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12/11/2010 - 08h40

Reunião do G20

Entenda o que é a "guerra cambial"

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
O G20, grupos das vinte maiores economias do mundo, se reúne esta semana, entre os dias 10 e 12 de novembro, em Seul, capital da Coreia do Sul. O principal assunto do encontro será a chamada "guerra cambial". A disputa monetária vem afetando sobretudo países emergentes, como o Brasil.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

"Guerra cambial" é um conjunto de medidas econômicas adotada por governos para desvalorizar suas moedas. Os países fazem isso porque, com a moeda nacional "fraca", os produtos para exportação ficam mais baratos no mercado internacional e, assim, ganham competitividade.

Para entender como isso acontece e como prejudica países como o Brasil, vamos primeiro analisar as estratégias dos dois maiores protagonistas da "guerra cambial": os Estados Unidos e a China. Não por acaso, são também, atualmente, as duas maiores potências econômicas mundiais.

Os economistas entendem que a disputa se iniciou quando os Estados Unidos colocaram mais dólares em circulação no mercado. Somente no dia 3 de novembro, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), anunciou a "injeção" de US$ 600 bilhões (R$ 1 trilhão) nos mercados até 2011.

É a mesma coisa, por exemplo, se um país tivesse uma safra muito grande de milho numa determinada estação. Com mais milho na praça, o produto seria desvalorizado, isto é, seu preço iria cair nas feiras livres e supermercados. Com a moeda acontece o mesmo. Com mais dólares em circulação, o dinheiro americano se desvaloriza frente às outras moedas, como o real.

O governo americano adotou essa medida porque precisava exportar mais para recompor sua economia, afetada pela crise financeira internacional de 2008. Como o mercado interno não dava conta disso, pois as pessoas estão desempregadas ou poupando mais do que gastando, a solução foi apelar para o mercado externo.

Para isso, é preciso tornar os preços mais competitivos (principalmente em relação aos chineses). Daí as medidas para "enfraquecer" a moeda.

Desse modo, um brasileiro que pagava três vezes mais por um produto americano, em dólar, hoje, com a moeda americana a menos de R$ 2, paga, o mesmo produto, bem mais barato, ou seja, este se torna mais atrativo para o consumidor.

China

Mas o grande vilão da história, dizem os especialistas, é a China. O país desvalorizou primeiro sua moeda, o yuan, por meio do câmbio fixo. Câmbio fixo significa que a cotação da moeda local é controlada pelo Estado. Ou seja, é o governo que determina o quanto vale o dinheiro em relação ao dólar. É o contrário do que acontece na maioria dos países, onde se adota o chamado câmbio livre, que é quando a cotação é definida pelas operações no mercado financeiro.

Soma-se a isso o fato da China ser o maior exportador mundial e está criado um problema e tanto. A reação dos demais países, como os Estados Unidos, foi o que deu início à "guerra cambial".

Recentemente, até o presidente Luis Inácio Lula da Silva reclamou da "guerra cambial" travada entre a China e os Estados Unidos. E ele não está sozinho nessa queixa. A desvalorização da moeda americana prejudica as economias de outros países, tanto no mercado externo (pois os produtos ficam mais caros e perdem na concorrência com os estrangeiros) quanto no interno, pois as importações ficam mais baratas.

Imagine um empresário brasileiro que vende uma câmera digital por R$ 300 no mercado nacional. Aí chega ao Brasil um produto chinês que custa US$ 90, o que dá pouco mais de R$ 150 - a metade do que custa o mesmo artigo brasileiro. Mesmo que o empresário reduza os custos de produção para tentar tornar seu eletrônico mais competitivo com o chinês, ele não irá conseguir. Sua única opção será demitir funcionários. Fazendo isso, ele cria um "efeito dominó": com mais gente desempregada, cai o consumo e outras empresas também vendem menos.

Para evitar um estrago maior, alguns governos promoveram intervenções cambiais (isto é, na moeda) e fiscais (em tributos). O objetivo é frear a queda do dólar e do yuan. Países emergentes, com economias estáveis e, por isso, atrativas para investidores, ficam mais vulneráveis à "guerra cambial".

O governo brasileiro, entre outras medidas, elevou de 2% para 4% (e depois, para 6%) o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Este imposto é cobrado sobre investimentos estrangeiros em rendas fixas, como títulos do governo. Na prática, o ajuste visa a conter a enxurrada de dólares no país.

Negociações

Porém, a solução definitiva, segundo economistas, depende da manutenção do câmbio livre com algumas medidas de controle por parte dos governos. Isso vai depender de negociações entre os líderes mundiais. A China, por exemplo, teria que valorizar mais a sua moeda.

Para discutir estas propostas, o G20 reúne, em seu quinto encontro, presidentes e ministros da Fazenda do mundo todo. Representando o Brasil, estarão presentes, além de Lula, a presidente eleita, Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda Guido Mantega.

O G20 foi criado em 1999 com o objetivo de propor soluções em conjunto para a economia mundial. O primeiro encontro foi realizado em Berlim, capital da Alemanha. Juntos, os países membros representam 90% do PIB (Produto Interno Bruto) e 80% do comércio globais, assim como dois terços da população mundial.

A Coreia do Sul é o primeiro país asiático e o único que não faz parte do G8 (grupos das oito maiores economias do mundo) a sediar a cúpula. Ao final do evento, a presidência do G20 será passada para a França.

Direto ao ponto volta ao topo
O G20, grupos das vinte maiores economias do mundo, se reúne entre os dias 10 e 12 de novembro, sem Seul, capital da Coreia do Sul. O principal assunto discutido no encontro será a chamada "guerra cambial".

"Guerra cambial" é um conjunto de medidas econômicas adotada por governos para desvalorizar suas moedas. O objetivo é gerar competitividade de seus produtos no mercado internacional, estimulando as exportações.

Os dois maiores protagonistas da disputa são Estados Unidos e China - as duas maiores economias do planeta. A China mantém o câmbio fixo. Isso significa que é o governo que controla a cotação da moeda local, o yuan, frente ao dólar. Na maioria dos países, vigora o câmbio livre, em que a cotação é ditada por operações do mercado financeiro.

Já os Estados Unidos, para enfrentar a crise e a concorrência chinesa, colocaram mais dinheiro em circulação. Com isso, o dólar ficou desvalorizado diante das outras moedas. É como se os supermercados fossem abarrotados de um determinado produto, fazendo com que seu preço caísse.

A queda do dólar provoca prejuízos aos demais países, principalmente os emergentes, como o Brasil, que têm uma economia estável.

A desvalorização da moeda americana afeta tanto o mercado externo, pois os produtos nacionais ficam mais caros, quanto o mercado interno, uma vez que fica mais barato importar produtos estrangeiros.

A reunião do G20 vai negociar soluções para evitar que a desvalorização do dólar continue afetando economias.


Saiba mais

  • Mosaico da Economia (Saraiva): livro traz artigos da economista Eliana Cardoso sobre a economia brasileira e o mercado de câmbio, para o leitor não-especialista.
  • Desastre Global (Publifolha): Fernando Canzian, jornalista da Folha de S. Paulo, explica as causas e consequências da crise financeira de 2008, traçando um panorama da economia globalizada.
  • Wall Street - o dinheiro nunca dorme (2010): continuação de filme de "Wall Street: poder e cobiça", de 1987, ambos dirigidos por Oliver Stone, que retrata os bastidores do mercado financeiro nos Estados Unidos.
*Renato Salatiel é filósofo e jornalista.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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