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Simbolismo: Subjetivismo, angústia e religiosidade

Lílian Campos, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

O Simbolismo constitui-se na Europa, especialmente na França e na Bélgica, nas últimas duas décadas do século 19, como um movimento literário em reação ao Naturalismo e ao Realismo. Isto porque os simbolistas irão reivindicar uma expressão que privilegie os estados da alma e das subjetividades humanas, contra uma lógica materialista e científica até então fortemente realçada pelo Positivismo.

No Brasil, o Simbolismo surge num período marcado por conflitos políticos e sociais. O país encontra-se em plena transição do regime escravocrata para o assalariado. A virada do século traz expectativas por um "novo mundo", mas ainda são muitas as frustrações e angústias de um país em que não se atingiu a consolidação dos ideais republicanos.

Apesar da Proclamação da República, em 1889, os brasileiros viam-se ainda imersos num mundo de práticas sociais excludentes, onde inexistem valores como a cidadania e os direitos que dela advêm. Assim, o Simbolismo literário brasileiro ganha matizes muito particulares, acentuados por escritores que se ocuparam em defender as causas das liberdades civis.



Subjetivismo e angústia

Neste contexto, o autor mais expressivo chama-se Cruz e Souza: são de sua autoria as obras que melhor representam o cenário político e social brasileiro desta época. Além disso, atribui-se a este escritor o início do Simbolismo no Brasil, com a publicação, em 1893, de "Missal" (prosa) e "Broquéis" (poesia).

Cruz e Souza defende uma estética simbolista apoiada no subjetivismo e na angústia, inicialmente voltada para as agruras vivenciadas pelos negros (possivelmente pela sua carga identitária, uma vez que era filho de escravos) e, posteriormente, fundamentada nos sofrimentos universais.

Outro expoente desta vertente literária é Alphonsus de Guimaraens (ele utilizava poeticamente a forma latinizada de seu nome). O amor, a morte e a religiosidade formam a tríade temática privilegiada por este autor, também possivelmente compreendida pelas suas experiências particulares, assinaladas pela morte de sua noiva Constança.

Alphonsus de Guimaraens acolhe esses temas em sua obra sob um misticismo evidente, que o faz ser reconhecido até hoje como um dos mais místicos (senão "o mais místico") dos poetas brasileiros.

Tanto Cruz e Souza como Alphonsus de Guimaraens incorporam a estética simbolista na literatura brasileira e, apesar de suas obras inscreverem-se em campos de ação bastante particulares para um e outro, ambos inserem-se no contexto de tratamento de uma escrita harmonizada com os fenômenos existenciais da natureza humana.



Convivência de estilos

É interessante observar que o Simbolismo convive paralelamente com o Realismo, ainda que a divisão tradicional aponte como o "fim do Realismo" o ano em que "Missal" e "Broquéis" são publicados. No entanto, devemos considerar que obras de Machado de Assis, tais como "Dom Casmurro" e "Esaú e Jacó", chegam ao público entre 1900-04 e são propriamente realistas em seu estilo.

Além disso, o Pré-Modernismo consagra-se como uma tendência que também estará a passos parelhos com o Simbolismo e com o Realismo, estendendo-se até as duas primeiras décadas do século 20. Ou seja, temos aí um panorama literário que permitiu a coexistência de estilos, permeados até a "Semana de Arte Moderna", em 1922, quando parece haver uma caracterização contundente do que chamaremos "Modernismo".

Lílian Campos, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é professora de língua francesa na PUC-PR e na UFPR, com atuação também no ensino de língua portuguesa.

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