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História do Brasil

Brasil na Segunda Guerra - FEB na Itália

Brasileiros receberam treinamento intensivo

Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

General Dutra, ministro da Guerra do Brasil, na Itália

A Força Expedicionária Brasileira - FEB desembarcou na Itália no dia 16 de julho de 1944. Na manhã do dia anterior, os pracinhas brasileiros avistaram o monte Vesúvio e a baía de Nápoles. Naquele momento, descobriram que iam lutar na Itália.

Ao chegarem à Itália, os brasileiros viram algumas das marcas da destruição trazida pela guerra. No mar, ao redor do navio que transportava os brasileiros, estavam destroços de navios italianos. Em terra, os soldados se depararam com casas e prédios napolitanos em escombros, destruição causada tanto pelos bombardeios aéreos dos Aliados quanto pelas demolições feitas pelos alemães, antes de abandonarem a cidade.

O porto estava movimentado. A Itália era um país dividido. Havia entrado na guerra ao lado da Alemanha nazista, mas a situação mudara no ano anterior: após a tomada da Sicília pelos Aliados (17 de agosto) e o desembarque de tropas britânicas na Calábria (3 de setembro), a Itália rendeu-se aos Aliados e declarou guerra à Alemanha nazista (13 de outubro).

No entanto, parte da Itália ainda era aliada da Alemanha: após a rendição da Itália aos Aliados, os fascistas italianos instituíram um Estado na cidade de Saló. Esse Estado fascista recebeu o nome de República Social Italiana. Entre a população italiana havia aqueles que apoiavam os Aliados, vistos como libertadores que haviam livrado os italianos da opressão nazista, mas também havia aqueles que ainda apoiavam os fascistas.

Por causa disso, os brasileiros foram instruídos a não passarem informações aos civis italianos, para evitar que tais informações chegassem a espiões a serviço dos alemães.

Tropas multiétnicas

Diante daqueles soldados de uniforme verde, semelhante ao dos alemães, alguns civis napolitanos vaiaram os soldados da FEB. Esses napolitanos pensaram que os brasileiros fossem prisioneiros de guerra alemães capturados pelos Aliados.

Mas ao perceberem a presença de negros e o escudo com o nome "Brasil" inscrito na manga esquerda das túnicas, os napolitanos logo se deram conta de que aqueles homens não eram prisioneiros alemães, mas soldados de um outro país que vinha se juntar ao esforço de guerra dos Aliados.

Assim, as vaias logo deram lugar a pedidos de ajuda. Os napolitanos pediam ajuda na forma das "moedas correntes" no país, naquele momento: cigarros, barras de chocolate e comida enlatada. Com o país arrasado, qualquer alimento era mais valioso que dinheiro e os cigarros podiam ser trocados por comida.

Os soldados norte-americanos costumavam trazer barras de chocolate (alimento energético que podia ser facilmente transportado) e rações enlatadas. Os soldados brasileiros também traziam comida enlatada de procedência norte-americana (o que nem sempre agradava o paladar dos pracinhas). A situação da população italiana estava tão precária que muitas jovens italianas se prostituíam em troca de comida.

A chegada dos brasileiros foi uma boa notícia para o general Mark Clark, responsável pelo 5º Exército Americano. Mark Clark precisava de reforços na Itália, pois, naquele momento, o 7º Exército Americano partia do território italiano para dar continuidade à invasão da Europa pelo sul da França.

A FEB se juntava ao 5º Exército Americano (ao qual estaria subordinada) e ao 8º Exército Britânico (que em suas fileiras reunia ingleses, canadenses, sul-africanos, indianos...). Ao lado desses, também estavam membros da resistência francesa, marroquinos e os partisans italianos (guerrilheiros antifascistas). Assim, os brasileiros se juntavam aos exércitos de diferentes nações no esforço de guerra contra o nazismo, compondo uma verdadeira Torre de Babel.

Aliás, um dos pontos que mais chamou a atenção dos brasileiros dentro do exército norte-americano foi a segregação racial. Na Itália, a 92ª Divisão de Infantaria era formada exclusivamente por soldados negros, vindos do sul dos Estados Unidos.

Nesse aspecto, a FEB foi um exemplo raro de integração multiétnica, pois lado a lado estavam soldados das mais diversas origens e cores de pele: brancos, negros, mulatos, caboclos, cafuzos e nikeis (descendentes de japoneses).

Armamentos e treinamento intensivo

Quando chegaram à Itália, os pracinhas estavam praticamente desarmados. Somente dias depois, entre 5 e 18 de agosto, quando já estavam em Tarquínia, situada a 60 quilômetros a noroeste de Roma, é que eles receberam seus novos armamentos.

Todas as armas utilizadas pela FEB na Itália eram de procedência norte-americana, substituindo as de fabricação francesa, alemã e tcheca que eram usadas até então pelo Exército Brasileiro. O fuzil-metralhadora Hotchkiss foi substituído pelo fuzil-metralhadora Browning (conhecido no exército norte-americano como BER, sigla de Browning Automatic Rifle). Outras armas recebidas foram as submetralhadoras Thompson e M3, algumas submetralhadoras inglesas Sten e as carabinas M1, de calibre ponto 30.

Houve certa decepção por parte dos brasileiros quando receberam as armas de procedência norte-americana: havia poucos fuzis M1 Garand, modelo que era de uso comum entre as unidades norte-americanas de infantaria. Assim, a maioria dos brasileiros seguiu para o combate com fuzis Springfield 1903 A3, modelo que datava de antes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Durante as batalhas, alguns brasileiros obtiveram fuzis M1 Garand que pertenciam a colegas norte-americanos mortos ou feridos.

Sargentos e oficiais brasileiros receberam um treinamento intensivo na Itália. Esse treinamento era oferecido em estágios organizados pelo Exército dos Estados Unidos. Alguns oficiais brasileiros foram mandados para Caserta, onde freqüentaram um curso de comando de pelotão. Outros foram enviados para estágio em unidades norte-americanas.

O tenente José Gonçalves, por exemplo, passou três dias junto ao 442º Regimento de Infantaria Americano, formado exclusivamente por norte-americanos de ascendência japonesa (que, por razões óbvias, foram mandados para lutar contra os alemães na Europa e não contra os japoneses no Pacífico). Os soldados desse regimento logo foram enviados à França - e dentre as forças dos Aliados na Itália, seriam os primeiros a chegar à fronteira francesa.

Os sargentos e oficiais brasileiros terminaram o restante desse treinamento na unidade da 34ª Divisão de Infantaria Americana, cuja maior parte do contingente era formada por homens provenientes dos estados norte-americanos do Texas e do Novo México.

Primeiras missões e reforços

No dia 15 de setembro, no Vale do rio Arno, os pracinhas fizeram suas primeiras missões de patrulha. O batismo de fogo ocorreu no dia seguinte, quando os brasileiros tomaram a cidade de Massarosa e foram recebidos com entusiasmo pela população local.

No dia 18, uma nova vitória: os brasileiros tomam a cidade de Camaiore. Em 26 de setembro, após seis dias de luta, os brasileiros conquistam o monte Prano, o que custou as vidas de quatro brasileiros, as primeiras baixas fatais da FEB na Itália.

Em novembro, chegaram à Itália novas levas de combatentes da FEB: o 1º Regimento de Infantaria, com sede no Rio de Janeiro, e o 11º Regimento de Infantaria, com sede em São João del Rey.

Nessa época, também chegaram à Itália, mais especificamente em Livorno, os cerca de quatrocentos pilotos do 1º Grupo de Aviação de Caça da FAB (Força Aérea Brasileira). Antes de partirem do Brasil para a Itália, esses pilotos haviam recebido treinamento nos Estados Unidos.

Naquele momento, o quartel-general da FEB, sob o comando do general-de-divisão João Batista Mascarenhas de Moraes, foi estabelecido na localidade italiana de Porreta Terme. Com a chegada dos reforços, a FEB começou a receber missões envolvendo um número maior de soldados.

Para saber mais

  • Livros:
    Irmãos de armas: um pelotão da FEB na II Guerra Mundial, de José Gonçalves e César Campiani Maximiano. São Paulo: Códex, 2005. (O livro é um relato de caráter semi-autobiográfico. A co-autoria é de César Campiani Maximiano, doutor em História pela Universidade de São Paulo. Sem ser piegas, o livro é comovente em vários momentos.)

    O Brasil na mira de Hitler: a história do afundamento de navios brasileiros pelos nazistas, de Roberto Sander. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. (Sem perder o rigor da pesquisa, a narrativa de Sander é tão envolvente quanto um bom romance de espionagem.)

    National Geographic Brasil: Edição Especial, nº 63-A, São Paulo: Abril, 2005. (Edição especial lançada por ocasião dos sessenta anos do término da Segunda Guerra. Traz uma coletânea dos melhores artigos sobre o assunto já publicados pela revista. Há três reportagens sobre o Brasil.)

  • Filme:
    Senta a pua! - Direção: Erik de Castro. Brasil, 1999. (Documentário que conta a história dos pilotos da FAB durante a Segunda Guerra Mundial.)

  • *Túlio Vilela, formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores do livro Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula (Editora Contexto).
    Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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