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"Saímos com outra cabeça", dizem alunos de escola símbolo das ocupações

Hugo Araújo

Do UOL, em São Paulo

2016-01-04T16:59:41

2016-01-04T18:47:05

04/01/2016 16h59Atualizada em 04/01/2016 18h47

"Todo mundo que está saindo da ocupação, sai com uma cabeça diferente". É o que afirma Alice Magalhães, 17, da E. E. Fernão Dias, localizada em Pinheiros, que virou símbolo das ocupações na capital paulista e será desocupada hoje.

Os estudantes decidiram em conjunto pela desocupação e afirmam que a luta vai continuar de outras maneiras. "A pauta mais urgente agora é lutar contra o aumento da tarifa", explica Alice.

Marcela Nogueira, 18, conta que agora a ideia é articular as pautas entre os secundaristas, buscando a melhoria da educação como um todo. "Nós precisamos de um grêmio estudantil, reformas nas escolas e queremos aula pública aos finais de semana. A comunidade deve ter acesso à escola", afirma.

As estudantes se orgulham de apresentar a série de melhorias que a ocupação propiciou à escola. Cozinhas, salas de aula, banheiros e biblioteca estão limpos e organizados. "A biblioteca estava muito bagunçada quando chegamos, nós organizamos os livros nas estantes e limpamos. Achamos livros que não foram usados", explica Alice.

Eles também fizeram consertos nos banheiros. As salas de aula tiveram suas carteiras organizadas em roda, o modo como eles desejam assistir às aulas.

Os estudantes também fizeram um painel de papel e afixaram nas portas da coordenação da escola. O mural apresenta recados e demandas dos alunos da ocupação.

Balanço

"As meninas tomaram a linha de frente aqui na ocupação. Muitas meninas se libertaram e se empoderaram dentro da ocupação", explica Alice. Ela afirma que, durante a ocupação, discutiram machismo constantemente.

"Até os meninos estão bem diferentes, plantamos uma semente de mudança", conta Marcela. Para ela, essa consciência será levada para casa. "Muitas meninas contam que já estão desconstruindo, apontando machismo em casa", conta entusiasmada.

Futuro

Sobre o futuro do movimento, Marcela afirma que a pergunta fundamental agora é "qual a escola que nós queremos?". "A gente quer sentar em roda ou enfileirado como num quartel?", questiona.

Além disso, elas contam que aprenderam como nunca nas ocupações. "Os índios vieram aqui e deram aula, eu fiquei emocionada. É essa a escola que nós queremos, que tenha discussão sobre índios, racismo, gênero e sexo", explica Marcela.

"A escola é um modelo para a vida. A gente tem que derrubar estes tabus do que pode ou não ser discutido aqui", conclui Alice.

Nesta segunda-feira (4), a Escola Fernão Dias passará por uma perícia para analisar o estado da instituição. "A Polícia Civil fará a perícia após a desocupação. É uma norma legal. A gente não pode retomar as aulas sem a garantia de que está ou não está tudo em ordem", disse Rosangela Valim, Dirigente Regional de Ensino da Diretoria de Ensino Região Centro-Oeste.

Segundo ela, a proposta é que as aulas já voltem na próxima quarta-feira. "Amanhã faremos uma reunião com pais, alunos e professores para falar do cumprimento do calendário letivo."

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