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História Geral

Guerra Fria - início

Da Segunda Guerra Mundial às primeiras hostilidades

Gilberto Salomão*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

Cartaz do Exército Vermelho com os dizeres: Avante, a vitória está próxima!

Os milhões de mortos e as perdas materiais incalculáveis não foram a única herança deixada pelo maior conflito que a humanidade conheceu, a Segunda Guerra Mundial. Ao contrário, o término das hostilidades serviu como marco inicial de um processo que pautou as relações internacionais ao longo da segunda metade do século 20, a chamada Guerra Fria.

O historiador Maurice Crouzet, na obra História Geral das Civilizações, afirma que "desde o fim das operações militares na Europa e na Ásia, as desconfianças se agravam, os mal-entendidos, as suspeitas se acumulam de parte a parte: as oposições entre os aliados se aprofundaram e culminaram, em alguns anos, em um conflito que, em todos os domínios, salvo o das armas, assumiu o caráter de uma verdadeira guerra: é a Guerra Fria".

Na verdade, essa rivalidade encontra suas origens já no processo que levou ao fim da Segunda Guerra Mundial. Ela é fruto da bipolarização que se abriu, com o crescimento da União Soviética, verdadeira vencedora da guerra, o declínio da França, da Inglaterra e da Alemanha, e a consolidação dos EUA como única potência capitalista, capaz de fazer frente ao poderio soviético.

Já nos tratados e Yalta e Potsdam, ao final da Segunda Guerra, os marcos dessa bipolarização estavam definidos. A divisão da Europa, em áreas de influência soviética e capitalista, apontava para uma realidade que os anos seguintes apenas confirmaram: a do confronto ideológico, político, militar e estratégico entre as duas superpotências.

A URSS e o Exército Vermelho

Cabe lembrar que a vitória da URSS na Segunda Guerra deu a esse país uma estatura invejável. Ante uma Europa destruída, a URSS emergia como a grande potência continental. Mais do que isso, sua vitória sobre os nazistas fora acompanhada de um avanço de suas tropas, o Exército Vermelho, o qual, ao derrotar os exércitos alemães nos vários países da Europa do Leste, ia impondo governos socialistas a esses países, obrigando-os a terem, como única referência, a URSS.

Criava-se, assim, um cinturão de países socialistas em torno da URSS, aquilo que mais tarde foi batizado por Winston Churchill como a Cortina de Ferro.

Mais do que isso, é importante frisar que o Exército Vermelho foi o primeiro e na verdade o único exército a vencer as forças nazistas em terra. Consolidou-se, dessa forma, a idéia de que o socialismo era a única força capaz de deter o nazismo e assegurar a liberdade. Tal fato serviu como uma bandeira que avivou sensivelmente a pregação socialista em todo o mundo.

Descolonização na África e na Ásia

Ao lado disso, o crescimento soviético era possibilitado por outros elementos. O enfraquecimento da França e da Inglaterra, bem como a derrota da Itália, da Alemanha e do Japão foram dois fatores que inviabilizaram a capacidade desses países de se manterem como potências colonialistas.

Assim, o final da Segunda Guerra deu início a um amplo processo de descolonização na África e na Ásia. Era natural que as novas nações, recém-independentes e ainda frágeis enquanto Estados autônomos, buscassem se distanciar das potências capitalistas e imperialistas. Assim, abria-se um espaço imenso de penetração soviética nessas áreas.

Da mesma forma, na América Latina, onde o grau de contradições sociais e a miséria eram largamente apontados como um atestado do fracasso do capitalismo em dar resposta às demandas sociais, havia uma situação fértil para o crescimento dos ideais socialistas.

Assim, naturalmente, as perspectivas que se abriram ao final da Segunda Guerra Mundial eram de um fortalecimento ainda maior da URSS, o que representava uma ameaça aos interesses dos EUA e à própria ordem capitalista.

Essa é a razão pela qual, desde o final da guerra, o clima de tensão ter sido uma constante e tenha se manifestado de forma mais incisiva em várias regiões. Essa tensão acabou por gerar conflitos que, se por um lado, jamais colocaram em oposição direta as duas grandes potências, sempre tiveram nelas as suas orquestradoras.

Além disso, por vários momentos, houve o medo, não de todo destituído de sentido, de que o clima de tensão culminasse em uma guerra efetiva entre as duas superpotências. Esse medo era alimentado pela corrida armamentista em que ambas se achavam empenhadas, marcada pelo uso da energia nuclear, carregada de todo o terror simbolizado pela bomba de Hiroshima.

A aliança entre os países capitalistas e a URSS, forçada pela agressão do Eixo (grupo formado, durante a Segunda Guerra Mundial, por Alemanha, Itália e Japão), não sobreviveu sequer um ano após a rendição da Alemanha e do Japão.

Churchill e Truman

Já em 1946, em Fulton, cidade norte-americana no Estado de Missouri, Winston Churchill, ainda primeiro-ministro britânico, pronunciou um discurso que se tornou célebre. Nele, Churchill apontava a URSS como o novo e mais terrível inimigo da coligação anglo-saxã, depositária dos valores ocidentais. Nesse discurso, o primeiro-ministro britânico usou, pela primeira vez, a expressão Cortina de Ferro para designar o domínio soviético sobre a Europa Oriental, dando ao termo uma conotação essencialmente sinistra.

Já no ano seguinte, o presidente Harry Truman dava livre trânsito a esse mesmo pensamento. Em um discurso, ele afirmava:

"Acredito que deva ser política dos Estados Unidos apoiar os povos livres que resistem a tentativas de subjugação por minorias armadas ou outras formas de pressões externas. [...] O mundo não é estático, e o status quo não é sagrado. Mas não podemos permitir mudanças no status quo com violações da Carta das Nações Unidas por métodos tais como coerção, ou por subterfúgios como a infiltração política. Ajudando as nações livres e independentes a manter sua independência, os Estados Unidos estarão dando efeito aos princípios da Carta das Nações Unidas.

[...] Os povos livres do mundo olham para nós esperando apoio na manutenção de sua liberdade. [...] Se fracassarmos na nossa missão de liderança, talvez ponhamos em perigo a paz e o mundo - e certamente poremos em perigo a segurança de nossa própria nação. É claro que os Estados Unidos não podem esperar gozar de intimidades com o regime soviético em um futuro previsível. Devem continuar a encarar a União Soviética como um rival, não como um parceiro, na arena política. Devem continuar a esperar que as políticas soviéticas não reflitam amor abstrato pela paz e pela estabilidade, fé verdadeira na possibilidade de uma coexistência permanente e feliz dos mundos capitalista e socialista, mas uma pressão cautelosa e persistente visando ao enfraquecimento e a desagregação de qualquer força e influência rival.

Para equilibrar isso, a Rússia, como sempre diferente do mundo ocidental em geral, ainda é o partido mais fraco, a política soviética bastante flexível e a sociedade soviética pode bem conter deficiências que eventualmente enfraquecerão seu próprio potencial total. Isso bastaria para garantir aos Estados Unidos entrarem confiantes em uma política de firme contenção, projetada para opor à Rússia uma contração inalterável em todo ponto onde mostrassem indícios de violar os interesses de um mundo pacífico e estável."


Era a demonstração clara de que a política dos EUA passaria por uma mudança histórica. O globalismo substituiu a neutralidade. E a única potência capitalista que restava assumiu um papel dominante no cenário mundial.


*Gilberto Salomão, formado em história pela USP, é professor do Curso Intergraus e autor dos livros de história do Sistema de Ensino Poliedro.
Os textos publicados antes de 1º de janeiro de 2009 não seguem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. A grafia vigente até então e a da reforma ortográfica serão aceitas até 2012

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