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Forçado a beber em festa de medicina da USP, aluno tem traumatismo craniano

Alan Brum sofreu abusos durante trote na Faculdade de Medicina da USP - Junior Lago/UOL
Alan Brum sofreu abusos durante trote na Faculdade de Medicina da USP Imagem: Junior Lago/UOL

Izabelle Mundim

Do UOL, em São Paulo

10/03/2015 14h46

"Naquele dia, comecei a beber porque tinha que beber, depois fui induzido a continuar. Quando já tinha vomitado, colocaram bebida na minha boca e, depois que fiquei inconsciente, caí, tomei três pontos no rosto, perdi um dente, e tive um traumatismo crânio-encefálico".

O relato do estudante Allan Brum, atualmente no quarto ano de medicina da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), veio à tona durante a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos trotes nas universidades paulistas.

O caso narrado aconteceu em 2013, quando ele estava no segundo ano da faculdade, durante os ensaios do evento Show Medicina, organizado por uma instituição ligada aos alunos do curso.

Segundo o universitário, beber até cair era parte de uma espécie de vestibular pelo qual os estudantes do segundo ano precisavam passar para entrar no coral do Show. Em depoimentos colhidos na CPI, outros estudantes também confirmam rotina de trotes abusivos, humilhações, agressões físicas e morais nos dois meses que antecedem o evento nas dependências da Faculdade de Medicina da USP.

Beber até cair

Na ocasião em que se machucou, Allan conta que ficou sentado, vestido apenas com a cueca, num canto do anfiteatro da faculdade onde acontecem os ensaios.

"Enquanto um calouro me dava bebida e outro limpava meu vômito", diz o rapaz. “Todos que passam por esse trote, entram em coma alcoólico (...). Colocam várias garrafas de uma batida forte e a intenção é a pessoa beber até passar mal.”

Só que Allan tropeçou, caiu e bateu o rosto em uma quina ao se levantar após a sessão de embebedamento. Os veteranos o levaram a um médico.

“[Eles] Me levaram para o Instituto de Ortopedia porque tinha um médico do Show que poderia costurar a minha cara sigilosamente”, afirma o estudante.

“Lá, fizeram uma primeira tomografia e suspeitaram que eu havia tido uma hemorragia, o que poderia me levar à morte. Mas um segundo exame demonstrou que não havia, portanto, foi um traumatismo craniano sem complicações”, explicou.

"Entre uma tomografia e outra acordei e percebi que estava com dor na boca e sem um dente”, disse.

Denúncia

Ele afirma que na época não pensou em denunciar o ocorrido porque não havia nenhum canal. “Não tinha para quem denunciar, [pois] a faculdade dá muito poder para o Show”, diz.

Brum diz que ele e outros alunos se sentiram encorajados a denunciar quando as mulheres e coletivos feministas começaram a relatar à CPI casos de abusos sexuais em festas da AAAOC.

A Faculdade de Medicina informou à reportagem que sempre teve dois canais para a denúncia de qualquer tipo de violência: a diretoria e a comissão de graduação.

A FMUSP também afirmou que o Show Medicina não possui nenhum de subordinação à faculdade e que os alunos têm ampla liberdade para fazer parte de agremiações, extensões e associações culturais.

Em depoimento à CPI das universidades, Silvio Tacla, o diretor do Show Medicina que levou Allan ao hospital, afirmou que as bebidas são liberadas nos ensaios do Show, mas que ninguém é obrigado ou coagido a consumi-las.

O advogado que representa o Show Medicina e a Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz (AAAOC), Dr. João Rassi, também negou que os membros da associação sejam obrigados a beber. "Allan bebeu por livre e espontânea vontade, depois sofreu um acidente em que caiu e foi socorrido pelos colegas”, disse ao UOL.

Abusos dos veteranos

“Fui submetido a trotes desde o primeiro ano que entrei para o Show, como ficar pelado com outros calouros e tomar banho de cerveja jogada por médicos formados, chamados de sapos.”

Também desde o primeiro dia, os calouros são incentivados a beber. “Dizem, ‘quero 10 bolhas’, e você tem que virar a garrafa [fazendo uma bolha a cada gole] para provar que está engolindo a bebida”, conta.

Outros tipos de trote comuns são carregar frutas com as nádegas e simular posições sexuais com outros calouros, ambos sem roupas. Se o estudante não se submeter às “provas” é expulso do grupo.

Atualmente, o estudante tem mais clareza dos abusos, mas conta que, na época, achava que era um ritual de iniciação pelo qual tinha que passar. “Você não entende muito bem o que está acontecendo, mas olha para os veteranos e pensa: todo mundo passou por isso, o que tem de tão bom por trás disso? E isso te incentiva a continuar”, afirma.

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