Sociologia

Política dos Blocos: Duas nações lutaram pela hegemonia mundial

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

A Política dos Blocos surgiu após a Segunda Guerra Mundial, como consequência da chamada Guerra Fria, que opôs a União Soviética aos Estados Unidos: duas nações militar e politicamente poderosas que representavam sistemas ideológicos divergentes e que lutavam pela hegemonia mundial.

Da Política dos Blocos originou-se, portanto, uma determinada configuração das relações políticas internacionais, baseada na associação entre Estados que se uniram com o objetivo de se opor e enfrentar um inimigo comum, representado por outro grupo de Estados.

Ao contrário das alianças políticas entre Estados, a Política dos Blocos não se apoiou em nenhuma regra ou em algum acordo tácito, previsto no direito internacional, pois sua principal característica foi justamente uma agregação contingente de Estados que compartilhavam dos mesmos interesses.

Uma outra característica distintiva da Política dos Blocos é que não havia equidade entre os Estados integrantes, devido a uma rígida estrutura hierárquica, determinada pela existência de um Estado líder que comandava o Bloco.

A formação dos Blocos

Não há consenso entre os historiadores sobre uma data ou evento preciso que seja apontado como determinante do início da Guerra Fria. Os critérios empregados variam muito.

Não obstante, o fato é que, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a União Soviética, que haviam se aliado para enfrentar a ameaça de domínio representada pelo niponazifascismo, emergiram como os Estados mais poderosos do sistema internacional.

A partir de então, esses dois Estados colocaram em prática uma política expansionista, visando a ampliação de suas respectivas zonas de influência. A União Soviética manteve um rígido controle sobre os países socialistas do Leste Europeu e fomentou processos revolucionários em todos os continentes, com objetivo de expandir o comunismo pelo mundo. Os Estados Unidos, por outro lado, reagiu com uma política de contenção do avanço soviético e ampliação de sua respectiva zona de controle e influência sobre os países capitalistas. Por razões geográficas, a Europa foi a zona central da divisão das respectivas esferas de influência e do embate entre os dois Estados.

A necessidade de defesa deu início a um movimento de agregação entre os Estados, provocando a formação dos Blocos. Os Blocos se sustentaram pela proteção militar e colaboração econômica mútuas. Os Estados Unidos colocaram em prática um plano de ajuda econômica, o Plano Marshall, com a finalidade de apoiar a reconstrução dos países da Europa ocidental.

Em 1949, os Estados Unidos promoveram a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), também chamada de Aliança Atlântica, que se encarregou da coordenação da aliança militar entre os países integrantes do Bloco ocidental.

A União Soviética, por sua vez, criou o Comecom (Conselho para Assistência Econômica Mútua), em 1949, organização que coordenou a política de colaboração e integração econômica entre os países socialistas do Leste europeu. E, em 1955, os soviéticos promoveram a criação do Pacto de Varsóvia, que representou a organização militar dos países socialistas do Leste europeu.

No transcurso da Guerra Fria, a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial foi uma ameaça real. Mas o equilíbrio de poder (balance of power) proporcionado pela existência das armas nucleares, e com elas a garantia da "destruição mútua assegurada", evitou que os Estados oponentes declarassem formalmente guerra um ao outro.

Estrutura

Os Blocos podem ser concebidos como "subsistemas", porque funcionam com base em regras distintas das prevalecentes no sistema internacional. Os Blocos se sustentam por meio de uma estrutura hierárquica entre os Estados membros, com a proeminência de um Estado líder, que é aceito por todos os outros Estados membros em razão de sua superioridade militar e econômica, além de outros aspectos.

A ordem hierárquica que sustenta os Blocos deixa transparecer, porém, uma condição de subordinação (ou dominação) devido à superioridade do Estado que ocupa a liderança. Por esse motivo, os Blocos enfrentaram tentativas declaradas, por parte de certos Estados membros, de "subversão" ou abandono dos compromissos firmados.

No caso do Bloco socialista, a revolta na Hungria, em 1956, e a liberalização política na ex-Tchecoslováquia, em 1968, foram eventos dramáticos que acabaram por gerar reações da União Soviética, cujo desfecho resultou na invasão dos dois países por parte de forças militares pertencentes ao Pacto de Varsóvia.

O Bloco Ocidental, liderado pelos Estados Unidos, também enfrentou demonstrações de rebeldia ou abandono dos compromissos por parte de alguns Estados membros. Mas, neste caso, devido ao fato de os Estados membros serem politicamente fortes e adotarem sistemas políticos democráticos, o desfecho resultou em negociações diplomáticas visando restabelecer a ordem hierárquica, muitas vezes com a concessão de prerrogativas.

O exemplo mais notório envolveu a França, que, a partir da década de 1960, por influência do gaullismo (política concebida pelo presidente Charles de Gaulle) adotou uma política externa independente; ou seja, de não-alinhamento a nenhum dos Blocos.

Neste caso em particular, a França permaneceu como Estado membro da OTAN. Mas, evidentemente, quando se tratou de Estados fracos, que não pertenciam ao Bloco Ocidental mas eram considerados aliados, os Estados Unidos enfrentaram as ameaças de subversão promovendo golpes e o estabelecimento de regimes autoritários ou ditatoriais, civis e militares.

Coexistência pacífica

Com a morte do ditador soviético Josef Stalin, em 1953, a União Soviética passou a ser liderada por Nikita Krushev. O novo líder soviético colocou em prática uma política de desestalinização, que resultou na adoção do princípio de coexistência pacífica.

A política de coexistência pacífica se assentava na rejeição, por parte da União Soviética, da doutrina marxista-leninista que concebia a guerra como única condição para estabelecer o socialismo no mundo. Até certo ponto, a política de coexistência pacífica fez com que a Guerra Fria tendesse a perder intensidade, em razão da abertura de canais diplomáticos entre os Estados líderes dos dois Blocos, diminuindo as tensões militares entre a OTAN e o Pacto de Varsóvia.

Nesse sentido, os acordos de limitações de armas estratégicas e convencionais podem ser entendidos como um reflexo da política de coexistência pacífica, num esforço para evitar o conflito mundial. Além desse aspecto, os acordos firmados no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) também são resultado dessa política.

A política de coexistência pacífica não evitou, porém, tentativas, por parte dos Estados líderes, de ampliação das respectivas zonas de influência. Desse modo, embora não declarassem formalmente guerra um ao outro, as intervenções de caráter político e militar, bem como o estímulo a golpes, rebeliões e revoluções sociais foram recursos que ambos os Estados líderes empregaram, velada e permanentemente, como forma de enfraquecer e solapar as bases de poder do Estado adversário.

Colapso da União Soviética e fim do Bloco socialista

O equilíbrio entre os Blocos foi quebrado com a desintegração da União Soviética, em 1991, e do socialismo no Leste Europeu. O Comecom e o Pacto de Varsóvia também deixaram de existir a partir de 1991. O mundo transitou de uma ordem internacional polarizada (equivocadamente chamada de ordem bipolar) para uma ordem internacional que pode ser concebida como multipolar, devido à existência de vários centros de poder.

Líderes políticos da Rússia consideraram o desaparecimento da União Soviética e do Bloco socialista como o maior desastre geopolítico-estratégico da história do século 20. Não obstante, embora tenha havido uma acentuada diminuição das divergências ideológicas, várias questões envolvendo a segurança militar ainda são motivos de enormes tensões políticas entre a Rússia e os Estados Unidos.

Renato Cancian, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro Comissão Justiça e Paz de São Paulo: gênese e atuação política - 1972-1985.

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