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Jovem brasileiro vai fazer mestrado na China e quer ser líder político LGBT

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Thiago Varella

Colaboração para o UOL, em Campinas

20/01/2016 06h00

A China não é o local mais acolhedor do mundo para quem é gay. Para se ter uma ideia, as relações homossexuais só foram descriminalizadas em 1997. Mesmo assim é lá que o brasileiro Ítalo Alves pretende se preparar para se tornar um líder político LGBT no Brasil.

O cearense de 23 anos foi o único brasileiro aprovado pela Schwarzman Scholars, um programa de mestrado na Universidade de Tsinghua, na China. O principal objetivo do programa de um ano é identificar e formar rede de líderes. A primeira turma é composta por 111 alunos de 32 países e 71 universidades.

Alves, que hoje vive em Nova York e tem um bom emprego em uma gigante contábil especializada em auditoria e consultoria, vai para a China com um objetivo claro: se preparar para, no mínimo, ser uma referência LGBT no Brasil. Ele sabe muito bem a importância de ser um exemplo para os gays e lésbicas mais jovens.

O brasileiro nasceu em uma família de classe média-baixa de Fortaleza, filho de uma professora e de um auxiliar de almoxarife. Cresceu estudando em escolas públicas cearenses e sofrendo bullying por ser o ‘nerdinho CDF’ da sala e, claro, por ser gay.

“Comecei sofrendo agressão verbal, que logo passou para física. Quando o caso ficou sério, mudei de escola. No ensino médio, a situação melhorou um pouco, mas eu ainda era isolado dos demais”, conta.

Anos depois, Alves reconhece que não ter tido um referencial, um homossexual em que pudesse se espelhar, acabou tornando sua experiência violenta ainda mais brutal. Por isso, ele está decidido a se engajar politicamente assim que regressar ao Brasil.

“Eu pretendo me engajar de duas formas. No empreendedorismo social, abrindo uma firma e, através dela, fazendo uma política de afirmação do público LGBT. E também na política tradicional, trazendo o foco para as minorias e a juventude”, explica.

“Fugi da carreira política minha vida inteira. Não queria me engajar. Depois que comecei a estudar sobre o movimento LGBT, percebi que não vamos avançar se não estivermos no Congresso. Hoje só há um deputado. E a bancada moralista é muito forte. Quero não apenas legislar, mas também virar referencial dessas pessoas, do menino que apanha na escola e das travestis que moram nas ruas, por exemplo”, completou.

Alves vive há alguns anos nos Estados Unidos. Após o fim do ensino médio, ele  ingressou no Instituto Federal do Ceará, onde cursou um semestre de Engenharia Ambiental. No entanto, não era aquilo que ele queria. O brasileiro decidiu, então, prestar o SAT, o vestibular americano. Passou e, com o auxílio de uma ONG, conseguiu uma bolsa de estudos para cursar negócios internacionais e finanças na Universidade Quinnipiac, em Connecticut.

O desafio de enfrentar um batalhão de candidatos em busca de uma vaga em um programa de estudos não é, portanto, algo inédito na vida de Alves. O processo seletivo para o mestrado na China, no entanto, foi especial.

Na primeira etapa, os mais de 3.000 candidatos tiveram de escrever três redações sobre seus interesses intelectuais, liderança e um momento importante da vida. Alves redigiu mais de 30 textos para escolher seus três.

“Esse programa é diferente porque quer selecionar jovens pelo que eles são. Querem descobrir o passado dessa pessoa e como influenciou no caráter delas hoje. Nisso, pude me destacar por causa da minha história”, contou.

O brasileiro também gravou um vídeo se apresentando. Para a segunda fase, somente 300 candidatos foram selecionados. Em uma das atividades do processo seletivo, Alves participou de um almoço de networking, em Nova York. Por coincidência, o colocaram na mesa de um dos fundadores do programa Schwarzman Scholars, o magnata bilionário Stephen A. Schwarzman.

“Ele foi acessível e simpático. Falou sobre as motivações do programa e chegou a me contar que já havia ido uma vez a Fortaleza”, relembrou Alves.

Após algumas outras atividades, o brasileiro foi, enfim, escolhido. Ele embarca em agosto para a China, onde vai passar um ano. Alves sabe que, além do mestrado, terá de enfrentar outros tipos de desafio.

“A China ainda é um país machista onde não há muito espaço para quem é homossexual. É óbvio que existe uma comunidade LGBT grande por lá, mas que enfrenta muita resistência. Quero estudar esse grupo. Já faço pesquisa sobre a participação do público LGBT nos negócio, mas nunca estudei esse assunto em um país menos avançado em termos sociais”, contou.

Alves espera que a experiência chinesa o ajude quando voltar para casa. “No Brasil, ainda temos índices altíssimos de violência contra os gays. No mundo dos negócios, as poucas pesquisas que existem mostram do potencial do público LGBT como consumidor. Por isso, as empresas fazem tantas ações de marketing, mas nenhuma em termos de integrar esse público como funcionários mesmo, pensando e liderando ações”, afirmou.

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