Escolas rurais ainda têm estrutura deficiente; 70% não contam com biblioteca

Amanda Cieglinski

Da Agência Brasil, em Brasília

Pesquisa divulgada hoje (20) pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta para uma realidade preocupante nas escolas rurais, especialmente em termos de infraestrutura. Entre as 50 escolas de dez estados que participaram da pesquisa, 70% não tinham biblioteca, 66% não contavam com computador e 92% não tinha acesso à internet. A única ferramenta pedagógica que foi encontrada em todas unidades e em boas condições de uso foi o quadro negro. Mais de 70% ainda utiliza o mimeógrafo para reproduzir materiais como provas e exercícios.

A pesquisa foi desenvolvida pelo Instituto Paulo Montenegro, braço do Ibope. O presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Carlos Eduardo Sanches, defendeu que os resultados apontados pela pesquisa são consequência do descaso com a educação a partir da priorização das escolas urbanas.

“Na década de 90 a educação no campo foi pensada de maneira equivocada. Priorizou-se o transporte escolar dessas crianças para a cidade e muitas escolas foram fechadas”, afirmou. Segundo Sanches, muitos municípios fazem essa opção porque os custos para manter uma escola aberta são altos já que geralmente são unidades com poucos alunos.

“Hoje os municípios têm um gasto enorme com transporte escolar quando esses recursos poderiam ser investidos em capacitação desses professores, equipamentos e infraestrutura”, comparou.

 

Rosa Neide de Almeida, representante do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), apontou que a situação precária das escolas do campo é consequência da priorização, por parte dos gestores, das escolas da cidade. "A própria linguagem nessas escolas é distanciada da realidade do campo", disse.

A pesquisa traz também alguns dados sobre a organização da escola. Metade delas não possui diretor e em 44% delas todos os alunos estavam em classes multisseriadas. Nesse formato, alunos de diferentes idades estudam em uma mesma classe, aprendendo conteúdos diferentes de acordo com a série em que estão. Esse modelo é muito comum nas escolas rurais, já que elas contam com poucos alunos e há dificuldade de acesso de professores em grande número.

Dos professores que fazem parte da pesquisa, mais de 60% tinham curso superior. Ao mesmo tempo, 66% deles recebiam de um a dois salários mínimos por mês. Com raras exceções, as redes de ensino declararam que os seus educadores não tinham recebido uma capacitação diferenciada para trabalhar com classes multisseriadas.

Para a senadora Kátia Abreu, presidente da CNA, os dados são reflexos do descaso do governo com o campo, que atinge todas as áreas. “Se observarmos a execução orçamentária dos principais ministérios nos últimos dez anos, percebemos que, fora o crédito rural, houve uma redução dos investimentos. As dificuldades do campo não são consideradas quando as políticas públicas são formatas e como tem menos gente no campo as políticas públicas se concentram onde há mais eleitores”, afirmou.

A senadora reclamou que apenas em 2009 a Prova Brasil, principal avaliação do Ministério da Educação (MEC), chegou às escolas rurais. É por meio desse exame que o MEC calcula o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de cada escola. “Ainda assim, a Prova Brasil só é aplicada nas classes seriadas, que são a minoria nas escolas”, defendeu.

Segundo o MEC, os critérios técnicos do exame exigem um mínimo de 20 alunos por turma para que a prova seja aplicada. A baixa participação das escolas rurais ocorre porque na maioria delas as turmas têm um número reduzido de estudantes por série.

O diretor de Concepções e Orientações Curriculares para a Educação Básica do MEC, Carlos Artexes, afirmou, durante o lançamento da pesquisa, que a pasta tem uma estrutura dentro da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) para pensar as questões do campo. “Não existe uma solução pronta para a educação rural”, destacou. Segundo Artexes, o primeiro passo é assumir “o compromisso de chegar no campo” e o papel do MEC é de articulador, garantindo apoio técnico e financeiro às redes de ensino.

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