

  • "Como entender nossos rotos heróis": extenso artigo do ex-Ministro da Fazenda e jurista Rubens Ricupero explica os entraves históricos da integração latino-americana.
  • Che - parte 1 (2009): filme conta a história da formação do movimento revolucionário liderado por Fidel Castro e Ernesto "Che" Guevara, que lutou contra o ditador Fulgêncio Batista e serviu de modelo para guerrilhas na América Latina.
*José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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