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18/09/2008 - 15h12

Bolívia - Violência política acompanha história do país

Violência política acompanha história do país

Antonio Carlos Olivieri*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Agência Boliviana de Información/Gonzalo Jallasi

Manifestações de rua, em setembro de 2008, numa Bolívia à beira da guerra civil

Em setembro de 2008, a crise política na Bolívia ameaçou transformar-se em uma guerra civil. O confronto entre os partidários do presidente Evo Morales e a oposição, organizada em torno dos governos dos departamentos de Pando, El Beni, Santa Cruz, Chuquisaca e Tarija, descambou para o enfrentamento físico nas ruas, com choques violentos que resultaram em no mínimo 15 mortos.

É bem verdade que as crises e a violência política não são propriamente uma novidade na Bolívia. Nenhuma nação da América Latina tem uma história política tão instável quanto ela. O país, que se tornou independente da Espanha em 1825, tem hoje 183 anos de existência e, nesse período, já enfrentou nada menos que 193 golpes de Estado.

Dos 84 chefes de governo, 32 foram ditadores e, devido às crises políticas, a presidência da República chegou a ficar vaga por quatro vezes - uma delas durante mais de 20 dias. Em média, um presidente boliviano ocupa o cargo por cerca de dois anos. O que é mais impressionante, entretanto, é como a política é capaz de acender as paixões populares e detonar a violência no país.

A sede do governo da Bolívia, o Palácio de Quemados, tem esse nome por ter sido incendiado numa revolta popular de 1860. Mas isso ainda diz pouco sobre a violência política boliviana, se comparado ao trágico destino de alguns de seus chefes de Estado: 11 presidentes foram assassinados, sete morreram no exílio, um se suicidou e outro cumpre pena de prisão desde 1995.

Entre os assassinados, encontra-se o primeiro presidente boliviano de fato, o general Antonio José Sucre, sucessor de Simón Bolívar, que proclamou a independência e ocupou a cadeira presidencial provisoriamente. Sucre governou por apenas quatro meses, entre agosto e dezembro de 1825, e foi morto num crime em que as circunstâncias nunca foram completamente esclarecidas.

Linchamento

Entretanto, houve quem governasse a Bolívia por períodos bem mais breves que o de Sucre: o general Pedro Blanco Soto ficou no poder apenas uma semana, de 26 de dezembro de 1828 a 1º de janeiro de 1829, no bojo de um conflito entre a Bolívia e o Peru. Blanco, que atuava em prol de uma anexação de seu país à nação vizinha, foi morto por seus colegas de farda, que pretendiam manter a independência boliviana.

Mas uma morte efetivamente brutal teve o presidente Gualberto Villarroel, que foi linchado e entrou para a história com o apelido de "El Colgado" ("pendurado", em espanhol). Simpatizante do fascismo, depois de permanecer no poder por dois anos e meio, o major Villarroel foi defenestrado - isto é, jogado pela janela - do palácio de Quemados por uma multidão enfurecida em 21 de julho de 1946.

Depois, seu cadáver foi pendurado de ponta cabeça na praça diante da sede do governo. Trata-se do único caso de linchamento de um presidente da República na América do Sul, mas convém lembrar que o fundador do fascismo, o italiano Benito Mussolini, teve morte semelhante pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial.

Crime de honra

Não se pode deixar de lembrar que nem todos os presidentes bolivianos assassinados tiveram esse fim por motivos políticos. O general Mariano Melgarejo, que governou o país entre dezembro de 1864 e janeiro de 1871, foi morto pelo irmão de sua amante, Juanita Sanchez, em Lima, onde estava exilado desde que fora deposto. Trata-se de uma morte coerente com sua vida, dada a "paixões primárias", segundo os historiadores bolivianos.

Levando-se em conta o histórico de golpes de Estado e de instabilidade política da Bolívia, não é de espantar que outros sete presidentes daquele país tenham morrido no exílio, depois de serem depostos pelas armas, e que mais um - Luis García Meza, que governou apenas um ano e um mês, entre julho de 1980 e agosto de 1981 - esteja na prisão desde 1995.

Isso para não falar, em matéria de destinos trágicos, de Germán Busch, que se suicidou em 23 de agosto de 1939, e de René Barrientos, morto num acidente de helicóptero, em 27 de abril de 1969. Trata-se, afinal, de duas mortes que não estão relacionadas à violência política crônica que assola a história boliviana.

Relações internacionais

A Bolívia também tem uma história de conflitos com seus vizinhos por motivos territoriais, em função dos quais já perdeu cerca de 1,5 milhão de quilômetros quadrados. Dos 2,5 milhões de quilômetros quadrados que o país possuía no ano de sua independência, resta somente 1 milhão em 2008.

Na chamada guerra do Pacífico, em 1879, a Bolívia perdeu para o Chile sua saída para o oceano Pacífico. No início do século 20, uma pendência com o Brasil levou-a a perder o território do Acre, no episódio da Revolução Acreana, pouco conhecido fora da região amazônica. Finalmente, na Guerra do Chaco, travada contra o Paraguai, entre 1932 e 1935, a Bolívia perdeu para o vizinho 75% do território do Gran Chaco.
*Antonio Carlos Olivieri é escritor, jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia & Comunicação. olivieri@pagina3ped.com
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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