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Filosofia

Os universais

Como conhecemos as coisas?

Josué Cândido da Silva*
Especial para Página 3 Pedagogia & Comunicação
Platão e Aristóteles são dois marcos fundamentais na história da filosofia. Apesar de terem posições diferentes sobre a origem das idéias, definiram o campo de nossa experiência cognitiva ao estabelecer que todo conhecimento tem uma parte sensível e outra intelectiva.

Para que algo possa ser conhecido por nós é preciso que seja percebido pelos sentidos, mas isso ainda não é suficiente para dizermos que conhecemos o que a coisa é. É preciso que reconheçamos tal objeto como um objeto de certo tipo e não de outro (para que eu identifique o objeto como cadeira e não como banco, por exemplo).

Para isso, eu preciso de um conceito. Um conceito é uma representação geral e abstrata de algo. Ele é um meio entre o sujeito que conhece e o objeto conhecido. Por meio dele eu me refiro às coisas no mundo e posso comunicar meus conhecimentos para outras pessoas.

O conceito pode ser considerado subjetivamente como ato de conceituar ou classificar os objetos - e objetivamente como conteúdo do ato, ou seja, o que o conceito significa. Por seu caráter geral e abstrato, os conceitos são considerados universais, ou seja, um termo que é comum a muitos singulares, sem designar a nenhum deles em particular, da mesma forma que podemos dizer que os indivíduos singulares Maria, João, José pertencem à humanidade (universal).

A querela dos universais

Durante a Idade Média, a natureza dos universais deu lugar a intensos debates entre as mentes mais brilhantes desse período. Debate que ficou conhecido como querela dos universais.

A querela tem início com uma série de questões colocadas por Porfírio (232-304) no prefácio de sua Introdução às Categorias de Aristóteles (Isagoge). Recusando-se a tomar partido em favor de Aristóteles ou Platão, Porfírio limita-se a anunciar qual é a natureza do problema.

Vejamos: quando me refiro às idéias gerais (como o gênero animal e a espécie homem), identifico determinadas características comuns que me permitem dizer que Maria, João e José pertencem à espécie humana - e que humanos, aves e peixes são animais.

Muito bem, a questão é se tais gêneros e espécies são realidades subsistentes em si ou simples concepções do nosso espírito. Ou seja, quando formo o conceito de "gato", ele é apenas uma abstração ou existe algo como uma "gatuidade" presente em cada um dos indivíduos e que me permite reconhecê-los como tais? Supondo-se que o universal tenha algum suporte na realidade, tal suporte é corpóreo ou incorpóreo? Mais ainda: supondo que sejam incorpóreos, eles existem à parte das coisas sensíveis ou somente unidos a elas?

Boécio (470-525), que traduziu a Isagoge do grego para o latim, logo percebeu o magnífico programa que as questões de Porfírio anunciavam. Além disso, viu nelas uma oportunidade de apresentar uma solução capaz de conciliar Platão e Aristóteles em uma única teoria.

Inicialmente, o filósofo latino concorda com Aristóteles sobre a impossibilidade de idéias gerais serem substâncias, já que os gêneros e as espécies são comuns por definição, e o que é comum a vários indivíduos não pode ser um indivíduo. Por outro lado, imaginemos que as idéias gerais são simples representações de nosso espírito, isto é, que nenhum objeto corresponda na realidade às idéias que temos deles. Mas um pensamento sem objeto não é sequer um pensamento. Logo, é preciso que os universais sejam pensamentos de alguma coisa.

A solução proposta por Boécio é que os nossos sentidos nos comunicam as coisas no estado de confusão. Nosso espírito, porém, tem a capacidade de distinguir nos corpos as propriedades que se encontram misturadas e separá-las. O espírito extrai dos seres corpóreos o que eles têm de incorpóreo, como os gêneros e as espécies. Nós retiramos dos corpos a forma nua e pura, como as noções de animal e de homem, abstraídas de indivíduos concretos.

Para o filósofo, não há problema em abstrair determinadas propriedades de seres concretos, apenas é preciso lembrar que tais formas só existem em seres reais, como pensar a linha a partir da superfície. O problema está em pensar como conjuntos coisas que estão separadas na realidade, como o corpo de um leão com asas de águia. Os universais, portanto, são incorpóreos, mas subsistem apenas ligados aos corpos, embora possamos pensá-los separadamente.

A solução apresentada por Boécio não é isenta de problemas e lacunas. Por exemplo, como o intelecto realiza a separação do que percebemos confusamente? Existe algo de geral na realidade ou a generalização é meramente intelectual?




O que há para ler?

De Etienne Gilson, a obra A filosofia na Idade Média, publicada pela Editora Martins Fontes.
*Josué Cândido da Silva é professor de filosofia da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus (BA).

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