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03/06/2009 - 15h25

Massacre de Tiananmen

Vinte anos depois, a revolução que a China quer apagar da história

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia e Comunicação
Reprodução - Wikipédia

Estudantes de Breslau, na Polônia, solidarizaram-se aos chineses, criando um Memorial do Protesto

Há 20 anos, o exército da República Popular da China tomou a praça da Paz Celestial (Tiananmen) e sufocou o maior protesto pró-democracia do século 20 ocorrido no país, que tinha à frente estudantes universitários.

Naquele dia 4 de junho de 1989 correu o mundo a imagem de um homem que, sozinho, tentava impedir o avanço de uma fileira de tanques de guerra. A identidade do homem nunca foi confirmada, nem seu paradeiro descoberto.

Os manifestantes promoviam manifestações na praça, localizada na região central de Pequim, há quase três meses. Eles foram mortos pelos soldados em ruas adjacentes, sem chances de defesa.

Dados oficiais apontam 241 mortos, mas fontes independentes calculam em até 7 mil as vítimas do massacre. Após a repressão, os principais líderes estudantis foram exilados.

Desde então, o regime comunista não somente se absteve de investigar o caso, como se empenhou em apagar o evento da memória das novas gerações, por meio de censura ao assunto em salas de aula e nos meios de comunicação.

Boa parte dos jovens chineses sequer conhece a história de Tiananmen. No aniversário de duas décadas, Pequim proibiu qualquer tipo de comemoração e bloqueou as redes sociais de relacionamento, como blogs, comunicadores instantâneos, emails, YouTube e Twitter, na tentativa de impedir que o assunto seja discutido. Ativistas políticos e familiares de vítimas também são monitorados de perto pelas autoridades chinesas, bem como estrangeiros e jornalistas.

Revolução Cultural e reforma econômica

A China é uma das civilizações mais antigas do planeta, com mais de 5 mil anos de história. Possui também o maior número de habitantes, 1,3 bilhão, o que corresponde a 20% de toda a população da Terra.

Quando os europeus começaram a expansão colonial e mercantil no século 15, a China já dominava a tecnologia mais avançada do planeta, em agricultura e navegação. Foram os chineses que inventaram a bússola, a pólvora, o papel e a imprensa.

Mas a nação asiática pagou um preço alto pelo seu isolamento e pela burocracia estatal, que estagnaram o progresso por séculos.

Já no século 20, o país sofreu com invasões estrangeiras, guerras e uma das mais desastrosas experiências políticas da história, ao se converter ao socialismo em 1949 sob o comando de Mao Tsé-Tung. Na tentativa de reconstruir a sociedade, o programa comunista e a Revolução Cultural resultaram em milhões de chineses mortos de fome ou dizimados pelo Estado, além de uma economia arrasada.

Em 1978, Deng Xiaoping iniciou um processo de reformas econômicas amparada por uma mão de obra barata, modernização de setores agrícolas e industriais e abertura ao capital estrangeiro. Mas, diferente da antiga União Soviética, manteve o controle político com a "mão de ferro" do Partido Comunista.

Juventude insurgente

Foi no clima de abertura política, com a queda do Muro de Berlim, o fim da União Soviética e a ruína dos regimes comunistas no Leste Europeu, que os estudantes chineses ocuparam a praça da Paz Celestial em abril de 1989.

Eles iniciaram o movimento após a morte do líder partidário Hu Yaobang, que apoiava reformas políticas no país. O protesto pacífico pedia a democratização, o fim da corrupção no governo e melhores condições de vida para os estudantes. As passeatas chegaram a reunir mais de 300 mil pessoas.

Durante a visita do ex-presidente russo Mikhail Gorbachev para a cúpula sino-soviética, em maio daquele ano, a imprensa internacional testemunhou um desfile de estudantes e ativistas em greve de fome que desafiavam o sistema comunista. Estava claro, a esta altura, a incapacidade do governo de controlar a situação e sua humilhação perante o mundo.

Nos bastidores, o Partido Comunista Chinês travava uma luta interna a respeito de como responder aos manifestantes. O secretário-geral do Partido Comunista, Zhao Ziyang, o segundo no comando do país, adotou um tom mais conciliador e pacifista, o que lhe custou o cargo.

Ziyang chegou a reunir-se com os líderes do movimento em 19 de maio, pedindo que desocupassem a praça. No dia seguinte, Pequim decretou lei marcial.

Com medo de enfraquecer sua liderança diante o movimento pró-democracia, Deng Xiaoping ordenou então a invasão do exército e a desocupação do praça. Nos dias seguintes ao massacre, outros estudantes foram presos ou executados.

O paradoxo chinês

O que mudou na China desde o massacre da praça da Paz Celestial? Na esfera econômica, o país promoveu, nos últimos anos, um crescimento jamais visto em todo mundo, atraindo investimentos estrangeiros e exportando produtos de baixo custo e quase sem concorrência no mercado internacional.

Com um PIB (Produto Interno Bruto) de US$ 3,5 trilhões, a China é a terceira maior economia do planeta, atrás somente dos Estados Unidos e do Japão e ultrapassando o Reino Unido e a Alemanha.

Aproximadamente 400 milhões de pessoas deixaram a pobreza nas últimas décadas, boa parte saída dos campos para reforçar um contingente de trabalhadores nas indústrias. Eles trabalham seis a sete dias por semana e 12 horas por dia, fabricando desde produtos piratas até componentes eletrônicos sofisticados.

Para se ter uma ideia dos avanços, na época da Revolução Cultural, em que intelectuais foram obrigados a trabalhar em campos de arroz, a taxa de analfabetismo atingia quase 60% da população. Atualmente, a China apresenta uma educação de primeiro mundo, com pesquisa de ponta e redução do analfabetismo para 4%.

O país também mantém uma estreita relação com os Estados Unidos, país símbolo da democracia moderna. A China é a maior financiadora dos gastos americanos, sobretudo os gastos militares com guerras como a do Iraque, ao mesmo tempo em que tem nos Estados Unidos seu maior mercado consumidor externo. A economia mundial está nas mãos destes dois gigantes.

Por outro lado, o governo de Pequim é autoritário, burocrático e centralizado no Partido Comunista, e endureceu a vigilância e censura após a tragédia de 4 de junho de 1989. O Estado se caracteriza, ainda, pela corrupção, desrespeito aos direitos autorais e restrições às liberdades civis.

Como o país consegue manter uma economia capitalista, baseada na livre iniciativa, sob um regime político ditatorial?

As lições de 1989 fizeram o governo compensar a falta de liberdade com uma pujança financeira e prosperidade, o que parece ter sido a chave para impedir o descontentamento de estudantes e intelectuais no país. Todos estão bem, contanto que não toquem em tabus como Tiananmen e falem em democracia.

Saiba mais

  • "O Rio e seu Segredo - a pianista que desafiou Mao" (Objetiva), de Zhu Xiao-Mei: livro de memórias de uma pianista que, no auge da Revolução Cultural, foi impedida de tocar músicas ocidentais e forçada a trabalhar na lavoura.
  • "Balzac e a Costureirinha Chinesa" (2002): filme conta a história de dois adolescentes presos e levados a um campo de "reeducação", onde descobrem livros proibidos pelo governo de Mao Tse-tung.

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    * José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.
    Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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