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16/05/2008 - 08h25

Notícia ou espetáculo

Fronteiras do jornalismo

Manuela Martinez*
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
Folha Imagem

Ana Carolina de Oliveira, a mãe da menina Isabella, assassinada em São Paulo

Desde o começo do século 21, poucos episódios ganharam tanto espaço e repercussão na imprensa brasileira, quanto o brutal assassinato da menina Isabella Nardoni, asfixiada e jogada do sexto andar de um edifício de São Paulo, em 29 de março de 2008.

Durante esse período, muitos acontecimentos que interferiram diretamente na vida dos brasileiros foram registrados no país: a CPMF deixou de existir, ministros pediram demissão e foram substituídos, prefeitos, governadores, vereadores foram eleitos, o presidente da República foi reeleito, pelos menos duas grandes tragédias aéreas foram registradas (os desastres com aviões da TAM e da Gol). Nada disso, porém, superou a comoção nacional e a cobertura da mídia como o assassinato de Isabella.

Uma análise da cobertura jornalística do caso impõe algumas perguntas. Por que essa imensa repercussão? Num país que registrou 46.660 assassinatos em 2006 - numa média diária de 127 mortes violentas, de acordo com levantamento da Ritla (Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana) - por que algumas crimes merecem mais destaque do que outros? Qual a diferença entre o caso de Isabella Nardoni e os demais assassinatos que ganharam pouco ou nenhum destaque na mídia?

Crime e fama

Para muitos sociólogos e especialistas em comunicação de massa, a preferência dos meios de comunicação por alguns crimes tem relação direta com a posição socioeconômica das vítimas e dos supostos assassinos. Para outros, o fator decisivo é a fama que a vítima ou os autores do crime desfrutam no momento em que acontece a tragédia.

Nos últimos 20 anos, o caso mais marcante de um crime envolvendo pessoas famosas aconteceu em dezembro de 1992. A atriz Daniela Perez, então com 22 anos, foi assassinada com 18 facadas no Rio de Janeiro. Na época, a atriz, filha da escritora Glória Perez, interpretava "Yasmim", uma bailarina sensual na novela "De Corpo e Alma".

O fato em si - o assassinato de uma atriz bonita, vista por milhões de brasileiros todos os dias - dava nova dimensão à tragédia. No entanto, a morte de Daniela tinha mais um componente que o tornava especial: um dos assassinos foi o também ator Guilherme de Pádua, que contracenava com a vítima na mesma novela. A mulher do ator à época, Paula Thomaz, também participou do crime, segundo a polícia.

Mais recentemente, outro caso ganhou amplo destaque nos meios de comunicação. Em outubro de 2002, o Brasil parou para acompanhar as investigações da Polícia de São Paulo sobre as mortes do casal Manfred e Marísia von Richthofen. Para surpresa de muitos, a filha do casal, Suzane, estudante universitária, poliglota e rica, estava envolvida no homicídio dos pais, juntamente com o namorado e o irmão deste último.

Espetacularização da notícia

Os estudiosos de comunicação classificam essa exposição excessiva de alguns casos na mídia como espetacularização da notícia. Na realidade, a isso nada mais é do que a atribuição de um caráter teatral ao fato, com o acréscimo das técnicas do suspense, o que acentua a curiosidade popular, aumenta a venda de jornais e revistas e a audiência das emissoras de televisão e rádio.

Além de ricos e famosos, a mídia também costuma dar o mesmo tratamento às tragédias envolvendo casos de repercussão internacional. No Brasil, os assassinatos do seringalista Francisco Alves Mendes, o Chico Mendes, em 1989, e da missionária norte-americana Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, são exemplos da espetacularização da notícia de crimes que ganharam uma grande repercussão mundial.

Além de toda indignação popular que esses casos provocam, um outro fator também deve ser considerado: o interesse mercadológico da mídia. Em um mundo globalizado e competitivo, qualquer ponto a mais de audiência ou aumento na tiragem de jornais e revistas significa mais publicidade, mais visibilidade, mais dinheiro e mais lucro.
* Manuela Martinez é jornalista e publicitária.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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