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Sociologia

Prática e linguagem - Sem narrativa oral, experiência de vida diminui

Celina Fernandes Gonçalves Bruniera, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Marcada pelo pensamento de Karl Marx, a obra do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) tem sido revisitada. Essa retomada evidencia contribuições importantes da filosofia do século passado à interpretação de questões sociais contemporâneas.

Destacaremos o que Benjamin chama de experiência - quando os seres humanos tomam posse de sua própria história.

Livro impresso
A base das mudanças na estrutura da experiência, para Benjamin, é o divórcio entre o sujeito e sua obra. Contribuem para isso diversos aspectos. Entre eles está desaparecimento da narrativa oral.

É um processo que vem de longe e que acompanha a evolução secular das forças produtivas. A invenção da imprensa favoreceu a difusão do romance e o declínio da tradição oral. Depois, ao colaborar na consolidação da burguesia e instituir uma nova forma de comunicação - a informação - provocou a crise do próprio romance impresso.

Trabalho artesanal
Outro aspecto determinante no processo de privar as pessoas da experiência é a falta de distensão psíquica que se vivencia em função do declínio do trabalho artesanal.

Ninguém mais tece ou fia enquanto ouve uma história. O trabalho industrial inaugurou o estado de atenção. E compõe com a rapidez e a objetividade da notícia um quadro caracterizado pela crescente disponibilidade da memória voluntária.

Marx e Benjamin
O percurso que Benjamin traça para caracterizar o divórcio entre o homem e seu trabalho incorpora elementos da obra de Marx. Mas se diferencia dela quando não vê na evolução do progresso técnico a promessa da libertação.

O que o filósofo observa é um aprisionamento marcado pela vivência do choque, pela redução da imaginação e pela temporalidade do progresso. É a existência de um tempo infernal em que nunca é permitido concluir o que foi começado.

Referências simbólicas
O propósito da imprensa, para Benjamin, é transmitir informações de forma plausível, fatos passíveis de verificação imediata e acompanhados de explicações. A linguagem informativa é marcada pelo ritmo do trabalho mecanizado, pela busca do incessantemente novo.

A notícia se torna obsoleta da noite para o dia. No fim da tarde as folhas de jornal não têm valor algum. O mesmo processo que impossibilita o trabalho artesanal na modernidade, também configura uma nova forma de comunicação e uma nova maneira de o indivíduo homem se relacionar com ela.

A informação não tem a mesma amplitude que o episódio narrado. Este pode ser interpretado e necessita da construção de referências simbólicas para que se incorpore à vida do narrador.

Vida e palavra
Para que a experiência tivesse condições de realização seria preciso existir uma comunidade de vida e de discurso que o rápido desenvolvimento da técnica na sociedade capitalista vem destruindo.

Desapareceu a comunidade entre vida e palavra, própria da atividade artesanal. Esta pratica a narrativa tradicional, quando aquele que conta transmite um saber que seus ouvintes receberão como seu.

Com o declínio de um trabalho e de um tempo partilhados num mesmo universo de prática e linguagem, as inquietações de nossa vida interior adquirem um caráter privado. A memória é invadida pelo tempo da morte da singularidade e pela quase impossibilidade de fazer parte de uma comunidade simbólica.

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