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Filosofia pós-moderna - Heidegger e Wittgenstein

A questão da linguagem no pós-moderno

José Renato Salatiel*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Quando assistimos à tevê ou vamos ao cinema ver um filme, por alguns instantes nos envolvemos de tal modo na narrativa que vivenciamos emoções reais, mesmo sabendo que tudo não passa de ficção.

Agora, por um momento, imagine que a realidade concreta, o dia-a-dia, também não passa de uma representação e que só temos acesso às coisas mediante o uso da linguagem. Existiria uma representação da realidade que seria mais correta que as demais, mais próxima da verdade?

Uma das mais importantes teorizações do pensamento pós-moderno ocorre em torno dessas questões. Neste artigo, trataremos dos dois maiores filósofos do século 20, que também conduziram, com suas idéias, boa parte das formulações dos pós-modernos ou pós-estruturalistas: Heidegger e Wittgenstein.

Heidegger: da existência à poesia

Ao pensar o Ser enquanto contingência ou projeto, que se concretiza no lançar-se no mundo, o "ser-no-mundo", o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) rompeu com toda uma tradição metafísica de pensar o homem a partir de uma essência eterna e imutável. Com isso, ele procurou reconstruir a filosofia em um pensamento antifundacionista.

Por exemplo, pensemos no homem como uma casa com seus alicerces e estruturas, pronta para morar. Antes de Heidegger, era comum em filosofia encontrar nessas fundações as bases com as quais compreendemos o Ser, seja na alma ou na razão. Podemos dizer que Heidegger remove as estruturas dessa "casa" e direciona a reflexão para o projeto de construção.

Nós somos, assim, puras possibilidades, que só se concretizam em um determinado contexto histórico e social. É, de antemão, equivocado buscar uma essência do Ser, pois ele é esse atirar-se no mundo, e é somente no mundo que encontra alguma resolução.

Em seus trabalhos maduros, Heidegger busca na linguagem um modo de dizer esse Ser. Mas como o Ser não é um algo que se possa descrever ou transformar por meio da linguagem lógica e técnica, que usamos para designar objetos ou manipular as coisas do mundo, só pode ser dito na linguagem poética, ambígua e aberta a interpretações.

Essas idéias de Heidegger influenciaram, direta ou indiretamente, algumas das principais correntes da filosofia contemporânea. Seus escritos sobre a existência, principalmente em sua obra Ser e Tempo, repercutiram na fenomenologia e no existencialismo franceses; já as interpretações do Ser na linguagem foram referenciadas na hermenêutica e em uma determinada linha do pragmatismo. Tanto em seu aspecto antifundacionista quanto em suas críticas à linguagem instrumental, Heidegger municiou a filosofia pós-moderna.

Wittgenstein: os jogos de linguagem

O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), considerado um dos maiores gênios em filosofia no século 20, desenvolveu em sua obra Investigações filosóficas algumas importantes idéias recuperadas pelos pós-estruturalistas, entre elas, o conceito de jogos de linguagem.

Imagine que você faz uma viagem para um Estado diferente do país. Se você mora no Sudeste, por exemplo, vai visitar familiares, no Nordeste ou no Sul, que não vê desde criança. Chega tarde da noite e, na manhã seguinte, o convidam para o café-da-manhã. Talvez você espere encontrar pão com manteiga e café com leite, caso seja isso o que você está acostumado a comer pela manhã. Mas, ao invés disso, se depara com alimentos que nunca comeu antes ou sequer ouviu falar: charque ou tapioca, por exemplo.

O que isso quer dizer? Que as palavras só possuem sentido em um contexto específico, em seu uso prático. Quando aprendemos uma língua, aprendemos com ela um conjunto de regras de uso, uma forma de entender e agir no mundo. Ou seja, "café-da-manhã" significa coisas diversas para você e seus parentes distantes.

São essas regras de uso prático que acompanham o modo como representamos o mundo na linguagem, e que evoluem e diferem conforme o ambiente sociocultural, o que chamamos de jogos de linguagem.

Os jogos de linguagem, portanto, mostram que a realidade é fragmentada: se existem diferentes jogos de linguagem, existem diferentes leituras da realidade, e nenhuma deve prevalecer sobre as outras.

Pontos de vista

Cai por terra, desse modo, a pretensão do projeto de modernidade de uma única construção da história, guiada pela razão iluminista e cujo progresso levaria à felicidade humana. O raciocínio técnico e científico do homem ocidental representa um modo de contar a história. Os pós-modernos perguntaram: não haveria outros igualmente válidos?

Suponha, por exemplo, uma ocupação estudantil de um campus universitário. A Polícia Militar é acionada pela Justiça e a Tropa de Choque entra no prédio e bloqueia o acesso da imprensa. Há conflito, danos materiais e alguns feridos. Os repórteres, sem poder chegar ao local, irão contar a história a partir dos relatos oficiais da polícia e de depoimentos dos estudantes. E, dependendo da edição de cada veículo, poderão realçar um lado da história. Onde estará a verdade? Na versão da polícia ou dos estudantes? No jornal A ou no jornal B? Talvez em nenhuma dessas versões. Talvez um pouco em todas.

Na filosofia pós-moderna, o problema é encontrar formas de legitimar a crença em alguma dessas versões - uma forma que se sobreponha às demais.

Leituras recomendadas

  • Heidegger: Ser e Tempo (Editora Vozes), textos da coleção Os Pensadores (Editora Abril Cultural) e o artigo Existência - Heidegger, medo e angústia.

  • Wittgenstein: Investigações filosóficas (Editora Vozes) e a série de artigos sobre Filosofia da Linguagem do UOL Educação, que começa com o texto Filosofia da linguagem (1) - Da Torre de Babel a Chomsky.

  • *José Renato Salatiel é jornalista e professor universitário.

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