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23 de outubro - Centenário do voo do 14-Bis: Brasileiro tornou realidade um velho sonho do ser humano

Lauret Godoy* - Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Se hoje ficamos surpresos com os progressos da eletrônica, da robótica, do lançamento de foguetes e satélites, da viagem que o astronauta brasileiro, tenente-coronel Marcos César Pontes, fez até a Estação Espacial Internacional a bordo da nave russa Souyz TMA-8, há um século o mundo acompanhava, maravilhado, as experiências com as fantásticas máquinas de voar.

Em 1900, ano que marcou o final do século 19, foi realizada em Paris a Exposição Universal, considerada na época o maior acontecimento internacional de todos os tempos. As notícias giravam em torno das construções da torre Eiffel, do metrô de Paris e do êxito das experiências com dirigíveis executadas por Alberto Santos-Dumont.

Paris tornara-se o verdadeiro ninho da aeronáutica, transformando-se na grande vedete mundial do início do século 20. Nesse período, o homem mais popular da cidade era o brasileiro Alberto Santos-Dumont. E ele merecia essa honra.

Brasil, um balão

Em julho de 1898 voou no pequeno balão Brasil, de seda japonesa envernizada. O aparelho por ele idealizado, diferente de todos os conhecidos até então, e que mais parecia uma transparente bolha de sabão, percorreu os céus de Paris por várias horas. Em 20 de setembro de 1898, com o balão Santos-Dumont n.º 1, pela primeira vez os parisienses viram um motor trepidando e roncando nos ares.

De número em número, alternando-se sucessos e fracassos, a cada ascensão, Alberto Santos-Dumont colocava nos aparelhos uma flâmula verde e amarela, a indicar que ali estava um brasileiro.

Em 19 de outubro de 1901, mais uma consagração - pilotando o Santos-Dumont n.º 6-, ele provou a dirigibilidade dos balões, ao sair de Saint-Cloud, contornar a torre Eiffel e retornar ao ponto de partida. Trabalhando em silêncio idealizou, inovou, aperfeiçoou máquinas, fez testes e chegou ao avião. Para as primeiras experiências, pendurou o aparelho no balão n.º 14, por isso batizou o primeiro avião como 14-Bis.

O 14-Bis no Campo de Bagatelle

É fácil imaginar-se o alvoroço que tomou conta da capital francesa em 23 de outubro de 1906, data em que o 14-Bis seria testado por Santos-Dumont, no Campo de Bagatelle. Os fotógrafos e jornalistas das várias capitais europeias, estavam ansiosos por presenciar esse importante momento da história da humanidade. O 14-Bis, branco e lindo como as garças brasileiras, ia sendo levado por terra, para a fantástica experiência.

O povo acompanhava a pé, de bicicleta, em alegre procissão, até o momento mágico de o inventor brasileiro acionar o motor, para vencer a lei da gravidade, executar o voo da liberdade e obter a confirmação do êxito. Naquela memorável tarde, Alberto Santos-Dumont mostrou ao público, que acabara de inventar o avião, pois navegara pelo ar - saindo do solo e a ele retornando - com recursos do próprio aparelho. Ele foi o primeiro grande herói brasileiro de projeção internacional.

Mas Santos-Dumont não se limitou a inventar engenhos aeronáuticos. Entre vários aparelhos, idealizou um arpão salva-vidas, que lançava boias de borracha, para salvar vítimas em casos de afogamento. Criou um pequeno motor, para ser colocado nas costas do alpinista, como mochila, para facilitar a escalada de montanhas de neve.

Relógio esportivo

Encomendou à Maison Cartier, famosa relojoaria de Paris, um esportivo relógio de pulso que, ao ser usado pelo inventor, foi visto, imitado e, com o tempo, substituiu o chamado relógio de algibeira, que ficava guardado no bolso. Por essa divulgação, surgiu uma versão de ter sido ele o inventor do relógio de pulso.

Santos-Dumont teve a ideia de usar cordas de piano para fazer ligações das diversas partes do balão: invólucro, cesta, leme, motor etc. Executou o projeto de um helicóptero, com duas hélices e idealizou um aparelho que possuía flutuadores. Este invento, que recebeu o n.º 18, foi concebido para pousar nas águas e pode ser considerado precursor dos hidroaviões.

Um voo de ultraleve

Em 9 de março de 1909, Santos-Dumont voou pela primeira vez em um monoplano que, por ser pequenino e transparente, recebeu dos parisienses o nome de Libélula ou Demoiselle. Enquanto Santos-Dumont encantava os franceses, voando com sua leve e elegante Libélula, não podia imaginar que inventara o primeiro ultraleve motorizado de que se tem notícia.

Muito utilizado por outros aeronautas, o Demoiselle foi aperfeiçoado sucessivamente e acabou sendo produzido em série. Sem patentear as invenções e, seguindo velha norma de conduta, o brasileiro entregava seus engenhos ao domínio público, para os outros inventores deles se aproveitarem.

Foi Alberto Santos-Dumont, quem mais inovou e aperfeiçoou os aparelhos voadores, nos primeiros anos do século 20. Algumas das suas invenções tornaram-se peças indispensáveis na moderna aeronáutica.

Um homem de boa vontade

Neste ano de 2006, manifestações cívicas e fraternas espalham-se pelo Brasil e pela França, para comemorar o Centenário do primeiro voo do 14-Bis. É um solene momento da História Universal, que nos leva a render homenagens ao marechal-do-ar Alberto Santos-Dumont, inventor do avião e patrono da aeronáutica brasileira.

São histórias de homens como ele, que usou os recursos próprios para beneficiar a humanidade com seus inventos, que distribuiu os prêmios financeiros que recebeu entre operários e pobres, que faz com que sintamos orgulho de ser brasileiros e que nos leva a agradecer Alberto Santos-Dumont, pelo muito de alegria que continua proporcionando a todos nós.

*Lauret Godoy é escritora e pesquisadora, autora dos livros "O jovem Santos Dumont" (em co-autoria com Guca Domenico) e "Santos-Dumont - O Menino Voador", com ilustrações de Custódio, para a Prefeitura de Petrópolis.

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