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Relembre as polêmicas que explicam o Enem 2019

Estudantes se aglomeram em frente a universidade em São Paulo, um dos locais de prova do Enem 2019 - Vitor Pamplona/Colaboração para o UOL
Estudantes se aglomeram em frente a universidade em São Paulo, um dos locais de prova do Enem 2019 Imagem: Vitor Pamplona/Colaboração para o UOL

Carolina Cunha

Colaboração para o UOL

11/11/2019 08h37

Este foi o primeiro Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019 realizado pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), e diversas polêmicas colocaram o exame em xeque.

As provas aconteceram nos dois últimos domingos, 3 e 10 de novembro. Foi a primeira vez que a ditadura militar e a Era Vargas ficaram de fora de um Enem.

Relembre as polêmicas e fatos que marcaram o exame ao longo de 2019.

Conteúdo questionado e prova sem ideologia

Logo após as eleições, o presidente Jair Bolsonaro fez críticas ao Enem 2018, reclamando de uma questão sobre o pajubá, dialeto de gays e travestis. Ele disse que a prova deveria cobrar conhecimentos úteis e acusou o Enem de ter questões ideológicas de esquerda, como a "ideologia de gênero", termo que não é reconhecido por acadêmicos.

Em transmissão ao vivo no Facebook, Bolsonaro afirmou que ele tomaria conhecimento do conteúdo do Enem antes da aplicação da prova e prometeu realizar uma fiscalização em todas as questões.

Em julho, após a divulgação de que as provas foram enviadas à gráfica, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou que nem ele, nem o presidente Jair Bolsonaro tiveram acesso ao conteúdo.

Após a primeira prova do Enem 2019, em 3 de novembro, o ministro afirmou que o exame foi um sucesso e não teve incidentes, a não ser o vazamento da página de redação da prova. "Ao contrário das edições anteriores, onde vimos sujeira, doutrinação e problemas cabulosos com gráficas, este exame foi um sucesso. A cara do governo Bolsonaro", disse.

Ainda de acordo com Weintraub, o conteúdo das provas foi adequado. "Não teve nada polêmico. Como deveria ser, sem doutrinação, sem 'forçação' de barra". Ao ser questionado sobre a prova não trazer nenhuma pergunta sobre a ditadura militar, ele afirmou que a discussão sobre 1964 não leva a "nenhum lugar".

Enem digital

O MEC divulgou, em julho, que vai implementar uma prova digital em 2020, que teria como objetivo reduzir os gastos de R$ 500 milhões para R$ 20 milhões. "É o começo do início do fim do Enem tradicional", disse Weintraub. Em 2026, a pasta pretende realizar um exame totalmente digital. Muitas escolas reclamaram, por não possuírem a estrutura adequada de computadores.

Fiscalização das questões do Enem

Em março deste ano, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) anunciou a criação de uma comissão para analisar as questões que constituem o Enem.

De acordo com nota técnica publicada pelo Inep, a comissão deveria "identificar abordagens controversas com teor ofensivo a segmentos e grupos sociais, símbolos, tradições e costumes nacionais" e, com base nessa análise, recomendar que tais itens não fossem usados na montagem do exame deste ano.

O trabalho da comissão criada pelo Inep foi concluído em abril, mas o resultado não foi divulgado, dado o caráter sigiloso do Banco Nacional de Itens, composto por questões que ficam disponíveis para aplicações do Enem.

Com medo de interferência ideológica do governo e de uma possível censura, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do MPF (Ministério Público Federal) pediu explicações ao Inep sobre a criação da comissão e os critérios usados na avaliação. Segundo o Inep, o órgão assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o MPF para que grupos minoritários sejam incluídos nas questões do exame.

Falência da gráfica

"Alerta, o Enem está em risco" foi título de algumas manchetes de jornais em abril. A empresa RR Donnelley, a gráfica que imprimia o Enem, decretou falência e a paralisação de todos os trabalhos. A mudança da empresa na etapa do processo quase ameaçou o cronograma de realização da prova. Uma nova licitação teve que ser realizada às pressas, o que garantiu a impressão das provas a tempo.

Demissão de Vélez e pasta parada

Assim que assumiu o cargo de presidente, Bolsonaro afirmou que o novo titular do MEC seria alguém com "autoridade" e que entendesse que o Brasil é um país "conservador". O escolhido foi Ricardo Vélez Rodríguez, indicado pelo escritor Olavo de Carvalho.

Vélez foi demitido por Jair Bolsonaro menos de 100 dias depois de sua nomeação e se envolveu em uma série de controvérsias. Logo nos três primeiros meses do ano, foram anunciadas mais de 15 demissões no alto escalão do MEC e a pasta foi acusada por especialistas em educação de estar parada.

Nos meses em que Vélez Rodríguez esteve à frente do Ministério, o ministro deu declarações polêmicas, como afirmar que não existia universidade para todos e que o brasileiro no exterior se comporta como um "canibal" e "rouba coisas dos hotéis". Em fevereiro, o MEC enviou uma carta oficial para diretores de escolas sugerindo que as crianças deveriam ler o slogan de campanha do presidente Jair Bolsonaro, o que é ilegal, e cantar o Hino Nacional.

Em abril, Abraham Weintraub, economista que atuava na Casa Civil, entrou como o substituto.

Demissões no Inep

O Inep é o órgão responsável pelo Enem e foi protagonista de uma série de mudanças nos cargos do alto escalão do governo, expondo uma crise interna que gerou preocupação com eventuais problemas na execução do Enem e de outras avaliações.

Logo em janeiro, Maria Inês Fini, então presidente do Inep, foi demitida pelo governo bolsonarista. Murilo Resende, ligado a Olavo de Carvalho, foi escolhido para chefiar o órgão. Em um tuíte, Bolsonaro apresentou o novo coordenador do Enem como "doutor em economia pela FGV e seus estudos deixam claro a priorização do ensino ignorando a atual promoção da lacração, ou seja, enfoque na medição de formação acadêmica e não somente o quanto ele foi doutrinado em salas de aula".

Mas no dia seguinte, Resende foi exonerado. Ele é autor da afirmação "professor não gosta de estudar de verdade" e foi acusado de plágio em um artigo acadêmico.

No dia 22 do mesmo mês, Marcus Vinicius Rodrigues foi nomeado para a função. Conhecido por defender o Escola sem Partido, ele defendeu a revisão do banco de questões do exame e criticou "ideologias e crenças inadequadas" dentro das escolas. Outra polêmica foi sua defesa da ação dos militares no golpe de 1964.

Mas Rodrigues foi demitido em março, ao se desentender com o ex-ministro Ricardo Vélez Rodríguez. A demissão foi motivada pela polêmica decisão de não realizar avaliação do nível de alfabetização das crianças, que foi cancelada e depois retomada.

O cargo ficou vago até abril, quando um delegado da Polícia Federal, Elmer Coelho Vicenzi, foi nomeado para presidir o Inep. Ele foi criticado por educadores por não ter experiência na área. Um mês e meio depois, ele foi exonerado, após uma desavença com a Consultoria Jurídica do Inep, que desaconselhou o acesso, por parte do Ministério da Educação (MEC) a dados pessoais de alunos para emissão de uma carteirinha estudantil que o governo pretende lançar.

Em maio, um novo presidente do Inep é nomeado, Alexandre Lopes, um servidor público de carreira que está no cargo até hoje. Assim que assumiu a função, ele declarou que o Enem 2019 teria o cronograma mantido.

Cortes no Inep

A realização do Enem teve ainda outra ameaça. No primeiro semestre, o MEC promoveu cortes de verbas. Em maio, técnicos do Inep comunicaram à imprensa que houve contingenciamento de 25% da verba, o que poderia colocar em risco a realização do exame. No entanto, O MEC conseguiu alocar as verbas necessárias.

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