Sociologia

História e evolucionismo: Historicismo é paradigma superado

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

O historicismo pode ser concebido como um paradigma - um conjunto de pressupostos teóricos e métodos científicos - que serve de orientação à realização de estudos. O historicismo impregnou as ciências sociais no início de sua formação (século 19), ao estabelecer um padrão típico de pesquisa que concebe a mudança social ou o desenvolvimento histórico como um processo que está sujeito a leis gerais e absolutas.

De acordo com o historicismo, a história segue indistintamente uma direção pré-determinada; ou seja, a mudança social segue invariavelmente etapas que estão sujeitas a regularidades.

Nesse aspecto, o historicismo se aproxima do paradigma evolucionista, que tem origem nas ciências naturais, serviu de modelo para as ciências sociais nos seus primórdios e também concebe a mudança social como resultado de "leis evolutivas".

Influentes filósofos e pensadores sociais do século 19 elaboraram vários estudos com base nos pressupostos teóricos do historicismo, entre eles: Friedrich Hegel, Augusto Comte, Karl Marx, John Stuart Mill, Herbert Spencer, Thomas Morgan, entre outros.

O pressuposto determinista

As ciências sociais surgiram a partir da formulação de indagações sobre vários aspectos da sociedade. Entre as várias questões que serviram de fundamento para a elaboração dos primeiros estudos e pesquisas sociais (sobretudo históricas e sociológicas) há uma questão importante, que se refere aos fatores que poderiam explicar as mudanças pelas quais as sociedades passam no decorrer de um determinado período de tempo.

Tais mudanças podem abranger apenas alguns aspectos da vida social (a economia, a política ou a cultura) ou serem mais amplas, chegando a englobar a totalidade da estrutura social. O historicismo sustenta que as mudanças sociais têm uma sequência e uma regularidade.

Assim, na perspectiva teórica do historicismo, as mudanças sociais obedecem a um padrão determinista. Isso significa que, a partir da análise empírica do estado atual de uma dada sociedade, é possível prever sua evolução. Ou seja, é possível apontar o sentido (ou direção) que a evolução tomará.

Diversidade de historicismos

Vários escritos do filósofo alemão Karl Marx incorporam pressupostos teóricos do historicismo. Na perspectiva marxista, "a luta de classes é o motor da história". Essa frase, envolta em uma metáfora, significa que a história é a história da luta de classes, luta que atravessa várias etapas e que conduz, necessariamente, segundo todas as previsões de Marx, a uma sociedade sem classes (comunismo). Convém ainda salientar que, na perspectiva marxista, as leis incondicionais da evolução social derivam das "relações de produção".

Na sua vertente heterodoxa, também designada de "idealista" ou "filosófica", por outro lado, alguns pensadores empregaram o historicismo como fundamento teórico para explicar estágios de mudança que permeiam um conjunto de sociedades que se encontram mais ou menos no mesmo estágio evolutivo.

O sociólogo russo Pitirim Sorokin (1889-1968), por exemplo, observou a dinâmica da mudança cultural e deduziu que há uma alternância de valores baseada em períodos ou fases de "racionalismo" e de "irracionalismo". A perspectiva idealista postula que as leis incondicionais da evolução derivam da "natureza humana".

Uma outra vertente do historicismo baseou seus pressupostos teóricos em analogias (comparações) com os fenômenos observados nas ciências naturais, em particular na biologia. Os sociólogos Talcott Parson (1902-1979) e Herbert Spencer (1820-1903) são os precursores dessa vertente teórica e elaboraram vários estudos enfocando o desenvolvimento econômico (concebido como progresso material) das sociedades modernas.

Ambos observaram que a transição de uma sociedade tradicional para uma sociedade industrial é caracterizada pelo fenômeno da "diferenciação", que pode ser entendido como um aumento do grau de complexidade das formas de produção material. Desse modo, ambos conceberam a diferenciação como uma lei evolutiva que pode ser comparada a um processo semelhante que ocorre no desenvolvimento de um organismo vivo, que passa da fase embrionária (estado simples) para a fase adulta (estado complexo).

Superação do historicismo

No transcurso do século 20, o historicismo ainda teve força para influenciar certos tipos de estudos históricos e sociológicos dedicados à compreensão da mudança social, principalmente aqueles que enfocam os processos de desenvolvimento e modernização econômica.

Não obstante, o principal pressuposto teórico do historicismo, que se refere à suposta existência de leis incondicionais, gerais e absolutas da evolução social, foi completamente superado por teorias sociais mais complexas.

Novas teorias sociais surgiram e concluíram que não existem leis evolutivas absolutas, pois as sociedades não se constituem na forma de sistemas fechados e, portanto, não estão isentas da interferência de fatores exógenos (que vêm de fora). Fatores exógenos podem interferir no processo de desenvolvimento econômico e influenciar as etapas do progresso material e da modernização de uma dada sociedade.

Sendo assim, as sociedades tradicionais podem perfeitamente se industrializar sem, necessariamente, ter de atravessar todas as etapas que uma outra sociedade experimentou no transcurso de sua história.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política - 1972-1985.

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