Enem

Em Curitiba, estudante "adivinha" tema de redação sobre preconceito racial

Rafael Moro Martins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

Numa manhã de domingo ensolarada --após uma semana quase toda nublada e fria-- em Curitiba, o estudante Hugo Sumida, 17, aguardava ansioso neste domingo (4) pelo início do segundo dia de provas do Enem remarcado pelo MEC (Ministério da Educação) para os inscritos que deveriam ter feito o exame em escolas que foram ocupadas por alunos que protestaram contra a medida provisória que altera o ensino médio.

Aluno de uma escola particular, Hugo deveria ter feito a prova, em novembro, no Colégio Estadual do Paraná, que se tornou um ícone das ocupações. Como ele, 43,6 mil paranaenses tiveram de esperar até dezembro para prestar o exame.

Hoje, Hugo aguardava para finalizar o Enem numa faculdade particular localizada a meia quadra do Terminal Guadalupe, no centro, ponto final de linhas de ônibus que vêm de cidades da região metropolitana e em torno do qual funciona o comércio popular de Curitiba. "A essa altura do ano, eu já deveria estar em casa", explicou. A família dele vive em Itaúna do Sul, município de menos de 4 mil habitantes no noroeste paranaense.

Rafael Moro/UOL
Hugo Sumida, 17, apostou que a prova de redação cobraria uma análise sobre "a questão racial no Brasil"

Antes de viajar, ele tinha uma missão e tanto pela frente. Busca uma vaga no curso de medicina na UFPR (Universidade Federal do Paraná). "Ano passado, era preciso fazer mais de 800 pontos no Enem. Pra fazer essa pontuação, não dá pra errar quase nada", vaticinou.

Ele não quis ver o gabarito das provas do primeiro dia --"para não me desestimular"-- e apostava que a prova de redação cobraria uma análise sobre a "a questão racial no Brasil". Pouco tempo depois, o tema foi divulgado pelo MEC: racismo no Brasil. Hugo adivinhou.

Esperando pela prova sentada sob uma marquise --na calçada oposta à que estava Hugo--, Karolina Fornitani, 19, tinha o mesmo palpite. "Acho que a [questão da prova de] redação será sobre preconceito racial", apostava. Em busca de vaga num curso de odontologia, ela disse se sentir prejudicada com o adiamento do Enem.

"Não é justo. Nós tivemos mais tempo para estudar do que quem fez a prova em novembro. E, mesmo que o nível de dificuldade das provas seja o mesmo, elas são diferentes", criticou, apesar de ter achado as questões deste sábado (3) tão difíceis quanto as do primeiro dia do exame aplicado mês passado.

Na Facel, uma faculdade particular onde Hugo, Karolina e um grupo de mais de 500 inscritos deveriam fazer o Enem, a abstenção no primeiro dia de prova chegou a quase 40%, revelou um funcionário ao UOL. No sábado, quatro inscritos chegaram atrasados para fazer a prova ali; no domingo, não houve retardatários.

Em frente ao prédio, uma vendedora ambulante ofereceria canetas esferográficas pretas, água mineral (com ou sem gelo), dropes e barras de cereais --tudo a R$ 5. "É domingo, estou aqui desde às 10h30, e do preço fazem parte minhas horas de trabalho, o combustível do carro", justificou a bem humorada vendedora, que sabe do que fala. É estudante de ciências contábeis na UFPR, e pediu para não ser identificada na reportagem.

Uma de suas clientes foi a taxista Karina Ribeiro, 27, que esqueceu pelo segundo dia consecutivo de trazer uma caneta preta para a prova. Ontem, conseguiu uma emprestada. Hoje, comprou em frente ao local do exame. "Se soubesse [do preço], tinha vindo vender", falou, rindo.

Após o fechamento do portão na Facel, a vendedora contabilizou 26 canetas vendidas no sábado e no domingo. "Está bom", falou. A filha dela, também aluna da UFPR --estuda engenharia civil-- fazia o mesmo trabalho noutro local de provas em Curitiba.

A renda extra obtida das vendas --repetidas, na entrada de concursos públicos, vestibulares e outras provas-- quase todo fim de semana rende o mesmo que o salário num escritório de contabilidade. "Muita gente já me conhece [nos concursos]. Mas, por favor, não coloque meu nome aí não", pediu, rindo.

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