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Uma história de amor e fúria - Animação debate história e sociedade

Antonio Carlos Olivieri

Da Página 3 Pedagogia & Comunicação

“Uma viagem pela história do Brasil, um trabalho muito bonito que, sem ser didático nem panfletário, revela um autor que tem algo a dizer”. Assim o ator Rodrigo Santoro, que faz a voz de um dos personagens de “Uma história de amor e fúria” se refere a esse longa-metragem de animação, escrito e dirigido por Luiz Bolognesi, atualmente em cartaz em cinemas de todo o Brasil.

A obra tem tudo para despertar o interesse do público jovem, em especial o estudantil, seja pela narrativa ágil com traço e linguagem de história em quadrinhos, seja por colocar em foco momentos importantes do desenvolvimento histórico da civilização brasileira.

O enredo do filme abrange um período de seis séculos, pondo em foco particularmente quatro fases da nossa história: o Brasil indígena (quando da chegada dos colonizadores), a revolta da Balaiada, a luta armada contra o regime militar de 64, e um futuro não tão distante (2096) em que a água se torna um bem escasso e motivo de conflito.

Nesse pano de fundo, acontece o amor entre o herói, um guerreiro indígena imortal (dublado por Selton Mello) e Janaína (na voz de Camila Pitanga), personagem que reaparece na vida do herói, de tempos em tempos, sempre no papel de uma mulher lutadora e idealista. Da mesma forma se trava continuamente o combate entre o protagonista e Anhangá, o espírito do mal, que é o seu antagonista.

Animação e pesquisa

O grande deslocamento no tempo é um dos motivos de Bolognesi, roteirista  de “Chega de Saudade” e “Bicho de Sete Cabeças”, ter se decidido por um desenho animado: “Se fosse um filme, eu não poderia colocar uma cena com uma batalha entre tupis e tupinambás no século 16, nem retratar o Rio de Janeiro daqui a 60 anos, com um disco voador sobrevoando a cidade”, ele declara.

E quanto à opção pela história do Brasil? Por quê trazê-la para as telas? “Sempre gostei muito da nossa história”, responde o diretor. “Nosso cinema não se dedica a contar de uma maneira interessante, com viés de entretenimento e reflexão, aspectos na nossa história como os americanos e os franceses fazem muito bem no cinema deles. Eu queria falar da história do Brasil de uma maneira que conquistasse o jovem. A história desse país é repleta de amor e fúria...”

A pesquisa histórica e antropológica foi a primeira etapa do projeto e se estendeu por dois anos. A primeira versão do roteiro ficou pronta em 2004, mas a definitiva só em 2010. Nesse meio tempo, veio a escolha dos atores, sobre a qual o diretor declara: “É um trabalho muito diferente de um filme ao vivo; em animação, você não consegue extrair emoção e densidade de profissionais que não sejam, no mínimo, geniais. Fui ousado em convidar quem queria e o grande barato é que eles aceitaram”.

O papel de Selton Mello e Camila Pitanga no desenvolvimento da animação não se limitou propriamente à dublagem, uma vez que eles interpretaram o texto em estúdio e a gravação serviu de base aos animadores para a criação das imagens, que, segundo o diretor, “partiram das emoções oferecidas pela performance dos atores”.

Mitologia e criação

Voltando, porém, ao conteúdo do enredo, vale a pena questionar como são elaborados os elementos da cultura indígena que estão presentes na trama. Por exemplo, o protagonista é imortal. Toda a vez que é atingido, vira um pássaro. Essa é, de fato, uma lenda tupinambá? “É uma história inventada”, explica Bolognesi, “mas a partir da mitologia indígena. Pesquisei muitas lendas e criei a história do filme com base nelas. Índios que viram pássaro são uma constante na mitologia de nossos índios”.

E o que Bolognesi tem a dizer sobre o herói de seu filme? “Bom, a gente conta a história do Brasil a partir da mitologia tupinambá”, ele declara, “mas, ao mesmo tempo, humanizamos o herói com valores contemporâneos para criar uma empatia com o espectador”.

“Ele é alguém a quem foi imposto um destino glorioso sem que ele estivesse preparado”, acrescenta, “é um homem leal e apaixonado, que luta por coisas simples, como buscar a felicidade ao lado da mulher que deseja, mas sua vida sempre é atravessada por alguma coisa violenta da história do Brasil”.

A propósito de violência, é bom lembrar que a visão do futuro mostrada no filme é bastante sombria. É isso que o diretor acredita que os brasileiros têm pela frente? “O filme faz um prognóstico realista e assustador”, responde. “A questão da água já é debatida hoje, muito se fala que a crise dos próximos 50 anos será a falta de água doce. O que a gente projeta para o futuro é a realidade que vemos hoje no Brasil, um país de abismos, onde uma elite tem acesso aos grandes confortos da vida e a massa não tem acesso a quase nada”.

Antonio Carlos Olivieri é jornalista e escritor.

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