Artes

Lucio Fontana: Discussão sobre o espaço e o tempo

Valéria Peixoto de Alencar*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Em relação ao espaço, a pintura se define por possuir duas dimensões - e a escultura três. Uma pintura em perspectiva pode até nos levar a imaginar a profundidade da cena retratada, mas o desenho possui apenas duas dimensões: altura e largura.

Na década de 1960, contudo, o artista Lucio Fontana levou às últimas consequências a reflexão sobre a espacialidade da pintura, "maltratando" a tela com furos e cortes que fazem com que o espectador tenha à sua frente uma obra bidimensional.

Esse tipo de obra de arte discute a questão do espaço e do tempo, ou seja, a profundidade (a terceira dimensão no caso da escultura) e o espaço temporal (a quarta dimensão, segundo Einstein).

Mas como Lucio Fontana registra o tempo? Observe:




Reprodução
Lucio Fontana. Conceito espacial. 1965.

Na tela acima podemos ver seis incisões feitas pelo artista. Você conseguiria imaginar como ele fez os cortes? Com que material, velocidade e direção?

Se você conseguiu imaginar, até mesmo reproduzir ou tentar imitar seus movimentos, isso é sinal de que Lucio Fontana realizou o registro do tempo: não é só uma pintura em duas dimensões, mas o gesto do artista ficou na tela.




Reprodução
Registro de Lucio Fontana produzindo um Conceito Espacial.

Temporalidade espacial

As obras dessa fase de Lucio Fontana trazem questões há muito discutidas na arte. A profundidade na pintura é uma problemática surgida com a perspectiva, no Renascimento, e rebatida com o Cubismo.

Fontana nos faz pensar na terceira dimensão, mas sem o uso da perspectiva, que cria a ilusão da profundidade, e sem a proposta de retratar um objeto por todos os seus ângulos, que, contraditoriamente, elimina a noção de profundidade.

A temporalidade espacial está no gesto do artista. E também no gesto do espectador, que procura olhar pelo vão na tela, como se uma curiosidade inexplicável buscasse ver algo por trás do corte ou do buraco.

Também é possível discutirmos o momento histórico em que estas obras foram produzidas, pós Segunda Guerra: durante a Guerra Fria, as teorias de Einstein se popularizavam e a corrida espacial estava em pleno andamento.



Biografia

Lucio Fontana nasceu em Rosário, na Argentina, em 1899. Filho de imigrantes, retorna com sua família para a Itália em 1920.

O início de sua carreira esteve ligado ao academicismo, pois durante o período do Fascismo, o meio artístico italiano retornou a códigos mais clássicos, sem, entretanto, recusar completamente a arte de vanguarda. Assim, Lucio Fontana aderiu ao abstracionismo.

Em 1947 publicou o Manifesto blanco, que influenciou muitos artistas abstratos a partir da década de 1950. É nesse momento que se mudou definitivamente para Milão, onde criou o Movimento Espacialista. A partir desse ano, suas obras levam o nome de Conceito Espacial.

A partir de 1949, começou a pintar superfícies em monocromia (uma só cor) e a "maltratá-las". Começou a fazer buracos na tela, depois incisões. É a primeira vez que um artista, na História da Arte, "ataca" a superfície da tela.



Influências na arte brasileira

Podemos encontrar as influências das propostas de Lucio Fontana na arte brasileira da década de 1960, como, por exemplo, em trabalhos de Lygia Clark, Ligia Pape, Hélio Oiticica, Ivens Machado, Amílcar de Castro, entre outros.

A presença de Fontana é mais forte na fase ligada ao concretismo e ao monocromatismo, principalmente no que se refere à questão tempo/espaço, como nos trabalhos de Nelson Leirner intitulados Homenagem a Fontana, de 1967.

Nessa fase da obra de Leirner, ele não só retoma a problemática proposta por Lucio Fontana, mas vai além, trazendo uma cor para a profundidade - e a possibilidade, implícita, de fechar ou abrir o corte por meio de um zíper, reforçando a idéia de passagem para outra dimensão. Observe:




Reprodução
Nelson Leirner. Homenagem à Fontana. 1967.

Leia mais

  • Sobre a quarta dimensão.
  • Sobre Lucio Fontana e sua obra.
  • Valéria Peixoto de Alencar*
    Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação *Valéria Peixoto de Alencar é historiadora formada pela USP e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp. É uma das autoras do livro Arte-educação: experiências, questões e possibilidades (Editora Expressão e Arte).

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