Como cordéis estão sendo usados para debater questões sociais nas escolas

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Facebook

    Escritos por Jarid Arraes, os cordéis abordam temas como racismo e feminismo

    Escritos por Jarid Arraes, os cordéis abordam temas como racismo e feminismo

Os cordéis extrapolaram a tradicional exposição em varal ou barbante e passaram a ocupar um novo espaço: as salas de aula. Forma típica de expressão do Nordeste brasileiro, a literatura de cordel é conhecida por disseminar culturas e tradições populares locais.

Em produções mais atuais, os cordéis aparecem também com temáticas sociais, para falar sobre questões raciais e de gênero. É o caso das obras escritas por Jarid Arraes, 25. Nascida em Juazeiro do Norte, no Ceará, ela conta que começou a se aventurar no mundo dos cordéis ainda criança, lendo as obras feitas por seu pai e por seu avô.

Ela já publicou mais de 60 títulos de literatura de cordel. Os principais temas que aparecem em seus trabalhos são o machismo e a vida de mulheres negras, sobre os quais, segundo a autora, "infelizmente não aprendemos".

"Acho que esses temas são urgentes. Ainda estamos caminhando devagar para que nossa sociedade se torne mais igualitária e penso que o cordel entra nesse quadro de uma forma muito bem encaixada", ressalta.

Kelly Alves Sugiyama
Alunos da EMEF Pracinhas da FEB durante atividade com os cordéis em sala de aula

Kelly Alves Sugiyama, 32, é uma das professoras que escolheu usar o cordel "Chega de Fiu-Fiu" em sala de aula. Na EMEF (Escola Municipal de Educação Fundamental) Pracinhas da FEB, a obra é utilizada para incentivar o debate sobre violência contra as mulheres.

Para a professora, é bastante claro como os alunos imediatamente se identificam com os temas, "especialmente as meninas e os que sofrem algum preconceito ou discriminação". O ritmo desse tipo de literatura, segundo ela, também ajuda muito a chamar a atenção dos jovens.

"Os cordéis são bons para a aprendizagem porque podemos ver o que está acontecendo na nossa sociedade", opina a aluna Mayara Marin, 14. Já Sara Cardoso, 14, acha que "a maioria dos livros não conta histórias sobre a discriminação, preconceito e até o respeito que devemos ter com todos".

Poder de transformação

Tanto Jarid quanto Kelly dizem acreditar que, sem a discussão de temáticas como essas nas escolas, não há como esperar a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

"Essa é uma luta diária e difícil", afirma Kelly. "É no ambiente escolar que as transformações podem acontecer, já que é nesse espaço, especialmente, que os alunos constroem suas identidades", complementa a professora.

Arquivo pessoal
Para Jarid, é importante "desmentirmos grandes mentiras" que aprendemos na escola

Para Jarid, a maior importância desse debate está em "desmentirmos grandes mentiras que muitas vezes nos foram ensinadas na própria escola". "Muitos de nós aprendemos que os negros se conformavam com a escravidão, o que não é verdade: sempre houve luta, centenas de quilombos, lideranças que enfrentaram o racismo de frente, heroínas como Tereza de Benguela, Aqualtune, Maria Aranha, Tia Ciata, Zeferina e tantas outras que estavam na linha de frente", argumenta.

Saber as contribuições históricas e sociais que foram feitas por pessoas negras e pelos países africanos, segundo a autora, também ajuda a fazer com que as crianças enxerguem o mundo de forma menos racista. "Elas podem se espelhar nessas pessoas, podem se reconhecer como negras, encarar isso de uma forma positiva e bonita, promover aceitação."

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