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04/12/2008 - 10h31

Atentados na Índia

Terrorismo sem fronteiras é o lado perverso da globalização

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução - Presidência da Índia

A presidente da Índia, Pratibha Patil, visita vítimas dos ataques terroristas ocorridos em Mumbai

Cenas de carnificina protagonizadas por jovens mal saídos da adolescência se tornaram rotina em países da Europa, Ásia e África, vitimando pessoas inocentes em uma guerra sem nacionalidade, movida pela intolerância religiosa.

No mais recente episódio, dez terroristas invadiram na semana passada dois hotéis de luxo, uma estação de trem e atacaram outros sete pontos em Mumbai (antiga Bombaim), capital financeira da Índia e maior cidade do país, com 20 milhões de habitantes.

Após três dias de violência, deixaram quase 200 mortos e dezenas de feridos, aumentando também a tensão política na região.

É como se a avenida Paulista, no centro de São Paulo, fosse tomada por criminosos com o único objetivo de matar o maior número de pessoas que encontrassem pela frente. No caso da Índia, o componente explosivo que provoca conflitos na região são diferenças religiosas acirradas por um ódio com raízes históricas.

11 de setembro indiano

Apesar de ser comumente caracterizado como povo pacífico, segundo a tradição do líder Mahatma Gandhi (1869-1948), os indianos vivem uma guerra sem fim, semelhante àquela travada entre palestinos e judeus no Oriente Médio.

O que os ataques terroristas a Mumbai - chamados de "11 de Setembro indiano" em alusão aos atentados em 2001 nos Estados Unidos - tiveram de diferente em relação aos anteriores, foi o fato de terem atingido os mais ricos.

No luxuoso Taj Mahal Palace & Tower Hotel, terroristas armados de granadas e fuzis invadiram quartos e executaram friamente turistas, principalmente americanos e ingleses. E, como é comum neste tipo de ação conduzida por fanáticos, não houve exigências e todos, com exceção de um, acabaram mortos pela polícia.

Foram os piores atentados desde a morte de mais de 200 pessoas em explosões de bombas ocorridas em 2006.

Para as autoridades indianas, há indícios de que o grupo terrorista recebeu planejamento e treinamento militar no país vizinho e eterno inimigo, o Paquistão. Ambos os países possuem armamentos nucleares, o que torna a situação ainda mais perigosa.

Vizinhos em guerra

A origem dos conflitos entre Índia e Paquistão remonta a 1947, quando as duas ex-colônias inglesas se tornaram independentes.

A Índia, o segundo país mais populoso do mundo (só perde para a China) com 1,14 bilhões de habitantes, tem maioria hindu (82%), diferente do Paquistão, com maioria mulçumana sunita (77% da população). Por causa deste antagonismo religioso, os territórios se separaram em países autônomos, sem conseguir resolver problemas internos.

Desde então, investiram milhões em armamento e travaram três guerras, duas delas motivadas pelo controle da Caxemira, Estado indiano de maioria islâmica. Além das guerras, os dois países são alvos, há décadas, de atentados terroristas que mataram milhares de habitantes locais e estrangeiros.

Há suspeitas de envolvimento nos ataques de Mumbai de uma milícia que luta pela independência da Caxemira e que atacou o Parlamento indiano em 2001, quase levando Índia e Paquistão a uma quarta guerra.

Com este histórico de desavenças, é normal que haja, entre a população dos dois países, ódios mútuos, reavivados em momentos de crise. Mas o que está em jogo no incidente atual?

Estados Unidos

O que torna a recente situação mais dramática é o eventual fim do diálogo iniciado com a posse do presidente paquistanês Asif Ali Zardari (viúvo de Benazir Bhutto, ex-primeira ministra assassinada em 2007), que fez críticas contundentes aos radicais islâmicos, alguns dos quais ocupando postos no alto escalão das Forças Armadas.

Ou seja, a onda de violência acontece bem em meio a um delicado processo de paz entre os países, que agora corre o risco de ser suspenso. A quem isso interessa?

Grupos terroristas se aproveitam da instabilidade para emperrar não somente acordos de paz como também o crescimento econômico da Índia, considerada, ao lado de China, Rússia e Brasil, uma potência econômica e política emergente. Com isso, poderiam continuar aliciando jovens entre minorias mulçumanas para sua cruzada "santa" contra o mundo ocidental.

Se por um lado a briga fortalece terroristas islâmicos, por outro prejudica especialmente os planos de liderança dos Estados Unidos de Barack Obama.

Isto porque o Paquistão faz fronteira também com o Afeganistão, outro país em guerra que abriga milícias talebãs e a rede terrorista Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, responsabilizada pelos ataques de 11 de Setembro. Para os Estados Unidos é fundamental preservar a cooperação entre Índia e Paquistão, para interromper o avanço do terrorismo e agilizar a retirada de tropas norte-americanas do Afeganistão, promessa de campanha de Obama.

É bom lembrar que, nos anos 80, quando foi conveniente, os Estados Unidos apoiaram os talebãs para expulsar os comunistas soviéticos da região, em mais uma estratégia que, com o tempo, se mostrou desastrosa.

Futuro incerto

O histórico de intolerância religiosa, identidades territoriais fragmentadas com o fim das colônias e decisões políticas equivocadas são os ingredientes que mantém o clima beligerante entre os países da região e nutrem o terror em todo mundo.

O terrorismo internacional representa o avesso da globalização. Do mesmo modo que hoje o dinheiro percorre o mundo numa fração de segundos, podendo derrubar, num instante, bolsas de São Paulo e Tóquio, extremistas também agem globalmente, criando conflitos de difíceis soluções, como no caso da Índia.

Para combatê-los, a melhor saída é recuperar a confiança entre os Estados. Por mais difícil que seja esquecer o passado e conviver com as diferenças, Paquistão e Índia precisam retomar as conversações de paz, na esperança de encerrar um ciclo histórico de massacres.
* José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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