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17/09/2010 - 08h12

Ocidente e Islã

Choque entre duas culturas define mundo contemporâneo

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Na véspera dos 9 anos dos atentados do 11 de Setembro , a ameaça de um pastor americano de queimar o Alcorão mobilizou lideranças mundiais para evitar uma crise entre o Ocidente e o Islã. Na Europa, o Senado francês aprovou uma lei polêmica que proíbe o uso de véu por muçulmanas, seguindo uma tendência conservadora entre governos europeus.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Cada vez mais, o antagonismo entre as modernas nações capitalistas e países islâmicos se torna fonte de conflitos políticos e religiosos no mundo pós-Guerra Fria .

Terry Jones era um desconhecido pastor de uma igreja na cidade de Gainesville, de 114 mil habitantes, no Estado da Flórida. Ele chamou a atenção da imprensa internacional ao anunciar que queimaria exemplares do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, no aniversário dos ataques de 2001. A intenção do religioso era protestar contra o projeto de construção de um centro islâmico próximo ao Marco Zero, local onde era situado o World Trade Center.

Temendo reações de extremistas islâmicos, autoridades como o Papa Bento 16, o presidente Barack Obama e o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon , além de chefes de Estado da Europa, pediram que o religioso desistisse do ato. Ao mesmo tempo, três pessoas morreram em manifestações contrárias ao pastor no Afeganistão. A pressão, porém, surtiu efeito, e Jones desistiu de queimar o livro sagrado.

Episódios como esse têm se tornado mais comuns nos últimos anos. Em 1989, o escritor anglo-indiano Salman Rushdie ficou famoso depois do Irã decretar uma fatwa (sentença de morte) contra ele. Rushdie foi acusado de blasfêmia em seu romance Os Versos Satânicos. Desde então, passou a viver escondido e sob proteção policial, mesmo após o Irã suspender a condenação em 1998, atendendo aos apelos da comunidade internacional.

Em 30 de setembro de 2005, o jornal Jyllands-Posten, de maior tiragem na Dinamarca, publicou 12 caricaturas intituladas "As faces de Maomé". As charges provocaram manifestações violentas, incêndios em embaixadas dinamarquesas e uma crise diplomática com países árabes. O redator-chefe do jornal, que foi ameaçado de morte, pediu desculpas publicamente, enquanto outros jornais europeus publicaram as caricaturas em defesa da liberdade de expressão e de imprensa.

Mais recentemente, países europeus votaram leis restritivas aos costumes islâmicos em ações consideradas hostis pelos 15 milhões de muçulmanos que vivem no continente. Em 29 de novembro de 2009, a Suíça aprovou, mediante referendo, a construção de minaretes - torres de mesquita de onde se chamam os muçulmanos para as orações diárias.

No último 14 de setembro, o Senado francês aprovou uma lei que proíbe o uso de véus islâmicos integrais - a "burka" e o "niqab" - em espaços públicos do país. Os parlamentares alegam questões de segurança, além de respeito aos direitos das mulheres.

Mas a lei, que deve entrar em vigor no próximo ano, causou controvérsia no país que abriga a maior comunidade muçulmana da Europa. O islamismo é a segunda maior religião da França, atrás somente do catolicismo.

A norma prevê multa de 150 euros para quem desacatar a proibição do uso da vestimenta. Estimativas apontam que cerca de 2 mil mulheres usam o véu no país. Propostas semelhantes foram aprovadas na Bélgica e na Dinamarca (proibição parcial), e entraram em discussão na Itália, Espanha, Reino Unido, Holanda e Áustria.

Raízes comuns

Islã ou civilização islâmica se refere aos povos que seguem a religião do islamismo, cujos fiéis são chamados muçulmanos ou islamitas. O islamismo foi fundado pelo profeta Maomé no século 7, na Arábia. Ele possui raízes comuns com outras duas religiões monoteístas, o cristianismo e o judaísmo.

Apesar de essa religião ter surgido entre os árabes, eles representam apenas 15% dos muçulmanos no mundo. O islamismo é predominante em mais de 50 países do Oriente Médio , Ásia, África e Europa, estando espalhado em comunidades em todo o mundo, inclusive no Brasil.

O Alcorão (ou Corão) é o livro sagrado dos muçulmanos. Eles consideram que a obra foi ditada a Maomé pelo arcanjo Gabriel.

Uma das principais diferenças dos países islâmicos em relação ao Ocidente é justamente não separar religião de Estado. O Alcorão serve de base para organização social, política e jurídica ("sharia"). Por esta razão, enquanto a maioria dos povos ocidentais adotou a democracia , os povos islâmicos vivem, em sua maior parte, em teocracias. A Turquia é um dos raros países de maioria muçulmana que também é secular e democrático.

Outro ponto de discórdia diz respeito a liberdades civis e direitos humanos, considerados uma conquista no mundo moderno. Uma interpretação mais rigorosa do Alcorão acaba confrontando alguns destes valores ocidentais.

Por conta desse estranhamento, para o Islã a cultura ocidental é materialista, decadente e imoral. Os ocidentais, por sua vez, costumam associar os muçulmanos a grupos terroristas, como a Al-Qaeda , o Hamas e o Hezbollah , e à violência contra mulheres e minorias. Ambas as visões, é claro, são equivocadas na maioria das vezes.

Cruzadas

As diferenças religiosas, culturais e políticas entre os povos islâmicos e os ocidentais se acentuaram a partir da segunda metade do século 20. Dessa forma, os principais conflitos do mundo contemporâneo, como as guerras do Iraque e do Afeganistão, possuem causas na animosidade entre as duas civilizações. A origem da discórdia, porém, é bem mais antiga.

Entre os séculos 7 e 8, os árabes dominaram o Oriente Médio, o Norte da África, a Pérsia e a Índia Setentrional. A reação da Cristandade começou no século 11, com a conquista do Mediterrâneo e o início das Cruzadas (1095). Por um século e meio, os cristãos resistiram em potentados na Terra Santa, até a invasão dos turcos otomanos, que retomaram o controle da região dos Bálcãs e do Oriente Médio.

Até então, e durante a maior parte da história da humanidade, o contato entre povos foi escasso e pouco duradouro. O motivo eram as dificuldades para se transpor as barreiras geográficas. Isso começou a mudar a partir dos séculos 15 e 16, com a expansão colonial.

As principais nações imperialistas, como Inglaterra, França, Espanha, Alemanha e Estados Unidos, travaram guerras e promoveram campanhas expansionistas até o século 20. O imperialismo europeu levou seus valores ocidentais - oriundos de dois importantes movimentos, a Reforma Protestante e o Iluminismo - ao mundo árabe. Décadas depois, os Estados Unidos fariam o mesmo em guerras no Golfo Pérsico .

Acontece que tais iniciativas, promovidas mediante o poderio bélico, só alimentaram movimentos nacionalistas e de independência nos países árabes, que passaram a ver o ocidental como inimigo. Um bom exemplo disso é a Guerra do Iraque, que constituiu uma tentativa, até agora fracassada, de implantar a democracia à força. Como resultado dessas intervenções, os americanos se tornaram o principal alvo de grupos extremistas como a Al- Qaeda, suspeita dos atentados de 11 de Setembro.

Fundamentalismo

Mas como o Islã ganhou importância no panorama geopolítico do mundo moderno? Até poucas décadas atrás, durante a Guerra Fria, o mundo era dividido em três blocos econômicos e ideológicos distintos: havia o Primeiro Mundo, representado pelos Estados Unidos; o bloco socialista, liderado pela antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e o chamado Terceiro Mundo, formado por países pobres e não alinhados (entre eles o Brasil).

Neste contexto, o islamismo surgiu em sua versão fundamentalista como movimento religioso e intelectual, nos anos 1970, e se espalhou rapidamente pelo Oriente Médio, África, Ásia e Europa. Para isso, contou com o financiamento de potências árabes, ricas em petróleo, e ocidentais, que os viram como alternativa a movimentos nacionalistas e comunistas.

Com o colapso dos regimes comunistas no final dos anos 1980, os choques culturais com o Islã substituíram a antiga disputa entre as superpotências.

Isso ocorreu primeiro devido à crescente importância das nações árabes, decorrente da alta do preço do petróleo, até os anos 1980, e depois em razão do crescimento populacional. O aumento da população de jovens também alimentou o fundamentalismo. Depois de doutrinados, os jovens se espalharam pelo Ocidente e, com a maior proximidade entre os povos, foram acentuadas as diferenças religiosas e de valores culturais.

Em segundo lugar, enquanto na maior parte da Europa a queda de ditaduras socialistas deu lugar a regimes democráticos, em países islâmicos, ausentes de tradição democrática, o fundamentalismo foi adotado. Um exemplo foi a Revolução Iraniana de 1979, que precedeu o fim do comunismo. Com a esquerda combalida, a afirmação de identidades regionais em torno do islamismo emergiu como principal resposta ao processo de globalização .

Os ataques do 11 de Setembro nos Estados Unidos foram o ponto alto desse embate cultural. Desde então, a tensão entre os povos islâmicos e ocidentais tem ditado manobras diplomáticas e políticas, com um forte - e perigoso - apelo a radicais de ambos os lados.

Direto ao ponto volta ao topo
Dois fatos recentes são emblemáticos a respeito do antagonismo entre as modernas nações capitalistas e países islâmicos, fonte de conflitos políticos e religiosos no mundo pós-Guerra Fria.

Na véspera dos 9 anos dos atentados do 11 de Setembro, a ameaça de um pastor americano de queimar o Alcorão mobilizou lideranças mundiais para evitar uma crise entre o Ocidente e o Islã. Na Europa, o Senado francês aprovou uma lei polêmica que proíbe o uso de véus integrais por muçulmanas, seguindo uma tendência conservadora entre os governos europeus.

As diferenças religiosas, culturais e políticas entre os povos islâmicos e os ocidentais se acentuaram a partir da segunda metade do século 20.

Isso ocorre primeiro devido à crescente importância das nações árabes, decorrente da alta do preço do petróleo, até os anos 1980, e depois em razão do crescimento populacional. O aumento da população de jovens também alimentou grupos islâmicos fundamentalistas. Esses jovens depois se espalharam pelo Ocidente. E, com a maior proximidade entre os povos, foram acentuadas as diferenças religiosas e de valores culturais.

Em segundo lugar, enquanto na maior parte da Europa a queda de ditaduras socialistas deu lugar a regimes democráticos, em países islâmicos sem essa tradição o fundamentalismo foi adotado como resposta ao processo de globalização. Após os ataques do 11 de Setembro, a tensão aumentou entre o Islã e o Ocidente.


Saiba mais

  • Ocidente x Islã: uma história do conflito entre dois mundos( (L&PM): livro de Voltaire Schilling que investiga as origens históricas das hostilidades entre o Ocidente e os povos islâmicos.
  • O Choque de Civilizações (Ponto de Leitura): influente estudo de Samuel Huntington que argumenta que a maior rivalidade do panorama internacional que emerge após a Guerra Fria se dá em torno de diferenças culturais.
  • O Islã (Publifolha): livro de Paulo Daniel Farah que explica as origens do islamismo e tem um capítulo dedicado à comunidade islâmica no Brasil.
  • Os Assassinos: os primórdios do terrorismo no Islã (Jorge Zahar): obra de Bernard T. Lewis sobre os Assassinos, uma seita de radicais islâmicos surgida no Irã, século 10, conhecidos como os primeiros terroristas da história.
  • Lawrence da Arábia (1962): clássico do cinema baseado na biografia de T.E. Lawrence (1888-1935), oficial inglês enviado à península arábica durante a Primeira Guerra Mundial.
  • Cruzada (2005): filme ambientado no tempo das Cruzadas, no século 12, quando cristãos e muçulmanos lutavam pelo controle da Terra Santa.
  • Shahada (2010): história de três jovens muçulmanos que vivem entre a tradição islâmica e os hábitos modernos na Alemanha .
*Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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