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22/10/2010 - 06h01

Mineiros do Chile

O resgate que emocionou o mundo

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
No dia 5 de agosto, um desmoronamento deixou 33 operários presos na mina de San José, situada no deserto do Atacama, no Chile . Eles ficaram incomunicáveis, a 700 metros de profundidade, durante 17 dias, até serem descobertos pelas equipes de sondagem.

Direto ao ponto: Ficha-resumo

Começou, então, a ser planejada uma operação de resgate, inédita em tais condições, prevista para durar até quatro meses. Entre os dias 12 e 13 de outubro, 70 dias após o acidente, todos os mineiros foram resgatados com vida.

Da galeria onde estavam confinados, os operários enviavam vídeos em que demonstravam otimismo e organização. Eles cantavam o hino nacional chileno e mandavam mensagens para os familiares, que aguardavam acampados no terreno da mineradora. O resgate foi transmitido ao vivo pela internet e por canais de televisões de todo o mundo.

O presidente do Chile, Sebastián Piñera , em meio a uma crise de popularidade, assumiu o compromisso de salvar todos os trabalhadores presos. Ele acompanhou os trabalhos no local e recebeu os mineiros que, um a um, eram retirados de dentro de uma cápsula metálica usada para fazer o salvamento.

A eficácia do governo e a lição de solidariedade dos chilenos contribuíram para compor uma imagem positiva do país. Até então, o Chile era lembrado, principalmente, pela ditadura de Augusto Pinochet , uma das mais violentas na América Latina.

O acidente na mina de San José também chamou atenção para os riscos da falta de segurança nas mineradoras. O minério é uma das principais riquezas do Chile. A mineração corresponde a 7% do Produto Interno Bruto (PIB) e um terço de todo o cobre do mundo é proveniente do país. A tecnologia empregada no salvamento servirá agora de modelo para futuros resgates.

Sobrevivência

O período de 17 dias de isolamento foi o mais difícil para os 33 operários presos na mina. Para sobreviver, eles consumiam apenas duas colheres de atum em lata e meio copo de leite por dia. A água era retirada de máquinas de refrigeração e eles dormiam espalhados em túneis.

No refúgio de 52 metros quadrados, a temperatura era de 35 graus e a umidade do ar atingia 85%. Havia pouca ventilação, poeira e ausência de luz solar. Neste ambiente insalubre, eram grandes os riscos dos mineiros contraírem infecções e doenças respiratórias.

Além disso, não se sabia o que poderia acontecer com um ser humano submetido a um período prolongado de confinamento em grupo. Eles poderiam sofrer estresse e depressão. Os efeitos só haviam antes sido estudados em astronautas em missões espaciais. Por isso, o governo chileno contou com apoio de especialistas da Nasa, a agência espacial americana.

Depois que foram descobertos no abrigo, os trabalhadores receberam alimentos, água e medicamentos por três sondas de oito centímetros de diâmetro. Eles também podiam se comunicar com familiares e serem avaliados por equipes de médicos e psicólogos.

Resgate

Pela quantidade de pessoas, tempo de clausura e profundidade (comparável à altura de duas torres Eiffel ), o resgate no Chile foi inédito no mundo. A solução escolhida para salvar os funcionários foi construir cápsulas de metal, que seriam inseridas na mina através de dutos.

Modelos de cápsulas foram usados em pelo menos duas outras ocasiões, na Alemanha : no salvamento de três mineiros em 1955, presos a 855 metros de profundidade, e em 1963, quando outros 11 foram resgatados a 58 metros abaixo do solo.

As cápsulas chilenas, porém, eram mais sofisticadas. Elas tinham rádio-comunicador, cinto biométrico (que monitora as funções vitais) e tubos de oxigênio . Foram construídas três cápsulas de 58 centímetros de diâmetro, batizadas de Fênix: uma usada para teste, uma reserva e a que fez a retirada dos homens.

O primeiro mineiro a ser retirado, Florencio Ávalos, saiu por volta das 0h10 do dia 13 de outubro. Em 21 horas e 44 minutos, todos os demais foram salvos. Mesmo os que saíram à noite tiveram que usar óculos escuros para não causar danos às vistas, privadas de luz por tanto tempo.

A operação foi acompanhada pela TV e pela internet por cerca de um bilhão de pessoas no planeta. Mil e quinhentos jornalistas de 33 países cobriram o evento. A movimentação aqueceu o mercado na cidade mais próxima, Copiapó, e a fama está "engordando" as contas bancárias dos familiares dos mineiros.

Heróis

Os 33 mineiros se tornaram conhecidos mundialmente e foram considerados heróis no Chile. Eles receberam prêmios, viagens, ofertas de trabalho e venderam direitos de entrevistas exclusivas e a publicação de suas histórias em livro. Para isso, fizeram um pacto de não revelar detalhes do confinamento. Dificilmente irão voltar a exercer a antiga profissão.

A mina San José foi fechada pelo governo e os bens da mineradora foram bloqueados na Justiça. Cerca de 300 funcionários trabalhavam no local. As famílias pedem indenizações de US$ 12 milhões e o governo quer que a mineradora arque com parte das despesas da operação de resgate, de custo estimado em US$ 20 milhões.

Em 2007, um trabalhador morreu no mesmo local e a mina ficou interditada por um ano. Depois do último acidente, o governo prometeu aumentar a fiscalização no setor e revisar padrões de segurança na indústria mineradora do país.

Após o resgate no Chile, ocorreram outros três acidentes em minas na China, Equador e Colômbia. No caso mais grave, 37 mineiros morreram numa mina de carvão em Yuzhou, na província de Henan, no centro da China .. A mineração no país é considerada a mais arriscada do mundo, com o registro de 2,6 mil mortes desde 2009.

No Equador, outro desmoronamento matou quatro mineiros a 150 metros de profundidade em Portovelo, na província de El Oro, próximo à fronteira com o Peru. Na Colômbia, dois operários foram soterrados a 60 metros na mina de carvão La Esperanza, no departamento de Boyacá.

Direto ao ponto volta ao topo
No dia 5 de agosto, um desmoronamento deixou 33 operários presos na mina de San José, no deserto do Atacama, no Chile. Eles ficaram incomunicáveis, a 700 metros de profundidade, durante 17 dias, até serem descobertos pelas equipes de sondagem.

Começou, então, a ser planejada uma operação de resgate, inédita em tais condições, prevista para durar até quatro meses. Entre os dias 12 e 13 de outubro, 70 dias após o acidente, todos os mineiros foram resgatados com vida. Eles foram considerados heróis no país e ficaram mundialmente famosos.

O resgate foi transmitido ao vivo pela internet e por canais de televisões de todo o mundo, contribuindo para aumentar a popularidade do governo do presidente Sebastián Piñera e gerar lucro para os mineiros, que venderam direitos de entrevistas exclusivas e receberam prêmios e ofertas de trabalho.

O acidente na mina de San José também chamou atenção para os riscos em segurança nas mineradoras. Após o acidente, 37 mineiros morreram na China.


Saiba mais

  • A Sociedade da Neve: os dezesseis sobreviventes da tragédia dos Andes contam toda a história pela primeira vez (Companhia das Letras): livro de Pablo Vierci sobre um dos mais famosos casos de sobrevivência da história. Em outubro de 1972, um avião caiu nos Andes com 45 pessoas a bordo. Apenas 16 resistiram ao fim de 72 dias na neve. Para sobreviver, tiveram que se alimentar dos amigos mortos.
  • Impensável: como e por que as pessoas sobrevivem a desastres (Globo): reportagem da jornalista Amanda Ripley a respeito de como as pessoas reagem a situações extremas de estresse, como os desastre do Katrina e os ataques do 11 de Setembro.
  • A montanha dos sete abutres (1951): filme baseado em fatos reais conta a história de um homem preso em uma mina, cujo resgate é prejudicado pela interferência de veículos de comunicação e exploração política do fato.
  • Germinal (1993): baseado em romance homônimo do escritor francês Émile Zola, filme mostra as péssimas condições de trabalhadores franceses em minas de carvão no século 19.
*José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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