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História Geral

Guerra de Secessão - origens

Um conflito entre irmãos

Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

Abraham Lincoln, presidente dos Estados Unidos durante a Guerra de Secessão

"Nós não precisamos de uma outra guerra civil", diz a letra de Civil War, canção da polêmica banda de rock norte-americana Guns'n Roses, bastante popular nos anos 1980 e início dos anos 1990.

Trata-se de uma das várias referências à Guerra Civil Norte-Americana que podemos encontrar na cultura pop produzida nos Estados Unidos. E também de um dos vários exemplos de como essa guerra ficou gravada na memória coletiva do povo norte-americano.

Toda guerra é traumática, e isso é especialmente verdadeiro quando nos referimos a uma guerra civil. Não é à toa: uma guerra civil costuma ser o que chamamos de "conflito fratricida" (um conflito entre "irmãos").

Diferentemente do que ocorre nas guerras tradicionais, que costumam envolver lutas entre exércitos de países diferentes, numa guerra civil os exércitos inimigos são formados por soldados que são (ou eram antes do início do conflito) cidadãos de um mesmo país ou Estado.

No caso da Guerra Civil Norte-Americana, ela transformou compatriotas em inimigos enfrentando-se em campos de batalha. Para nós, brasileiros, esse conflito é um assunto que vale a pena ser estudado pelas seguintes razões:

  • permite-nos uma comparação entre as diferenças que marcaram os processos de abolição da escravidão nos Estados Unidos e no Brasil;
  • facilita a nossa compreensão da origem das diferenças entre as manifestações de racismo em relação aos ex-escravos e seus descendentes nos dois países ("racismo declarado" nos Estados Unidos e "racismo velado" no Brasil);
  • alerta-nos para a tragédia que poderia ser um conflito semelhante dentro do território brasileiro (é verdade que o Brasil já teve, no passado, conflitos que poderíamos classificar de "guerras civis", tais como a Revolução Farroupilha ou a Revolução Constitucionalista de 1932, mas nenhum na mesma extensão e duração do que ocorreu nos Estados Unidos).

    Guerra de Secessão

    A Guerra Civil Norte-Americana também é conhecida pelo nome de Guerra de Secessão. Uma secessão é uma separação, um rompimento. A origem do nome é a secessão dos Estados sulistas, que, durante o conflito, se separaram do resto país, rompendo com o governo federal sediado em Washington.

    Um dos motivos da guerra foi a escravidão: os Estados sulistas defendiam a continuidade da escravidão, os Estados nortistas (em sua maioria) defendiam a abolição da escravidão. As tendências abolicionistas dos nortistas eram resultado mais de interesses econômicos do que de supostos sentimentos humanitários.

    Uma prova disso é que o presidente Abraham Lincoln (1809-1865) era, antes da guerra, bem mais "moderado" em suas opiniões a respeito da escravidão: apesar de contrário a essa idéia, para ele, cabia a cada um dos Estados, e não ao governo federal, decidir se mantinha ou abolia a escravidão em seus respectivos territórios.

    Com o tempo, Lincoln mudou de opinião e tornou-se um ferrenho defensor da abolição. Apesar disso, Lincoln, tal como a maioria dos homens brancos de sua época (não apenas dos Estados Unidos, mas também da Europa) acreditava na superioridade da "raça branca": considerava os negros culturalmente inferiores aos brancos e considerava a miscigenação um "mal a ser evitado".

    Nada disso impediu que Lincoln fosse retratado de forma idealizada nos livros didáticos norte-americanos, algo muito semelhante ao que ocorreu com a figura da Princesa Isabel em nossos antigos livros didáticos.

    Estados Unidos: diferenças econômicas entre o sul e o norte

    Havia fortes diferenças entre o sul e o norte dos Estados Unidos. O sul era caracterizado por uma economia agrária e voltada para exportações, que se caracterizava pela exploração de mão-de-obra escrava (cerca de 4 milhões de escravos trabalhavam nas plantações de algodão sulistas).

    Além disso, os fazendeiros sulistas se diziam defensores do livre mercado (isso atendia os interesses dos fazendeiros sulistas, pois sua produção de algodão era voltada principalmente para o mercado externo). A elite sulista também defendia o livre comércio para continuar consumindo produtos importados como roupas e ferramentas.

    Por sua vez, o norte era industrializado e protecionista, com uma economia baseada na exploração de mão-de-obra assalariada e voltada principalmente para o mercado interno. A elite nortista era a favor da cobrança de taxas alfandegárias maiores para os importados, o que os tornaria mais caros e favoreceria a venda dos produtos industrializados do norte no restante do país.

    Lá, como na Inglaterra da época (que num período anterior também se enriqueceu com o negócio do tráfico de escravos), a escravidão era condenada pela elite econômica local que a consideravam um obstáculo para seus interesses financeiros.

    Utilizar trabalho escravo era visto como uma concorrência desleal, pois os senhores ao não pagarem salários, poderiam vender seus produtos a um preço mais baixo. Vale lembrar que nos Estados do norte também havia fazendeiros que já empregavam trabalhadores assalariados em suas fazendas.

    Em suma, o mesmo tipo de crítica que se faz hoje às empresas chinesas que praticam o dumping: na China, a ausência de encargos trabalhistas para os empresários e os salários baixíssimos tornam os produtos chineses muito mais baratos que os similares produzidos por países onde existem leis trabalhistas mais rígidas (salário mínimo estipulado por lei, previdência social, existência de sindicatos etc.).

    Além disso, ao usar maciçamente mão-de-obra escrava, os fazendeiros sulistas estavam reduzindo consideravelmente o número de possíveis consumidores para os produtos industrializados do norte.

    Interesses econômicos e abolicionismo

    Que os interesses econômicos guiaram a defesa da abolição pelo norte não resta dúvida. No entanto, isso não significa que muitos abolicionistas não tenham sido motivados por razões humanitárias.

    Em 1833, William Garrison e outros líderes abolicionistas do norte dos Estados Unidos fundaram a Sociedade Americana contra a Escravidão, que propunha a abolição da escravidão sem qualquer indenização aos ex-proprietários. Aos poucos, o abolicionismo foi ganhando adeptos nos Estados Unidos.

    O fato de um grande número de pessoas livres passar a considerar a escravidão algo imoral e um mal a ser eliminado é historicamente significativo. Trata-se de uma mudança de mentalidade que não pode ser desprezada. Durante séculos, em diferentes contextos, a escravidão foi considerada algo "natural".

    Um dos fatores que contribuiu para a difusão de idéias abolicionistas nos Estados Unidos foi o grande sucesso alcançado junto ao público pelo livro "A Cabana do Pai Tomás" (no original Uncle Tom's Cabin), lançado em 1852, de autoria da romancista norte-americana Harriet Beecher Stowe.

    O romance melodramático descrevia a dura vida dos escravos no sul dos Estados Unidos e tinha como personagem principal Tomás, um escravo idoso de grande bondade. O livro vendeu um milhão de exemplares em dois anos (um recorde para os padrões da época).

    Assim como hoje, telenovelas podem influenciar a opinião pública brasileira sobre assuntos diversos e polêmicos (tais como preconceito em relação a portadores da Síndrome de Down), "A Cabana do Pai Tomás" comoveu muitos leitores da elite branca do norte, chamando a atenção desses para o drama real vivido pelos negros no sul.

    Curiosamente, a autora do livro jamais havia posto os pés no sul e não conhecia um negro sequer. Esse fato lhe rendeu muitas críticas por parte dos escravistas do sul. Por outro lado, nos dias de hoje, esse romance também é visto com antipatia por parte da comunidade negra norte-americana: entre os negros, Uncle Tom virou gíria depreciativa, usada para se referir ao indivíduo negro que aceita ser submisso e bajula os brancos.

    Veja também

  • Túlio Vilela, formado em História pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).

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