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Para socióloga, professoras enfrentam baixo reconhecimento da sociedade

Simone Harnik

Da Redação do Todos Pela Educação*

2011-03-03T06:00:00

03/03/2011 06h00

Personagens comuns na trajetória educacional de todo brasileiro, as professoras são maioria absoluta no magistério e enfrentam, dia a dia, dificuldades que vão de problemas na infraestrutura escolar à violência na sala de aula. Mas essas profissionais, que precisam de formação aprofundada e permanente, não têm a valorização que deveriam ter, afirma a socióloga e professora da PUC-Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) Magda de Almeida Neves.

Para ela, historicamente, "a sociedade identifica o trabalho da professora com o de uma mãe e, para ser atenciosa, delicada, meiga, de acordo com os valores culturais, não é preciso qualificação profissional". "Tudo isso contribui para o baixo reconhecimento do papel da professora", afirma. Veja abaixo a entrevista que a docente concedeu ao Todos Pela Educação:


Todos Pela Educação - Por que o magistério é composto, principalmente, por mulheres?
Magda de Almeida Neves - Historicamente e culturalmente, ser professora tinha um valor muito acentuado na sociedade, porque era como ser mãe. Cuidado, atenção, delicadeza com os filhos eram qualidades que a sociedade esperava encontrar nas professoras. Isso levou muitas mulheres ao magistério. Eram elas que realizavam a maior parte das tarefas domésticas e cuidavam da Educação dos filhos. Ser professora conjugava esses elementos que fazem parte da esfera reprodutiva.

TPE - Isso ocorreu até qual época?
Magda - Mais ou menos até os anos 1970. A partir daí, aumentou a presença da mulher no mercado de trabalho. Nos anos 1980, as mulheres eram 18% no mercado de trabalho no Brasil. Em 2007, esse percentual subiu para 52,4%. As mulheres começaram a entrar em outras profissões e se tornaram engenheiras, arquitetas, médicas, juízas.

TPE - Mas o magistério se manteve na mão das mulheres?
Magda - Sim. Algumas profissões permaneceram com essa característica feminina. São o que chamamos de guetos femininos no mercado de trabalho. Os lugares tradicionais das mulheres são o das professoras, enfermeiras, secretárias, recepcionistas. E os salários nessas profissões são baixos, porque a remuneração da mulher sempre se deu pelas "qualidades femininas" exigidas nas funções e como complementação à renda familiar.

TPE - A senhora acredita que os baixos salários dos professores podem ter sido influenciados por esse fator?
Magda - Sim. O salário do professor pode estar influenciado, porque a sociedade identifica o trabalho da professora com o de uma mãe e, para ser atenciosa, delicada, meiga, de acordo com os valores culturais, não é preciso qualificação profissional. Tudo isso contribui para o baixo reconhecimento do papel da professora. Mas, por outro lado os governos brasileiros ainda não estabeleceram como prioridade nas políticas públicas o investimento que a Educação necessita.

TPE - Como podemos mudar esse cenário?
Magda - Em primeiro lugar, tem de haver, cada vez mais, uma mudança nos valores culturais da sociedade. Nos últimos anos, a mulher conseguiu adquirir uma Educação formal maior que a dos homens e vem se qualificando e profissionalizando. Apesar da permanência de alguns “guetos femininos” no mercado de trabalho, a mulher vem conseguindo se impor e romper barreiras. É preciso haver o reconhecimento por parte do estado e das empresas educacionais, do papel da Educação, que é de fundamental importância para o desenvolvimento do País.

Apesar dos esforços nos últimos anos, ainda falta muito para se valorizar dignamente a Educação no Brasil. Se olharmos os salários dos professores, hoje, eles são baixíssimos com relação a outras profissões. Como exigir qualidade de um profissional que tem de enfrentar uma série de dificuldades e se envolver com o processo educacional com salário tão baixo?

TPE - A senhora acredita que as famílias reconhecem que a professora também exerce uma jornada em casa, muitas vezes, como mães?
Magda - Há muito pouco reconhecimento desse duplo papel da professora. Os pais, com toda razão, querem uma boa Educação para seus filhos. Por outro lado, as professoras enfrentam um cotidiano pesado, muitas obrigações e baixos salários. E as que são mães também querem que o filho tenha uma boa Educação.

TPE - Por que a proporção dos professores homens cresce no Ensino Médio?
Magda - Porque, nessa etapa, começam a ocorrer salários mais altos e a função não é vista como feminina, pois segundo os padrões do mercado, se exige mais qualificação profissional. Os homens, em geral, procuram funções mais lucrativas. Como o salário do professor ainda é muito baixo, as mulheres acabam aceitando essa tarefa, no ensino fundamental. Isso vem mudando devagar, na medida em que os homens começam a assumir as tarefas em casa, o que era exclusividade das mulheres. Entretanto, mesmo exercendo tarefas iguais, as mulheres ainda ganham 70%, do que os homens ganham.

TPE - Como é a situação em outros países?
Magda - Em países que priorizam a Educação, como a França, o ensino não é exercido só por mulheres. Existe uma forte presença masculina em todos os níveis educacionais.

TPE - A senhora acredita que a presidência na mão de uma mulher (Dilma Rousseff) pode ajudar a mudar esse quadro?
Magda - Tenho a maior esperança. Acho que o Brasil deu um passo importante para o fortalecimento da democracia, apostando na continuidade das políticas sociais e, pela primeira vez na história do País, escolheu uma mulher para a Presidência da República. E, a presidenta tem reforçado sempre nos seus discursos, o combate à miséria e a importância do investimento na Educação, em todos os níveis.


*O Todos Pela Educação é um movimento que congrega a sociedade civil, educadores e gestores públicos pela exigência de uma educação básica de qualidade para crianças e jovens

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